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20 de ago de 2008

CHUCK BERRY (I)


Chuck Berry Rock ‘n Roll
(Publicado,parcialmente, no O Jornal de Hoje)
*Juarez Chagas

Nenhum cantor de Rock mereceria esse sobrenome mais do que Charles Edward Anderson Berry ou simplesmente Chuck Berry, o compositor, cantor e guitarrista nortemaricano, aclamado pelo mundo como o inventor do Rock and Roll. Diga-se de passagem, com muita justiça e merecimento. Ele abre o largo riso, como que concordando.

Muita gente, que se diz entendida de música (principalmente historiadores, críticos e teóricos), afirma que o Rock ‘n Roll surgiu diretamente do Blues, ao invés de dizer que deste recebeu apenas alguma influencia, como também carrega impressões que incluem o soul, o gospel e o autêntico Rhythm & Blues. Não seria miscelânea incluir aí também o Country & Western, o bluegrass e o hillbilly até que o incomparável Rock and Roll, surgisse, inconfundivelmente com sua batida única e inigualável, para conquistar o planeta.

É importante aqui dizer que, dentre todos os velhos pioneiros do Rock, Chuck Berry é o que mais o personifica, sendo o mais influente deste século e, melhor ainda, por estar vivo e muito bem, entre nós. Completará em Outubro próximo, 82 anos de idade.

Chuck é visto por todos do meio, como o verdadeiro inventor do Rock ‘n Roll. Na minha opinião Elvis Presley assumiu o título de Rei do Rock, que na realidade deveria ser do Chuck, o qual não teve a mesma projeção global de Presley, evidentemente. Além do mais, a fórmula Presley+Rock ‘n Roll era imbatível: garoto bonito, requebrados sensuais, mídia a seu favor, enfim, não tinha como não dar certo. Evidentente, que incluído está seu grande talento e sensibilidade, mas é inegável que seguiu o caminho de Chuck.

Chuck Berry foi, notoriamente, influenciado por Nat King Cole, Louis Jordan e ainda Muddy Waters, todos grandes estrelas da época. Em contra-partida, influenciou quase três gerações do rock, ou seja, anos 50, 60 e 70, sendo ídolo disparado de todos que bebiam em sua fonte perene. Chuck era enigmático, elétrico e carismático no palco e um eterno rebelde fora dele, imprimindo um estilo de vida próprio, que atendia em primeiro lugar aos seus propósitos e em segundo, à sociedade. Como exemplo de sua influência marcante, podemos lembrar que as mais famosas bandas inglesas dos anos 60, tais quais The Beatles, Animals, Rolling Stones, dentre outras, regravaram suas músicas.

Os Rolling Stones, por exemplo, literalmente nortearam seu estilo de tocar rock 'n' roll no de Chuck. Para termos uma idéia do valor que eles davam ao inventor do Rock, Keith Richards chegou a premiar Chuck no Hall da Fama, dizendo publicamente: "É difícil pra mim apresentar Chuck Berry, porque eu mesmo copiei todos os acordes que ele já tocou!" Risos e aplausos ecoaram durante minutos. E lá estava Chuck com seu largo riso.

Bem, mas o que me fez escrever hoje sobre Chuck Berry foi ter visto novamente o filme Hail! Hail!Rock ‘n Roll! (USA, Warner 1987), no qual é ovacionado e cuja proposta inicial fazia parte de um contato da WEA com Chuck, o qual deu trabalho para cumprir sua partte. Aproveitei pra me deter mais uma vez sobre um de seus maiores sucessos radiofônicos, que juntamente com outros hits como Roll Over Beethoven, Rock and Roll Music, Johnny B. Good (quase todas regravadas, pelos melhores cantores e bandas de Rock, como já foi dito) ouço vez ou outra cuja letra até hoje deixam os pais tradicionais e aversos a Chuck, de cabelos arrepiados e orelhas em pé.

Na verdade a letra da música é simplória e, a princípio parece uma música infantil, cuja letra fala de um brinquedo (Ding-A-Ling) que a avó de Chuck teria dado ao seu irreverente neto que, quando cantor famoso, transformou o tema num de seus maiores sucessos. O segredo reside em como Chuck conseguiu transformar o ritmo e insinuações da música, em uma quebra do tabu sexual, pois sugere que o briquedo seja uma fantasia sexual que representa os órgãos genitais dos meninos que gostam de brincar com eles, para suas liberações libidinosas, altamente reprimidas pela sociedade da época. Na realidade, esta música é sobre um garoto que descobre seu pênis, quase que metaforicamente. E não se pode negar que Chuck era bom em citar referencias sexuais, sem parecer ofensivo. Isso era tudo que o público queria, admitamos.

