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10 de set. de 2008

POR QUE TEMOS MEDO DA MORTE?


Por que temos medo da Morte?
(Publicado no Jornal de Hoje em 07/12/2004)
*Juarez Chagas

Por que temos tanto medo da morte? Parece que, de tanto se ouvir falar da morte (não de se discutir e se informar sobre ela) e do pavor que a mesma semeia sobre nossas vidas através dos tempos, a pergunta parece simplória e sua resposta poderia soar um tanto quanto óbvia. Mas, não é bem assim, pois envolve algo, senão tão misterioso quanto a morte, mas igualmente intrigante e presente em nosso mundo imaginário e sentimentos, que é a própria idéia ou medo da morte. Como lembra a frase de William Dunbar, “Timor mortis conturban me”, ou seja, “A idéia da morte me deixa morto de medo”, e o sentido do medo, às vezes, torna-se maior do que a própria morte.

Muitos são os estudiosos do medo e a maioria deles tem constatado que muitos dos medos podem se transformar em fobias, ansiedade e pânico, que podem ser analisados como estágios crônicos do medo, cujas conseqüências e repercussões são, normalmente, desastrosas e comprometedoras, por vezes, afetando nosso comportamento e personalidade e, conseqüentemente, influenciando nosso modo de viver.

Desmistificando o pensamento popular de que homem que é homem nem chora e nem tem medo, é inegável que todos tenhamos medo, assim como todos choramos. Muito embora, muitos o façam escondido e neguem tal fato, o que se caracteriza como sendo uma bobagem, pois rir e chorar sao consequencias de sentimentos e emoções inerentes ao ser humano. Por outro lado, negando o medo ou não, este é importante em nossas vidas, talvez, tanto ou mais do que a coragem e a bravura, seus antagônicos, desde que se manifeste como alerta consciente à sobrevivência e nos faça pensar melhor em nossas atitudes e suas conseqüências. Na verdade, se constitui em um estado emocional de alerta frente ao perigo, à ameaça, à insegurança e às incertezas, existindo como um mecanismo psicológico de defesa. Ao contrário, o medo da morte só traz angústia e ansiedade.

Vários têm sido os conceitos para o medo e, no final, parece que cada um deles apenas nos mostra uma de suas facetas, permanecendo assim, nas entrelinhas (como diria Lacan), muito mais do que realmente é e, adormecido ou sempre em estado de alerta, em nossos sentimentos e em nossa consciência.

Como os instintos necessários à sobrevivência, o medo também é uma das mais antigas emoções do ser humano que, embora não pareça, tem garantido sua existência e sobrevivência através dos tempos, possuindo grande importância no psiquismo e personalidade humana, a ponto de exercer enorme influência e determinações em seu comportamento. Pois é por meio do medo que o ser humano descobre o quanto é vulnerável através de suas fraquezas e incapacidades de enfrentar determinadas situações, transpor obstáculos e se manter isento de perigos. O medo é psicossomático e essa condição está intimamente relacionada às diferentes reações desencadeadas como respostas a este fenômeno que, diga-se de passagem, são várias e normalmente diferentes, de pessoa para pessoa. Nunca devemos esquecer, no âmbito Portanto, temos medo da dor porque ela “machuca” nosso físico e a sensação psíquica que temos é de sofrimento imediato. Por outro lado, o medo também “invade” nossas mentes e habita nosso emocional, manifestando uma dor mais lenta, porém mais duradoura, arrefecendo nosso corpo e desencadeando, inclusive patologias orgânicas. Pior ainda é se criamos o medo em nosso imaginário, antecipando “possíveis ilusões, traumas e dores psíquicas” para alguma coisa que nem sequer ainda aconteceu. Como vemos, o medo, quando em forma patológica, pode causar muitos problemas, de várias ordens, em nossas vidas.

Assim sendo, existe medo pra tudo no mundo e o que, a princípio, parece um desastre, logo se configura como sendo uma vantagem, além do que não podemos nos dar ao luxo de ter apenas um medo, porém vários. A lista realmente não é pequena e, evidentemente, dentre eles está um dos maiores medos da humanidade, a morte!

O medo da morte explica-se por si só, ou seja, pelo fator medo e não somente pelo fato da morte existir, mas pela constante e infindável ameaça que a mesma semeia sobre nós. Em segundo lugar viria o desconhecimento sobre a morte, responsável pelo constante temor do que ela representa e pelo seu eterno mistério desconhecido. Como se isso não bastasse para a aflição dos humanos, o medo da morte é rotulado também como sendo a origem e a evolução de todos os demais medos. Isso explica porque temos medo da separação, da distância e da perda de tudo que gostamos, necessitamos e nos apegamos, pois ao perdemos algo, alguém ou qualquer coisa que represente essa necessidade, afeição esse algo que já é parte de nosso ser, é algo que morre em nós, porém não antes da angústia do medo nos conduzir a esse fato.

