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6 de nov de 2008

A CONQUISTA DA DOR (II)

A Conquista da Dor(II)
*Juarez Chagas

Como parar uma sensação de incômodo doloroso e sofrimento físico? E se essa dor for psíquica, subjetiva, interior, mental cuja causa não seja orgânica, mas que por outro lado, além de machucar e torturar, também dilacere o soma? A resposta que o homem deu a si mesmo foi simples, mas demorou muito para ser formulada: “diante da incapacidade de controlar a dor, consigo inventar algo para bloqueá-la e que a torne indolor para mim, nem que para isso eu tenha que me tornar insensível!” Foi mais ou menos com esse pensamento que o homem inventou a anestesia.

Porém, são ricos os registros evidenciando que as civilizações antigas já conheciam fórmulas para driblar a dor e aplacar o sofrimento das pessoas. A Grécia Antiga utilizava a esponja soporífera embebida em substâncias sedativas e analgésicas extraídas de plantas; os chineses lançavam mão de sua milenar acupuntura; os incas da América do Sul aplicavam uma espécie de anestesia tópica, através do sumo da mastigação da folha de coca; os egípcios tinham seus milagrosos bálsamos e os assírios comprimiam a carótida, para impedir que o fluxo sanguíneo chegasse ao cérebro, tornando assim, a dor algo secundário. Gelo ou neve também eram utilizados para congelar a região a ser operada, assim como embriagar o paciente com porre de vinho ou aguardente ou usar a hipnose foram outros recursos utilizados para aliviar a dor, antigamente.

Por outro lado, questões culturais e religiosas tiveram influências preponderantes sobre a questão da dor, pois até durante a Idade Média, doença, dor e sofrimento eram vistos como castigos aos impuros. Ainda nessa época, nas sociedades cristãs européias o controle da dor através de ervas e compostos químicos era tido como bruxaria e, portanto, passíveis de punição pela Santa Inquisição, a quem fosse pego tentando aplacar a dor, publicamente. Assim sendo, não é de se estranhar que a dor tenha sido até hoje tida como um castigo divino e a frase “a dor purifica o espírito” nos remete à essa questão, assim como o controle da dor pelos fortes, é uma questão honrosa, pois só os fracos reclamam, diz a tradição.

Mas, como vimos no artigo anterior, foi somente por volta do meados do século XVIII, que finalmente o homem vence (parcialmente) a dor. Os meios de divulgação e instituições interessadas da época viram que era importante estabelecer uma data oficial para a descoberta da anestesia, apesar de discussões e controvérsias sobre o verdadeiro mérito e seu verdadeiro inventor. Na realidade, conta a história que alguns interesses acadêmicos e empresariais postularam Crawford Williamson Long como sendo o primeiro médico a operar sem dor, quatro anos e meio antes de Morton que, por sua vez é tido como o verdadeiro descobridor da anestesia, pelo que se aceita até hoje (vê artigo anterior).

Discussões acadêmicas à parte, pois este é apenas um episódio devidamente esclarecido, o importante é que a dor nunca foi totalmente controlada. E esse fato tem seu lado positivo, pois assim como o medo, a dor também tem seu lado útil como um sistema de alerta, especialmente no que diz respeito à sensibilidade exteroceptiva, ajustando o indivíduo no seu meio ambiente, quando algo pode comprometer o organismo, através de agressões químicas, físicas ou biológicas que chegam através da pele que é o maior órgão do corpo humano, chegando a medir 2 m2 e pesar 4 Kg no adulto. Constitui-se num manto contínuo que envolve todo o corpo com sua especial capacidade e sede do órgão dos sentidos. Imaginem, portanto, a quantidade de receptores espalhados por toda a pele, para conduzirem através dos nervos espinhais as sensações para a medula espinhal para a partir daí, através dos tractos córticos-espinhais, conduzirem ao cérebros as informaçoes das sensações tanto de dor, quanto de prazer. O tálamo pode ser considerado uma das principais estações-sedes onde estes estímulos vão se alojar, sendo posteriormente identificados a níveis córticais. É mais ou menos assim, que percebemos a dor, prazer e estímulos táteis de um modo geral. Porém...não quando esta é "criada" mental e psíquicamente. Mas, aí é outra história a qual requer mais explicaçoes e entendimentos do ponto de vista neurofisiológico.

Eliminar totalmente a dor do ser humano seria como deixá-lo sem condições de perceber somaticamente o que se passa ao seu redor. Uma dor de cabeça, por exemplo, é um aviso de que algo errado está acontecendo a nível do coro cabeludo, crânio ou encéfalo, ou por outro lado, pode sugerir uma dor de fundo nervoso ou psíquico. Mas, por outro lado, uma unha encravada também pode resultar numa dor de cabeça, pela sua intermitência angustiante. Portanto, a dor não faz apenas sofrer, tem sua importância mesmo sendo vista como um incômodo dilacerante.

Na verdade, existem algumas situações orgânicas, nas quais há ausência de dor, porém em virtude de alguma patologia, como é o caso da analgesia congênita, que impossibilita a sensação de dor, assim também como outras doenças capazes de destruir as terminações nervosas da pele, tornando o indivíduo inteiramente insensível a dores tópicas e localizadas. Em crianças, esse tipo de doença torna-se mais grave ainda, pois elas podem se machucar sem notar, causando uma desatenção aos perigos de mutilações.

Sabemos que todas as dores envolvem componentes emocionais e sensoriais, sendo, ao mesmo tempo físicas e mentais, como o que pode ocorrer em síndrome do pânico, ansiedades e depressões. Essas, por sua vez requerem cuidados especiais, pois o conhecimento das mesmas e de sua etiologia podem ajudar o paciente a combatê-las com mais propriedade. Afinal, não adianta acabar com a dor ou sintomas em si, e sim com sua causa.

Muitas vezes o tratamento não é cirúrgico nem medicamentoso e sim, quando de fundo psíquico, apenas “extraindo-se” o problema de si e substituindo-o por resoluções pertinentes às causas desta dor específica. Afinal, essa seria, mesmo que parcialmente, uma grande conquista!

* Professor do Centro de Biociências da UFRN(juarez@cb.ufrn.br)