Com tanta badalçao em torno da música, Chuck acabou admitindo ser esta uma música sexual...”não há nada de errado com o sexo, somente a maneira como se lida com ele, entende”, ele provoca o público enquanto conduz a platéia em sua incursão metafórica sobre seu brinquedo que, a partir daí não era visto mais apenas como dói sininhos dependurados num cordão e sim, um pênis e duas bolas.

Pesquisas sobre a repercussão da música correu os EEUU como fumaça e pressões forçavam muitas estações de rádios a recusar tocar a música, assim como campanhas inglesas moralistas liderada por Mary Whitehouse tentaram, sem sucesso, banir a música, o que lhe conferia mais sucesso ainda.

O sucesso da música veio depois do filme “Let the Good Times Roll”, onde Chuck teve destaque, no início de 1972. Em seguida vai para uma temporada na Inglaterra onde, era ansiosamente aguardado e lá, em conseqüência disso, gravou o Álbum ”The London Chuck Berry Session" (dos quais tenho dois LP’s), tendo culminado com o Disco de Ouro. Deste disco, foi tirado um compacto que foi 1º Lugar nas paradas musicais nos EEUU, justamente com “My Ding-A-Ling”. Na realidade, a música, com uma letra mais amena já fazia parte do repertório de Chuck há 20 anos atrás com outro nome: “My Tambourine”, tendo sido também gravada por vários intérpretes do Rhythm & Blues, desde os anos 50.

É impressionante como Chuck, conduz a platéia (nos shows ao vivo ao fazer trocadilhos com o público), levando a música para o sentido contestador e libidinoso, transformando um brinquedo de um cordão com sininhos dependurado, mas que adquire todo um sentido erótico, especialmente para os jovens reprimidos pelos pais e sociedade.


Chuck visitou o Brasil várias vezes e, pelo que tem falado por aí, parece ter gostado, apesar de seu mau humor peculiar. Registrei, pelo menos, três visitas sendo em 1990, 2002 e agora recentemente, em Junho de 2008, quando visitou quatro cidades brasileiras: RJ, SP, Curitiba e Porto Alegre. Diferentemente, dos shows anteriores, trouxe sua banda consigo e ainda seu filho Chuck Berry Jr., (guitarra), e sua filha, Ingrid Berry Clay (gaita e vocal). "Foram maravilhosos, a recepção e as pessoas de seu país são tão animadas. Não poderia esquecer nada disso, não importa qual a minha idade... Você tem que se sentir bem quando vai para outro país e as pessoas apreciam tanto sua música, sabem o que você está fazendo." Disse aos repórteres presentes.


* Professor do Centro de Biociências da UFRN(juarez@cb.ufrn.br)

CHUCK BERRY (II)

My Ding-A-Ling
*Juarez Chagas


É sempre muito rico e eclético falar de Chuck Barry. Primeiro porque é o maior ícone do Rock ‘n Roll e, especialmente, ainda vivo entre nós. Depois porque, não seria exagero dizer que quase todos os verdadeiros roqueiros do mundo inteiro passaram por ele, de uma forma ou de outra, ou ouvindo seus discos ou sendo diretamente influenciado por ele. Todos procuravam Chuck Berry, para dizer que tinham falado ou tocado com ele, ou simplesmente para um aperto de mão, do mais simples cantor ao mais famoso, como Presley, Lennon, Jagger, Hendrix e tantos outros cuja lista é interminável.
No artigo anterior vimos um pouco da história polêmica sobre um de seus maiores sucessos que tanta controvérsia causou, tanto no meio musical quanto em âmbito social, com a música My Ding A Ling.

Vejamos a letra da música que falava de um tipo de brinquedo a qual Chuck transformou metaforicamente num grande protesto, contra a repressão e a favor da liberação sexual, naqueles tempos dourados, mas difíceis:

When I was a little bitty boy (Quando eu era um garotinho)

My Grandmother bought me a cute little toy (Minha avó comprou um bonito brinquedinho)Silver bells hanging on a string (sininhos prateados dependurandos num cordao)

She said it was my Ding a ling a ling (Ela dise que isso era meu Ding a Ling Ling)


When I started Grammar School (quando eu comecei na escola)
I used to stop off in the vestibule (Eu costumava parar na entrada)
Every time that bell would ring (E toda hora que ticava a saída)
I'd take out my ding a ling a ling (Eu pegava meu ding a ling ling)

Oh my ding a ling, Everybody sing (Oh meu ding a ling, cantem todos)
I wanna play with my ding a ling a ling (quero brincar com meu…)
My ding a ling, my ding a ling (meu ding a ling ling…)
I wanna play with my ding a ling a ling (quero brincar com meu ding…)

(Here come that jerk again, Mmh, Does something good to ya)