Retomando a questão básica sobre o medo da morte, Kastenbaum diz, no seu livro Psicologia da Morte que “o medo à morte não deve ser cultivado nem tolerado: deve ser superado”. Se analisarmos melhor, veremos que esta não é uma frase de enfeito, porém um sábio entendimento, pois no dia em que superarmos o medo da morte, certamente a venceremos mesmo que continuemos a morrer. Podemos ver, finalmente, que uma das formas de se ter menos medo da morte é conhecendo o próprio medo e, em seguida, sabendo melhor quem e o que é a morte e qual a sua face.

*Professor do Centro de Biociências da UFRN(juarez@cb.ufrn.br)

9 de set. de 2008

OS BRUTOS TAMBÉM AMAM

Os Brutos Também Amam
(Publicado no Jornal de Hoje )
* Juarez Chagas


Teatro, literatura e cinema, são indubitavelmente, os principais meios de representações dos conteúdos, da subjetividade e caráter da natureza humana, na contemporaneidade. Antigamente, podíamos fazer uma analogia mitológica. Agora, eu arriscaria ate dizer que, são verdadeiras escolas, nas quais o conhecimento sobre o homem e suas historias, podem ser igualmente ensinadas, divulgadas e armazenadas (agora com nova tecnologia) às gerações futuras, de forma inclusive autodidata. Alias, é muito mais que isso. É a arte humana que emana do seu próprio ser, norteando sua trajetória e sua busca.
Sobre o assunto, justifico o título do artigo explicando que, após muito tempo, consegui encontrar, no mercado livre da Internet, a revista Cinemin no. 58 (Ebal Novembro 1989), em sua 5ª serie, única da coleção que me faltava e que, salvo engano, foi publicada ate o no 86 (Out/Nov 1993). Esse numero, especificamente, traz em destaque a resenha do filme Os Brutos Também Amam (Shane, USA/Paramount, 1953), magistralmente produzido e dirigido por George Stevens, o mesmo que dirigiu Assim Caminha a Humanidade (Giant, 1955), mesmo ano em que morreria James Dean (o qual roubaria cenas de Elizabeth Taylor e Rock Hudson, tido como principais protagonistas do filme) quando o filme ainda estava sendo editado. James Dean não viu a estréia de Giant. Fato similar aconteceu poucas vezes em Hollywood, assim como Bruce Lee, morreu quando seu mais importante filme Operaçao Dragão (Enter the Dragon, 1973) também estava sendo editado. Bruce nao chegou a ver a estréia de seu filme que foi o primeiro filme de Artes Marciais filmado pela Warners e totalmente aceito por Hollywood, o qual é ainda hoje o melhor filme do gênero e do melhor artista marcial de todos os tempos.
Mas, voltando aos Brutos Também Amam, cujo título na verdade não retrata exatamente sua história, tendo sido muito mais uma jogada de marketing da época, do que propriamente fiel à trama e, nesse caso especifico, o titulo em Inglês (Shane) é muito mais real. Na minha opinião, foi um desses filmes injustiçados pela academia hollywoodiana, por não ter recebido o Oscar que merecia, mesmo sabendo que Allan Ladd não era um grande ator, porém teve o melhor desempenho de toda a sua carreira nesse filme e a sorte de ter sido dirigido por um gênio da sétima arte, que transformou esse western num dos maiores clássicos do gênero. Quando eu digo que Shane merecia o Oscar, estou comentando, por exemplo, que Matar ou Morrer (High Noon, 1952), de Fred Zimmermann, filmado um ano antes e protagonizando Gary Cooper e Grace Kelly, foi detentor de 4 Oscars. Não que Matar ou Morrer não tenha tido seu mérito, porém no roll dos clássicos, Shane foi considerado muito mais filme. Mas, não vamos discutir aqui a política de premiação do Oscar...
A história começa com Shane, um pistoleiro que foge do passado e pensa em dependurar as armas (mesmo vivendo uma época onde no Oeste o revolver ditava a lei), chegando a um vale, onde pequenos colonos tentam resistir às ameaças de um cruel latifundiário. Na passagem pelo seu cominho, cansado e com sede, ele se depara com um rancho onde pede informação e água ao seu dono, Joe Starret (Van Heflin). Nesse exato momento, os homens de Ryker (Emile Meyer chegam para “convencer” Joe a vender suas terras e ir embora. Porém, ao verem Shane, desistem da investida e resolvem contar ao seu chefe que há um pistoleiro no vale. Joe, por sua vez, convida Shane a pernoitar e em seguida o contrata para lhe ajudar a desenvolver seu pequeno rancho. Shane, em busca de paz, aceita a oferta. Na verdade, achava que ali, não precisaria mais usar os revolveres e sentiria a sensação do que é viver num pacato lar com uma família, embora nao fosse a sua.

