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26 de nov de 2008

FERNÃO CAPELO GAIVOTA


Fernão Capelo Gaivota
(Publicado no O Jornal de Hoje)
*Juarez Chagas


Embora com conteúdos diferentes, costumo comparar os romances fantásticos O Pequeno Príncipe (romance de Antoine de Saint-Exupéry publicado em 1943, nos Estados Unidos) e Fernão Capelo Gaivota (Jonathan Livingston Seagull,1970, de Richard Bach) colocando-os no mesmo senso extraordinário da fantasia que nos remete às possibilidades da realização dos sonhos quase impossíveis do ser humano.

O Pequeno Príncipe ('Le Petit Prince, na França e O Principezinho em Portugal) é o livro francês mais vendido em todo o mundo, tendo tido cerca de 80 milhões de exemplares, e aproximadamente 400 a 500 edições publicadas, perdendo apenas para a Bíblia e O Peregrino, em termos de tradução literária, como uma das obras mais traduzidas em vários idiomas em todo o mundo. Com um histórico desses, até mesmo quem não gosta muito de ler se sente tentado a conhecer a obra de perto.

Mas, Fernão Capelo Gavoita é nosso assunto de hoje e sua trajetória não é menos interessante do que a do Pequeno Príncipe, muito embora não apresente a mesma estatística, tenha tido apenas aproximadamente a metade de edições publicadas e seja mais de 30 anos mais jovem. É uma fantástica história sobre liberdade, aprendizagem e amor narrada metaforicamente através de uma gaivota que não se contenta apenas em voar para comer restos de lixo ou peixes fáceis de encontrar. Voar para Fernão Capelo é um prazer e não apenas uma característica das aves e seu sonho é aprender tudo sobre o vôo por achar que as gaivotas são limitadas em seu mundo. Assim sendo, torna-se diferente do bando, é julgado, banido e expulso para viver sozinho entre a imensidão do azul do mar e do céu.

Richard Bach tem algo mais que em comum com Saint-Exupéry (cujo nome é bastante longo: Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupéry, falecido aos 44 anos, em 1944), que era também piloto oficial e, teria voado sobre o atlântico do Brasil, inclusive passado por Natal, segundo historiadores da aviação. Bach também aviador, hoje com 63 anos, mas se diz um piloto sem grandes aspirações, tendo feito apenas três viagens internacionais. Esteve recentemente no Brasil, mas veio em vôo comercial. O próprio autor conta que Fernão Capelo surgiu em sua vida quando era ainda criança. Tinha o hábito de olhar o oceano e esconder-se do vento atrás de uma pedra para observar as gaivotas e sonhava ser como uma gaivota.

Ainda a exemplo do Pequeno Príncipe, Fernão Capelo Gaivota foi filmado, tendo tido muito sucesso e, poucas vezes, tenho visto um filme tão fiel ao livro. Tenho minhas restrições sobre filmes de bons livros, pois nem sempre o resultado é o que esperamos. Entretanto, no caso de Fernão Capelo, o filme não só é fiel ao livro, como sua fotografia é magnífica! Isso sem falar na trilha sonora de Neil Diamond, que também é uma obra-prima capaz de arrancar lágrimas dos mais durões dos homens, tipo Clint Eastwood.

No filme, na verdade uma parábola, tem também a questão política de grupos e comunidades, remetendo ao ser humano à castração, não somente do direito de liberdade, mas também ao confinamento de idéias revolucionárias, responsável pelas maiores descobertas do ser com base no acalento de sonhos e propósitos pessoais. A história é uma verdadeira lição de abnegação, obstinação e, inclusive, amor a si mesmo e ao próximo, metaforicamente ensinados através do mundo animal e da Natureza do ser e da espécie.

A clara e instigante analogia poética entre o homem e a gaivota mostra as dificuldades de superação dos limites da busca pela liberdade verdadeira, e, sobretudo do entendimento de ajuda ao próximo, através do amor e na compreensão do outro.
Agora em DVD, qualquer um pode conferir e se deleitar com a visionária realização cinematográfica de um conto que se eternizou através de sonhos e do imaginário pessoal e coletivo, mostrando aos humanos que o amor ainda continua acima busca, sendo o bem mais precioso que existe.

* Professor do Centro de Bioc iências da UFRN(juarez@cb.ufrn.br)