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2 de nov de 2011

HOMENAGENS E REFLEXÕES


Homenagens e Reflexões

* Juarez Chagas

Não apenas como estudioso da Tanatologia, mas também pela passagem e homenagens aos Dia dos Mortos, parentes, amigos e a todos aqueles que se foram do nosso convívio expresso palavras de saudade, saudade, saudade...

E, presto, em especial, homenagem (inspirada no trabalho que tenho feito ao longo de 30 anos, sobre a questão do homem perante à morte) ao Cadáver Desconhecido, àquele que doou e doa seu corpo em prol da Ciência, em especial ao ensino de Humani Corporis Fabrica, como gostava de enfatizar, o Pai da Anatomia, Andreas Vesalius.

O Cadáver Desconhecido

Um dia, como você, vim ao mundo

Não foi, como nas famílias normais

Onde, ao nascer, todos riem, apenas a criança chora

No meu caso, talvez, todos tenham chorado

Apenas eu ria

Se nasci numa palhoça, casebre ou maternidade

Nunca soube, não me contaram

Ou se contaram, não dei atenção

Estava muito disperso

Ocupado com o nada (mas querendo tudo)

Envolvido com as armações da vida

Cresci e vivi como um andarilho

Sem família, sem lar, sem amigos

Como um ladrão ou como um assassino

Mas,o que eu sempre quis ser mesmo foi um Hobin Hood

Um paladino, um zorro, um justiceiro

Porém, quando quis voltar à realidade foi tarde demais

Já não havia mais como negociar com a paz

E só pude ocupar o único lugar que a sociedade reserva para os omissos,

os miseráveis e marginalizados: o submundo

Como morri, não importa

Talvez, nem eu mesmo saiba como foi, nem o dia, nem a hora

O fato é que aí, na mesa fria de mármore, está o meu corpo

Sobre cujo peito não se derramou uma só lágrima de saudade

Sobre cujo rosto ninguém deu um beijo de adeus

Também, meus olhos não viram a luz da vela

Que iluminaria a passagem para o outro mundo

Nem tão pouco foram cerrados após a partida, na hora de ir embora

Minhas mãos não foram afagadas, na despedida sem retorno

Sobre meu corpo semi-nu

Também não puseram roupas ou sequer um lençol branco

Ao contrário, talvez tenha ficado jogado ao relento

Sob o sol quente do dia e o frio da noite

Velado apenas pelo vento, a chuva, os insetos

Talvez pisoteado, chutado, esfacelado ou mutilado

Quando fui, finalmente (ou propositalmente), encontrado

Como um animal moribundo e relegado

Agora digo a todos vocês através deste silêncio profundo e eterno

Através deste corpo inerte, inanimado

Está minha última redenção

Paguei pelo que na terra fiz ou deixei de fazer

E como nunca é tarde para ser útil

Usem pois, este corpo inerte sobre a lousa

Dissequem cada estrutura, conscientemente

Rebatam as aponeuroses, fáscias e músculos

E vejam como é lindo e fantástico o corpo humano

(Coisa que nunca tive oportunidade de entender em vida)

Sintetizem a Anatomia, na prática

Meditem, questionem, busquem o entendimento topográfico e sistêmico

Se meus olhos ainda forem úteis

Dêem suas córneas a alguém que nunca viu a luz do dia

Dissequem meu coração com paciência e mestria

De tal forma que, quando doutores possam salvar

Muitas vidas, impedindo os infartos e embolias

Extirpem meus pulmões

Descobrindo o percurso de suas árvores brônquicas

E aprendam a anatomia pulmonar

Para que no futuro possam salvar tuberculosos e enfizematosos

Percorram e estudem os rins demoradamente

Para que possam entender, no futuro sua fisiologia e curar os nefropatas

Estudem , a pele, os ossos, os músculos, as vísceras

Verifiquem e compreendam, calmamente, o sistema nervoso

E imaginem que a mente e o espírito

Certamente também residem ali

Enfim, estudem todas as suas estruturas orgânicas

(mesmo que não haja tempo, pois o tempo é cada um que faz)

E me façam seu PRIMEIRO PACIENTE

Sem medo de cometer nenhum erro ou acidente

Mas, com a obstinação do acerto

Assim sendo,

Após vários anos de estudo, determinação e um juramento hipocrático e sagrado

O médico, aquela figura de branco, austera e bondosa

Ao tratar seus pacientes

Dentre seus conhecimentos adquiridos, sempre carregará consigo

Os ensinamentos do Cadáver Desconhecido

(ensinando sobre a vida através da morte)

Que doou seu corpo em prol da humanidade

Que nada lhe deu em troca.

* Biólogo, Psicólogo e Escritor (desenho e poema do autor)