A trama se completa quando o pequeno Joey, o filho do casal Starret (Brandon de Wilde) se apega ao pistoleiro, que também desperta um amor platônico em sua mãe, a Sra. Starret (Jean Arthur). Ryker, em contra-partida, para intimidar duma vez por todas os colonos e, para fazer frente a Shane, manda buscar o mais temido dos pistoleiros, na cidade Cheyenne, Jack Wilson (Jack Pallace). Esse sim, um pistoleiro sem alma, frio e sanguinário e que tinha matar como ofício.
Vale salientar que, assim como Allan Ladd teve em Shane seu melhor papel, esse foi um dos mais importantes papéis de Pallace (nessa época ainda conhecido como o pugilista Walter Jack Pallace), o qual o consagrou definitivamente como astro, apesar de ter participado, praticamente apenas do final do filme. Ele chega, por vezes, a roubar cenas de Allan Ladd, com grande categoria e excelente performance, quase sem dar uma palavra. O tipo longilineo, calado, calculista e frio completava a personagem, marcante que representa o lado mal da história.
O desfecho da história é, como se previa, espetacular, pois não há apenas um duelo entre Shane e Wilson, ou seja, entre o bem e o mal, porém uma grande profundidade de conteúdo sobre a natureza humana em conflito, onde quer que ela se passe, como sabia mostrar tão bem o velho Stevens. No momento do duelo, não se vê apenas dois pistoleiros em ação, mas todo um percurso humano em busca de suas conquistas, derrotas e seus resultados.
Após vencer Wilson e os demais bandidos, Shane ao invés de voltar para o rancho dos Starrets (apesar do pedido do pequeno Joey que o havia seguido), segue seu caminho sem rumo, como um andarilho, assim como havia chegado, pois ele sabe que seu maior conflito estaria naquele rancho e não nas balas dos revolveres fumegantes de seus inimigos. Então, parte sem destino em busca de si mesmo, deixando o pequeno Joey acenando e chamando seu nome ecoando nas planícies, para que voltasse. O pequeno Joey ver seu herói partir, mas muito dele ficara em si mesmo. Essa é mais uma das suaves belezas do filme, a cena tocante no final.
Nesse sentido, sobre a busca do ser humano, seja em que esfera ou área, o próprio James Dean costumava dizer que “Mais vale a angustia da busca do que a paz da acomodação”. Por isso Shane procurava a si mesmo onde nao podia encontrar.

* Professor do Centro de Biociências da UFRN/Juarez@cb.ufrn.br

SHANE


Shane
(Publicado no Jornal de Hoje )

*Juarez Chagas

Não imaginei que o artigo “Os Brutos Também Amam” (Shane, USA/Paramount, 1953), fosse levar três leitores a me enviarem e-mails, comentando sobre esse maravilhoso clássico do western americano, genialmente produzido e dirigido por George Stevens, um dos fabulosos diretores da categoria do gigante e mentor John Ford. Um desses e-mails solicita maiores detalhes sobre Shane e sua importância em representar um filme que, não apenas marcou época, mas também originado, indiscutivelmente, de um dos mais importantes romances do faroeste (far west) já escrito e, magistralmente, transportado para o cinema, pelo obstinado Stevens, que também dirigiu Giant em 1955, filme este que foi a ultima atuação de James Dean, o rebelde sem causa.

