Total de visualizações de página

27 de mai de 2008

A Cor da Morte


A Cor da Morte

* Juarez Chagas

* Chagas, J., Professor do Centro de Biociências da UFRN; Mestre pela EPM/UNIFESP; Doutorando em Psicologia Universidade Aberta de Lisboa.


Resumo

O atual e crescente interesse sobre o estudo da morte tem culminado com vários estudos e pesquisas sobre este misterioso e palpitante assunto, em todo o mundo. O presente trabalho tem como principal objetivo apresentar, através de resultado de pesquisa realizada durante três anos, que outras cores que representam a morte, que não as tradicionais e estigmatizadas, tais quais preto, marrom, cinza e outras tonalidade escuras, outras cores, não tradicionalmente relacionadas a este fenômeno e tabu, também podem representar a morte dependendo de sua representação no imaginário individual, o que ocasiona a possibilidade de se imaginar a morte em diferentes cores. Para isso, usamos um questionário aplicado a estudantes da área de saúde, durante três anos, utilizando apenas duas perguntas básicas: Qual a representação da morte? e Que cor você atribuiria a morte?
Para chegarmos a esta conclusão, o presente trabalho teve também que rebuscar os diversos conceitos de morte, segundo as diferentes culturas e como a mesma é vista, tanto do ponto de vista individual quanto coletivo, justificando assim o medo que a morte imprime em cada um de nós, inclusive nas cores que a representa.

PALAVRAS-CHAVE: morte, cor, psicologia.


Abstract

The present and growing interest about studies on death has been brought many researches and Works nowadays, about this so-called mysterious and frightful subject, as a result, all around the world.
The main purpose of this article is bringing a new look and a new feeling of colors concerning death, because as we know, the colors that have represented death throughout history, from the beginning up to now, because of cultural aspects, are dark colors specifically, such as black, brown, gray, purple and other mixed dark ones. This study is a result of a three year basic research where the instrument used was a self-report questionnaire, with only two questions: What is the representation of death? And What color would you give death? The result showed that there is still an almost unbreakable taboo which frightens us even when represented by colors.

KEY-WORDS: Death, color, fear, Psychology.


Desenvolvimento

Certamente, algumas pessoas ao lerem esse artigo poderiam perguntar: “E morte tem cor?”. Sim, morte tem cor. Demonstra essa afirmação é o objetivo desse trabalho, resultado de uma pesquisa básica no que diz respeito à Psicologia das cores, se é que assim podemos dizer.
Segundo as pesquisas e trabalhos de Farina (1986) sobre a psicodinâmica das cores, podemos ver claramente a tamanha influência e importância das cores, na vida do ser humano, tanto no campo da Biologia, quanto no âmbito da Psicologia, propriamente dito.

A Importância das cores em nossas vidas vai além da captação de estímulos luminosos sensoriais codificados pelo cérebro, pois a sensação final acha-se intimamente desencadeada em nossa alma, ou psique, determinando percepções e sentimentos que vão além do que os ossos olhos vêem. A vida sem cores certamente teria um outro sentido, caso nossas retinas fossem incapazes de detectar os raios coloridos das ondas luminosas que a Natureza nos proporciona em sua magia de cores naturais, assim como também nas cores artificiais produzidas pelo próprio homem ao longo do tempo. Se assim fosse, talvez víssemos a vida como num filme em preto e branco. Ainda bem que não é assim e, não contrário, nossas vidas são iluminadas por cores que vemos, sentimos e delas desfrutamos o prazer de suas sensações e emoções. Porém, por outro lado também podem causar angústia.

Pesquisas, tanto no âmbito da Biologia quanto da Psicologia, como as de Jaspers (1951) e Kolck (1971), só pra citar esses dois, concluíram em diversos estudos, que há uma íntima relação das cores com aspectos biológicos e, igualmente, psicológicos do ser humano. Sabemos, por exemplo, que a cor da pele muda com a idade; as diferentes raças (se é que podemos separar grupos sociais de pessoas em raças por cores, segundo suas origens étnicas) e seus pigmentos exercem uma atração e poder psico-sensorial nas pessoas, assim como, as cores também podem influenciar em determinadas atitudes e comportamentos, sem contar que cada pessoa capta detalhes coloridos do mundo exterior, de acordo com seus sentimentos e sensibilidade. Senão vejamos: o branco repele luz e dá idéia de paz; o preto é o contrário, absorve luminosidade e para a maioria simboliza o sinistro; o vermelho pode significar perigo, paixão ou sentimentos excitantes; o verde suave acalma; azul, pureza e fé; já o amarelo, atenção medo e assim por diante.