Na verdade, o interesse que persiste sobre essa clássico, traduz o seu significado para milhares de fãs em todo o mundo, pois não foi apenas um clássico da sétima arte, mas um marco da literatura que mostrou a essência do ser humano, quando se vê dividido entre seu estado animal e racional, mostrando conteúdos psicológicos dos conflitos do seres humanos, independentemente de sua classe social, seja western, onde os revolveres decidem ou no executivo, onde uma caneta sacada do paletó pode provocar uma guerra e mandar milhares de soldados para a morte, com o objetivo de ostentar poder.
Sabemos que depois do cinema mudo, o western (filmes categoria B ou não) foi um dos principais propulsores do cinema norte-americano, surgindo verdadeiras empresas cinematográficas, cada qual disputando seu espaço no mundo do cinema, que também pode ser visto como escola, empresa e até, por vezes, como questão de segurança nacional, onde interesses políticos e científicos são transportados para as telas, enaltecendo a força de seu pais. Essa historia de que a arte imita a vida, é a pura verdade.
Mocinhos e bandidos, seus cavalos, a mocinha e seus revolveres eram o principal filão da mina e, por isso, tudo sobre cowboys parecia banalizado. Era muita pólvora e chumbo quente e, infelizmente, pouca qualidade pelo próprio desgaste natural a que se submetem, a enxurrada de filmes faroestes sem bons roteiros e diversificações nas tramas. Era, portanto, preciso mostrar os lados vigorosos, excêntricos, reais e humanamente verdadeiros da natureza humana, na sociedade do oeste, pois ela existiu e como existiu! Os grandes roteiristas, produtores e diretores, resolveram então se inspirar nos grandes escritores e novelistas do western, como A. B. Guthrie, Jr (detentor do premio Pulitzer de 1950, com seu famoso The Way West, 1949, não publicado no Brasil, o qual me foi presenteado pelo saudoso Protasio Melo, que foi meu professor de Literatura Americana, nos meados dos anos 70 e que guardo como uma relíquia), o inesquecível Zane Grey que, se manteve fiel às origens e realidade do verdadeiro Oeste e suas origens e suas personagens que brilharam entre os anos 20 e 40, assim como outros romacista famosos que começaram a se preocupar com a verdaderia saga do Far West e suas personagens.
Mas, o grande escritor de Shane, foi Jack Schaefer que escreveu a saga do pistoleiro solitário que, anos depois se transformaria em ícone, roteirizado, imaginem por quem...nada mais, nada menos do que pelo próprio Guthrie, Jr. Para a película de George Stevens, tendo como protagonista Alan Ladd, no filme que o imortalizou na galeria do cinema.
Falar sobre o cavaleiro solitário, diga-se de passagem, é de muita responsabilidade e não é tarefa fácil, pois não se trata apenas de um pistoleiro qualquer. Como vimos no artigo passado, Shane (Alan Ladd), conta a história de um pistoleiro solitário que, cansado de sua caminhada sem destino certo, chega a um rancho recém-construido da família Starret (casal e seu pequeno filho , Joey) e, em seguida, convidado por Joe Starret (Van Henflin) para lhe ajudar em seu rancho. Shane aceita, no intuito de ter um pouco de paz. Porém essa paz é ameaçada por um lado pelo ambicioso e mal latifundiário Ryker (Emile Meyer), que quer expulsar os colonos da região para prosperar sua fazenda e gado e, por outro lado, por começar a surgir um amor platônico entre Miriam (Jean Arthur), a mulher de Joe e Shane. Como que, se sentindo em dívida como Joe, Shane enfrenta os bandidos que querem destruir os colonos, vence todos e, ferido em combate, resolve seguir seu destino de cavaleiro errante e solitário, ao invés de voltar para o rancho dos Starrets.
Mesmo sendo ficção, tanto a locação como elementos do setting do filme tiveram lugar onde o próprio enredo acontce: nas montanhas e planícies do Wyoming, o que confere uma bela fotografia ao flme que foi rodado em 1951, porém concluído apenas dois anos depois. Existem algumas curiosidades que o expectador menos interessado, desconhece. Por exemplo, Stevens primeiro escalou Montgomery Cliff e William Holden (Katharine Hepburn também foi sondada) para os papéis de Shane e Joe Starret, respectivamente. Porém, depois de começar a rodar o filme achou que ambos não estavam correspondendo ao que ele queria, então pediu uma lista de atores do estúdio e, imediatamente, encolheu Allan Ladd, Van Heflin e Jean Arthur. Foi um sucesso!
Apesar de Shane ter recebido seis indicações, o Oscar não lhe foi conferido, lamentavelmente. Porém, por outro lado, comentam os bons críticos (em off) que o júri da época, até hoje se arrepende por não ter escolhido Shane para o Oscar do ano...

* Professor do Centro de Biociências da UFRN/Juarez@cb.ufrn.br

O AMOR DE OS "OS BRUTOS TAMBÉM AMAM"

O Amor de “Os Brutos Também Amam”
(publicado no O Jornal de Hoje)
*Juarez Chagas

Já escrevi dois artigos sobre Os Brutos Também Amam (Shane, Paramount 1953) e, parece interessante como este filme mantém, não apenas sua popularidade ao longo do tempo, mas ainda alfineta, nos dias de hoje, Hollywood por ter-lhe negado o merecido Oscar 1953, embora tenha tido indicação para o garoto estreante Brandon de Wilde (Joey) e vencido no gênero de Melhor Fotografia - A Cores.

Na verdade, esta fantástica produção cinematográfica mostra também, de uma maneira sutil, porém intencional, uma grande lição sobre as condição e natureza humanas, nos tempos do velho Oeste, onde terra, cavalos, gado, ganância e muito chumbo quente ditavam as leis, gerando a mesma velha e real temática do bem contra o mal, dos fortes contra os fracos e oprimidos, algo que a humanidade sempre carregará em sua natureza.
George Stevens (que dois anos antes tinha filmado o excente Um Lugar ao Sol e, que três anos mais tarde se consagraria com Assim Caminha a Humanidade) retratou muito bem a senda dos desbravadores de um lugar deserto, transformado num lugarejo a ser investido, assim como também a rápida passagem de um pistoleiro solitário e sem rumo que, de repente, chega nesse lugarejo, sem saber para onde seguir. Os homens e as poucas famílias do lugar parecem brutos, mas eles têem algo que todo ser humano tem: amor e ódio e isso aflora quando vêem suas conquistas ameaçadas ou prosperando, sob o olhar ganancioso de quem quer enriquecer fácil e às custas do suor dos outros. Foi isso que Stevens, com todo seu feeling e habilidade quis mostrar e, realmente, conseguiu como ninguém.
O filme trata, como vimos nos artigos anteriores, de um misterioso pistoleiro (Shane) que chega de repente num povoado em conflito devido a ambição por posse de gado e terras, comandada pelo ganancioso desbravador Ryker e seus homens contra pacíficos colonos que, timidamente tentam defender seus ranchos e famílias nas terras do Wyoming.
Ao atravessar o vale, sem rumo certo, Shane (vivido por Allan Ladd, no seu melhor papel cinematográfico) se depara com o rancho dos Starrett (Joe, Mirrian e Joey), uma pacata família que trabalha para se estabelecer no lugar, dignamente. Shane desce do cavalo para alguma informação e um pouco de água, quando os impiedosos homens de Ryker (Emilie Meyer) chegam para ameaçar Joe (Van Heflin) a vender seu rancho e sair de suas terras. Os homens vêm Shane ao lado de Joe e o indaga quem ele é. “Amigo dos Starret” responde tranqüilo com seu porte de pistoleiro, o que faz com que os homens se retirem raivosos e desconfiados. A partir daí, o expectador percebe que o filme promete.
Ao se dirigir para seu cavalo para continuar sua caminhada, Shane é convidado por Joe, por sugestão de Miriam (Jean Arthur), para jantar, durante o qual Joe narra toda a história da luta dos colonos no vale e o convida a trabalhar no rancho, como seu auxiliar, convite este que Shane acaba aceitando. Então, a história começa realmente a partir daí...
Os bastidores do filme foram repletos de curiosidades que merecem alguns comentários, como por exemplo, que George Stevens tinha escolhido Montgomery Clift para viver Shane e William Holden para desempenhar Joe Starrett, mas ambos não corresponderam às expectativas de Stevens. Já Katharine Hepburn tinha sido escolhida para viver Mirriam, mas acabou perdendo o papel para Jean Arthur, com quem Stevens já havia trabalhado anteriormente. Por outro lado, Jack Palace (na época mais boxeador do que propriamente ator) tinha problemas com cavalos a ponto da edição do filme ter simulado que ele montava na sela, enquanto na realidade descia dela. Já Allan Ladd tinha problemas com o domínio de armas a ponto da cena em que acertava num alvo à distancia, para ensinar a Joey a atirar, ter sido repetida umas 120 vezes até poder ser escolhida a melhor delas. Stevens não era apenas um diretor exigente, mas perfeccionista também.
No que diz respeito à representação do amor das personagens como combustível na trama do enredo do filme, podemos observar o seguinte:
O amor de Joey – Joey (Brandon De Wilde) é um garoto muito esperto para um menino de 12 anos que vive tentando aprender a atirar com sua espingarda de brinquedo, com a qual espanta os animais que se aproximam do rancho. Ele ama a natureza e seus pais. Porém, quando Shane surge com sua austeridade de pistoleiro solitário, este passar a amar seu jeito e modo como o trata e passa a sonhar ser como ele um dia. Na realidade o filme é visto e narrado através do garoto que tanto vê Shane chegar no início, como o vê partir no final.

O amor de Joe Starrett – Joe é um homem rude, mas que ama sua família e sua liberdade para construir uma vida simples e livre. embora no meio de bandidos chacais que
querem seu rancho e sua pequena terra de qualquer jeito.

O amor de Mirriam – Com a chegada de Shane, Mirriam descobre que o amor platônico existe e é mais forte do que ela imaginaria. Uma paixão secreta por Shane surge, independentemente de sua vontade e, em contrapartida, ela procura fugir como pode desse novo sentimento, sem, no entanto poder ocultar de si mesma que não é apenas admiração o que sente por aquele misterioso homem.

O amor de Shane – Shane, um pistoleiro solitário, com algumas mortes nas costas, é um andarilho sem paz. Descobre nessa simples família que um lar, e não uma vida de tiros e mortes, é tudo o que um homem precisa para viver em paz e, para embaralhar mais ainda sua cabeça, descobre que Mirriam seria a mulher que o faria feliz, muito embora o conflito e a consciência de que não pode e nem deve ceder a esse desejo por ela, fale mais alto.

O amor de Ryker, seus homens e do pistoleiro Wilson (Jack Palace) – O amor destes homens, principalmente Wilson era um tipo de amor estranho, era o fascínio pela morte do outro, pois seria anulando o outro que eles conquistavam seus intentos. Entretanto, surgiu Shane para mudar definitivamente a história e evidenciar que a lei do mais forte sempre existiu e continua a imperar. Com isso tudo, o trabalho excepcional de Stevens mostra que, Os Brutos Também Amam...

* Professor do Centro de Biociências da UFRN(juarez@cb.ufrn.br)

1 de set. de 2008

FREUD ALÉM DA ALMA


Freud Além da Alma

(Publicado no O Jornal de Hoje)
* Juarez Chagas


Ninguém pode negar que, os gênios na maioria das vezes irritam os mortais comuns. Isso sabemos, dá-se por causa dos simples mortais não conseguirem entender ou acompanhar a visão destes homens especiais que, só para parafrasear Nietzsche, decifraram questões pertinentes às ciências, religiões e condição e natureza humanas, que estariam “acima do bem e do mal” e que mexeu com a subjetividade de todos, sem exceção, inclusive a deles mesmo, os gênios da humanidade.

Quem nunca ouviu falar ou se quedou alguns instantes sobre os pensamentos de gênios (ou mais que isso...sem obedecer a hierarquia de valores) como Da Vinci, Galileu Galilei, Jesus Cristo, Gandhi, Arquimedes, Sócrates, Platão dentre tantos outros...e, para citar os mais contemporâneos, Shakespeare, Freud...e até os tidos como gênios do mal como Maquiavel e Hitler, por exemplo?