Por outro lado, não é de hoje que sabemos que as cores também estão associadas à morte, assim como à vida, só que de maneiras diferentes. Histórica e culturalmente a associação de cores escuras, como preto, cinza e marrom, está culturalmente associada à morte ou às coisas sinistras. Porém, é importante lembrar que cada grupo social tem a sua.

Resultados

A simples pesquisa que realizamos como estudantes universitários da área da saúde confirma que as cores se acham relacionadas à morte e mais ainda, que não apenas as cores consideradas convencionais a esse respeito, porém cores diversas, dependendo de determinadas situações. Da população total de 1.200 (mil e duzentos) alunos, foram selecionados aleatoriamente 300%, cujo percentual foi de 25%, o que representa uma amostra estatisticamente significativa. Assim sendo, foi constatado que 41% idealizaram a morte como sendo preta, marrom 6%, roxo 5% e cinza 2%, completando assim, o leque de cores consideradas “sinistras” ou fúnebres. Em relação às outras cores, obtivemos uma variação bastante interessante: branco 30%, azul e vermelho 2%, verde e amarelo 1%. Já em relação à primeira pergunta “Qual a representação da morte?” (cujo resultado em gráfico acha-se ausente), foi constatado que 79% apontou a caveira ou esqueleto revestido com sua capa preta, como sendo a figura representante da morte. Atribuímos a esse resultado, a herança cultural fortemente incutida no imaginário individual e coletivo das pessoas que não aprenderam a imaginar, simbolicamente, a morte de outra forma.

Uma variante interessante dentro da pesquisa é que podemos considerar alguns casos isolados, através de questões individuais e não coletivas, devem ser vistas como fatores importantes dentro do contexto da subjetividade individual de cada um. Um ator de teatro respondeu, por exemplo, que para ele a cor que reapresenta a morte é o amarelo. Como o questionário pedia opcionalmente uma sucinta explicação para cada resposta, abaixo de cada questão, o mesmo explicou ter presenciado o desabamento de um palco onde vários amigos morreram e que a parede existente nesse palco era pintada de amarelo. Desde então, ele passou a associar a morte à cor amarela, indiscutivelmente.

O mundo das cores habita nossas vidas, assim como também habita como imaginariamente pintamos a morte. O que ainda falta é trazermos a discussão sobre o fenômeno da morte para o âmbito escolar e acadêmico, em todos os seus aspectos, para que, com a desmistificação desse tabu, o qual ainda é o maior existente em nossa história, para que possamos, uma vez mais informados e educados, vivermos mais e melhor, independentemente das cores que possam pintar o fim. Por Falar em fim, uma pergunta interessante, porém curiosa: alguém já viu a palavra FIM ou “THE END”, no final dos créditos ou cast de um filme, de outra cor que não a preta? Parece que a cultura continua vencendo...
(Artigo publicado em PSICOLOGIA BRASIL, Ano 4, N 28 Fevereiro/2006. O blog nao comporta os gráficos referentes aos resultados desta pepsquisa, porém o quadro do autor, que aparece ao lado deste artigo, também acha-se presente na revista).



REFERÊNCIAS

ARIÈS, P. História da Morte no Ocidente: da Idade Média aos nossos dias. Ediouro, RJ, 2002.

FARINA, M. Psicodinâmica das Cores em Comunicação. Ed. Edgard Blütcher Ltda, 1990.

JASPERS, K. Psicopatologia General. Beta, Buenos Aires, 1951.

MORIN, E. O Homem e a Morte. Imago, RJ, 1997.

KASTENBAUM, R & AISENBERG, R. Psicologia da Morte. Novos Umbrais, SP, 1983.

KOLD, T. V. Vivência e Cor. Boletim Psicologia, XXIII, 61, 1971.