Muitos livros, tratados, registros de vários tipos e filmes foram feitos para eternizarem esses gênios, de tal modo que, as gerações futuras e o próprio mundo pudessem também se beneficiar de seu feitos.

Por falar em filmes, como registro, tem um filme que gostaria de comentar oportunamente e que diz respeito a Freud, na verdade filmado pelo famoso cineasta americano John Huston, em 1958.

Huston realiza uma pseudobiografia de Sigmund Freud (1856-1939), psicanalista vienense, porém se detendo apenas em um de seus períodos que foi de 1885 a 1900, narrando sua vida de médico. Nessa época, muitos de seus colegas de profissão se recusavam a tratar os casos de histeria, pois achavam que tudo não passava de fingimento dos pacientes para chamar atenção e satisfazer seus médicos preferidos. Porém Freud não pensava assim e passou a aplicar a técnica da hipnose, a qual posteriormente, se tornaria uma prática no tratamento psiquiátrico.

Ocorreu que Freud ansioso por obter respostas plausíveis para aplacar o sofrimento de seus pacientes enveredou-se na doutrina de Charcot e utilizou-se da hipnose em seus estudos sobre histeria. Embora seus estudos encontrassem a resistência da ala conservadora da Medicina, que viam nas teorias de Freud uma ameaça à primazia do ser humano, Freud prosseguiu em sua linha de pensamento e descobriu que o ser humano é dividido entre o Consciente e o Inconsciente, lançando assim as bases da Psicanálise. Posteriormente ele percebeu que para se alcançar o inconsciente não era mais obrigatório que o paciente fosse hipnotizado. Assim sendo, mais tarde, Freud elaborou a teoria das neuroses, cuja origem está na sexualidade infantil. Tudo isso fica bem claro quando Freud elabora a teoria das neuroses, cuja origem está na sexualidade infantil.

Assim sendo, John Huston já familiarizado com a obra de Sartre, o convida para escrever o roteiro de um longa-metragem sobre os anos de formação do pai da psicanálise. Foi assim que surgiu Freud, Além de Alma, uma biografia que traça a trajetória dos primeiros contatos de Freud com tratamentos neurológicos, partindo daí para o desenvolvimento da teoria psicanalítica.

O filme é um drama baseado no roteiro escrito pelo filósofo Jean-Paul Sartre, como já disse, ficando clara a tentativa de evitar o risco de fazer uma caricatura de Freud no sentido de não abordar sua vida pessoal, atendo-se apenas aos seus estudos psicanalíticos. Com isso, Huston consegue focar as importantes descobertas de Freud, tomando como exemplos suas próprias experiências pessoais, como por exemplo, a teoria que desenvolveu sobre o Complexo de Édipo, tomando como elemento a relação com seu pai morto.

O filme apresenta uma linguagem metafórica e onírica, onde Huston aproveita para mostrar o conflito interior vivido por Freud enquanto tentava penetrar no obscuro Inconsciente de seus pacientes, pois temia encontrar o inefável, o impensável. Na verdade, Freud temia encontrar a sua própria essência...é isso que deixa transparecer o cuidadoso Diretor. Montgomery Cliff é convincente no papel de Freud, mas não chega a sugerir nenhum gênio. Isso só seria cogitado, na vida real e fora das telas, muitos anos depois, pois parece que os gênios mortos são mais gênios.

* Professor do Centro de Biociências da UFRN(juarez@cb.ufrn.br)

FREUD ALÉM DA ALMA (II)


Freud Além da Alma (II)
(publicado no O Jornal de Hoje)

* Juarez Chagas


Falávamos, anteriormente, de gênios da humanidade e de como esses seres especiais revolucionaram o mundo em que vivemos, simplesmente por terem sido como foram: a princípio totalmente incompreendidos pelos mortais comuns. Sigmund Freud foi um deles e, chamaria a atenção, um dos últimos gênios a quem a ciência e o mundo tiveram que ser curvar e prestar suas homenagens.

Freud revolucionou a maneira do ser humano ver e reconhecer a si mesmo dentro e fora de seu universo infinito ao estabelecer que os desejos e vontades humanas não são frutos de sua própria vaidade, porém do inconsciente e do que nele habita, criando desse modo, uma nova maneira de entender a psiqué humana. Preocupado com a questão do sofrimento de seus pacientes e, tentando aplacar sua dor, Freud segue a doutrina de Charcot e utiliza a hipnose em seus estudos sobre histeria.

Seu primeiro contato com Jean-Martin Charcot (1825 - 1893) um médico e cientista francês o qual alcançou fama no terreno da psiquiatria na segunda metade do século XIX, tendo sido um dos maiores clínicos e professores de Medicina da França, foi quem na verdade influenciou Freud a delinear a idéia de um “inconsciente” funcionando junto ao consciente, ainda que o mesmo tenha iniciado esse processo de tratamento das neuroses, através da hipnose, técnica essa que sofreu resistência no meio da maioria dos médicos da época. Charcot, por sua vez, concluiu que a hipnose seria um método não somente revolucionário mas também eficiente no tratamento das diversas perturbações psíquicas, em especial a histeria.

Na verdade, Charcot havia se tornado um hábil hipnotizador, e aplicava sua técnica no sentido de induzir no paciente às manifestações próprias da histeria, uma doença mental com sintomatologia psíquica diversa, associada a manifestações físicas, tais quais enrijecimento do corpo e espasmos musculares, característicos da doença. Algumas aulas e demonstrações de Charcot se constituíam num grande espetáculo à parte, concentrando grande audiência de médicos e estudantes, onde ele podia usar a hipnose para criar numa pessoa sadia sintomas como tremores, paralisia, insensibilidade à dor, e vários outros sinais próprios da histeria e, por outro lado, podia igualmente aliviar os sintomas dos pacientes histéricos mediante sugestão hipnótica. Isso deslumbrou Freud, tendo inicialmente sido influenciado profundamente por seu mestre Charcot.

O filme, Freud Além da Alma, trata das descobertas de Freud tomando como base suas próprias experiências psicanalíticas pessoais, como por exemplo, a teoria que desenvolveu sobre o Complexo de Édipo, fundamentando-se na própria relação com seu pai morto. O Diretor do filme, John Huston, lançando mão do roteiro escrito por Jean-Paul Charles Aymard Sartre (19051980), com uma linguagem metafórica e onírica mostra muito bem o conflito interior que viveu Freud enquanto tentava penetrar no obscuro inconsciente de seus pacientes, pois temia encontrar o inefável, o impensável. Na verdade, Freud temia encontrar a sua própria essência, através de seus estudos, nos outros.

No que diz respeito ao roteirista (não menos famoso do que o diretor), Sartre, um filósofo existencialista, escritor, novelista, roteirista, político ativista, biógrafo e crítico literário, com toda essa bagagem era mais do que credenciado para escrever o roteiro deste filme longa-metragem sobre os anos de formação do pai da psicanálise e sua apaixonada biografia, cuja trajetória vai desde seus primeiros contatos de com tratamentos neurológicos até o início do desenvolvimento da teoria psicanalítica.

Entretanto, até hoje não ficou bem claro porque Sartre não permitiu que seu nome constasse nos créditos do filme, embora haja rumores que tentam explicar sua atitude. Quem sabe seu inconsciente-consciente relutasse aceitar a idéia de que ele deveria ter abrangido mais sobre as questões do inconsciente do que propriamente mais sobre os sonhos.

De uma forma ou de outra, nem tudo Freud explica, como já existe até um adágio afirmando isso. Coisas da psiqué humana, afinal é um filme além da alma...

* Professor do Centro de Biociências da UFRN(juarez@cb.ufrn.br)

20 de ago. de 2008

CHUCK BERRY (I)


Chuck Berry Rock ‘n Roll
(Publicado,parcialmente, no O Jornal de Hoje)
*Juarez Chagas

Nenhum cantor de Rock mereceria esse sobrenome mais do que Charles Edward Anderson Berry ou simplesmente Chuck Berry, o compositor, cantor e guitarrista nortemaricano, aclamado pelo mundo como o inventor do Rock and Roll. Diga-se de passagem, com muita justiça e merecimento. Ele abre o largo riso, como que concordando.

Muita gente, que se diz entendida de música (principalmente historiadores, críticos e teóricos), afirma que o Rock ‘n Roll surgiu diretamente do Blues, ao invés de dizer que deste recebeu apenas alguma influencia, como também carrega impressões que incluem o soul, o gospel e o autêntico Rhythm & Blues. Não seria miscelânea incluir aí também o Country & Western, o bluegrass e o hillbilly até que o incomparável Rock and Roll, surgisse, inconfundivelmente com sua batida única e inigualável, para conquistar o planeta.

É importante aqui dizer que, dentre todos os velhos pioneiros do Rock, Chuck Berry é o que mais o personifica, sendo o mais influente deste século e, melhor ainda, por estar vivo e muito bem, entre nós. Completará em Outubro próximo, 82 anos de idade.

Chuck é visto por todos do meio, como o verdadeiro inventor do Rock ‘n Roll. Na minha opinião Elvis Presley assumiu o título de Rei do Rock, que na realidade deveria ser do Chuck, o qual não teve a mesma projeção global de Presley, evidentemente. Além do mais, a fórmula Presley+Rock ‘n Roll era imbatível: garoto bonito, requebrados sensuais, mídia a seu favor, enfim, não tinha como não dar certo. Evidentente, que incluído está seu grande talento e sensibilidade, mas é inegável que seguiu o caminho de Chuck.

Chuck Berry foi, notoriamente, influenciado por Nat King Cole, Louis Jordan e ainda Muddy Waters, todos grandes estrelas da época. Em contra-partida, influenciou quase três gerações do rock, ou seja, anos 50, 60 e 70, sendo ídolo disparado de todos que bebiam em sua fonte perene. Chuck era enigmático, elétrico e carismático no palco e um eterno rebelde fora dele, imprimindo um estilo de vida próprio, que atendia em primeiro lugar aos seus propósitos e em segundo, à sociedade. Como exemplo de sua influência marcante, podemos lembrar que as mais famosas bandas inglesas dos anos 60, tais quais The Beatles, Animals, Rolling Stones, dentre outras, regravaram suas músicas.

Os Rolling Stones, por exemplo, literalmente nortearam seu estilo de tocar rock 'n' roll no de Chuck. Para termos uma idéia do valor que eles davam ao inventor do Rock, Keith Richards chegou a premiar Chuck no Hall da Fama, dizendo publicamente: "É difícil pra mim apresentar Chuck Berry, porque eu mesmo copiei todos os acordes que ele já tocou!" Risos e aplausos ecoaram durante minutos. E lá estava Chuck com seu largo riso.

Bem, mas o que me fez escrever hoje sobre Chuck Berry foi ter visto novamente o filme Hail! Hail!Rock ‘n Roll! (USA, Warner 1987), no qual é ovacionado e cuja proposta inicial fazia parte de um contato da WEA com Chuck, o qual deu trabalho para cumprir sua partte. Aproveitei pra me deter mais uma vez sobre um de seus maiores sucessos radiofônicos, que juntamente com outros hits como Roll Over Beethoven, Rock and Roll Music, Johnny B. Good (quase todas regravadas, pelos melhores cantores e bandas de Rock, como já foi dito) ouço vez ou outra cuja letra até hoje deixam os pais tradicionais e aversos a Chuck, de cabelos arrepiados e orelhas em pé.

Na verdade a letra da música é simplória e, a princípio parece uma música infantil, cuja letra fala de um brinquedo (Ding-A-Ling) que a avó de Chuck teria dado ao seu irreverente neto que, quando cantor famoso, transformou o tema num de seus maiores sucessos. O segredo reside em como Chuck conseguiu transformar o ritmo e insinuações da música, em uma quebra do tabu sexual, pois sugere que o briquedo seja uma fantasia sexual que representa os órgãos genitais dos meninos que gostam de brincar com eles, para suas liberações libidinosas, altamente reprimidas pela sociedade da época. Na realidade, esta música é sobre um garoto que descobre seu pênis, quase que metaforicamente. E não se pode negar que Chuck era bom em citar referencias sexuais, sem parecer ofensivo. Isso era tudo que o público queria, admitamos.

Com tanta badalçao em torno da música, Chuck acabou admitindo ser esta uma música sexual...”não há nada de errado com o sexo, somente a maneira como se lida com ele, entende”, ele provoca o público enquanto conduz a platéia em sua incursão metafórica sobre seu brinquedo que, a partir daí não era visto mais apenas como dói sininhos dependurados num cordão e sim, um pênis e duas bolas.

Pesquisas sobre a repercussão da música correu os EEUU como fumaça e pressões forçavam muitas estações de rádios a recusar tocar a música, assim como campanhas inglesas moralistas liderada por Mary Whitehouse tentaram, sem sucesso, banir a música, o que lhe conferia mais sucesso ainda.

O sucesso da música veio depois do filme “Let the Good Times Roll”, onde Chuck teve destaque, no início de 1972. Em seguida vai para uma temporada na Inglaterra onde, era ansiosamente aguardado e lá, em conseqüência disso, gravou o Álbum ”The London Chuck Berry Session" (dos quais tenho dois LP’s), tendo culminado com o Disco de Ouro. Deste disco, foi tirado um compacto que foi 1º Lugar nas paradas musicais nos EEUU, justamente com “My Ding-A-Ling”. Na realidade, a música, com uma letra mais amena já fazia parte do repertório de Chuck há 20 anos atrás com outro nome: “My Tambourine”, tendo sido também gravada por vários intérpretes do Rhythm & Blues, desde os anos 50.

É impressionante como Chuck, conduz a platéia (nos shows ao vivo ao fazer trocadilhos com o público), levando a música para o sentido contestador e libidinoso, transformando um brinquedo de um cordão com sininhos dependurado, mas que adquire todo um sentido erótico, especialmente para os jovens reprimidos pelos pais e sociedade.


Chuck visitou o Brasil várias vezes e, pelo que tem falado por aí, parece ter gostado, apesar de seu mau humor peculiar. Registrei, pelo menos, três visitas sendo em 1990, 2002 e agora recentemente, em Junho de 2008, quando visitou quatro cidades brasileiras: RJ, SP, Curitiba e Porto Alegre. Diferentemente, dos shows anteriores, trouxe sua banda consigo e ainda seu filho Chuck Berry Jr., (guitarra), e sua filha, Ingrid Berry Clay (gaita e vocal). "Foram maravilhosos, a recepção e as pessoas de seu país são tão animadas. Não poderia esquecer nada disso, não importa qual a minha idade... Você tem que se sentir bem quando vai para outro país e as pessoas apreciam tanto sua música, sabem o que você está fazendo." Disse aos repórteres presentes.


* Professor do Centro de Biociências da UFRN(juarez@cb.ufrn.br)