Humpty dumpty on the wall (Humpty dumpty na parede)
Humpty had an awful fall (humpty levou uma queda horrível)
When they went to tell the king (Quando eles foram contar ao rei)
Caught him playing with his ding a ling (pegaram-no brincando com seu ding a ling)

Oh my ding a ling, my ding a ling Come on now everybody sing My ding a ling, my ding a ling
I wanna play with my ding a ling(Oh yeah, Got something to it)

I remember the girl next door (Eu lembro da garota vizinha)
We used to play house on the kitchen floor (nós costumávamos brincar de casinha no piso da cozinha)
I'd be king, she'd be queen (I era o rei, ela a rainha)
Together we'd play with our ding a ling a ling (Juntos brincávamos com nossso ding a lin a ling)

My ding a ling, Oh myI wanna play with my ding a ling a ling(Mmh)
When they took me to Sunday School (Quando eles me levaram pra escola dominical)
Tried to teach me the golden rule (Tentaram me ensinar velhas regras)
But every time the quire would sing (Mas toda vez que o quire cantava)
Catch me playing with my ding a ling (Me pegavam brincando com meu ding a ling)

Oh my ding a ling, my ding a ling I wanna play with my ding a ling My ding (That's right),
my ding a lingI wanna play with my ding a ling a ling
(You know, I didn't hear everybody singing, Everybody joins in on that course)

This here song, it ain't to sad (Essa música aqui, nao é triste)
Cutest little song you ever had (É a cançao mais linda que já vi)
Those of you, who will not sing (E quem de voces nao for cantar)
You must be playing with your own ding a ling (Deve tá brincando com seu próprio ding a ling)

Oh my ding a ling, my ding a ling (Come on now, Come on now, Everybody sing)
Now my ding a, oh my ding a ling I wanna play with my ding a ling(Oh yeah, Oh yeah, Oh yeah)

* Professor do Centro de Biociências da UFRN(juarez@cb.ufrn.br)

16 de ago de 2008

O LIVRO DAS MUTAÇÕES


O Livro das Mutações
*Juarez Chagas

A propósito do artigo sobre Jung e sua relação com o Ying e Yang, assim como com O Livro das Mutações, o I Ching, recebi email de uma leitora solicitando mais informações a respeito do mais antigo livro do mundo e, também, indagando qual exemplar do mesmo que possuo, uma vez que o citei no referido artigo.

Confesso conhecer a obra não profundamente, como gostaria e apesar de possuir um exemplar de I Ching, O Livro das Mutações-Oráculo Milenar Chinês (Roberto Campadello, Editora Artenova, 1972), salvo engano, o primeiro a ser publicado no Brasil, fiz algumas pesquisas e buscas para melhor atender a gentil solicitação.
O I Ching ou Livro das Mutações, é o livro mais antigo da cultura chinesa, em todos os tempos. Trata-se de uma tradição oral compilada e recompilada várias vezes e passada de geração a geração, ao longo do tempo. Foi profundamente estudado por Confuncius e Lao Tsé, o qual escreveu a versão definitiva. A tradição de Confuncius está ainda hoje viva na Coréia do Sul, onde inclusive a bandeira deste país é composta pelo símbolo de Yin e Yang e por quatro dos oito trigramas do I Ching.
Na verdade, o I Ching constituiu-se na pedra fundamental de fonte de inspiração milenar chinesa, cuja história conta com mais de 3.000 mil anos, sendo, portanto, o livro mais antigo da humanidade. Mais antigo até mesmo do que a Bíblia e usado como oráculo, sendo a essência da sabedoria e do aconselhamento para respostas dos conflitos do homem, principalmente o oriental, por quem e para quem essa filosofia foi criada, no passado. A principal característica e objetivo do I Ching é nos ajudar a entender e a lidar melhor com as mudanças que ocorrem nas nossas vidas e, que por sua vez, sabemos não serem poucas.
A origem do Livro das Mutações remonta o período da China pré-histórica e segundo os historiadores chineses, o seu período mais antigo começa com Fu Hsi, em aproximadamente 3.000 a.C., e seu mais recente com King Fu Tze (Confuncius), no século VI a. C. Ocorre que entre estes dois períodos de tempo, encontra-se a média antiguidade, que se estende desde a dinastia Chou, por volta do século XII a. C., até a era chamada confunciana. Nesse sentido, a tradição reconhece quatro sábios (idolatrados como santos) autores do I Ching: Fu Hsi, o Rei Wen, o Duque de Chou e Confuncius. O Imperador Fu Hsi, o qual foi o primeiro personagem histórico da China, é considerado hoje em dia uma figura mítica, atribuindo-se ele a invenção dos oito trigramas do Livro das Mutações para mostrar plenamente os atributos das operações inteligentes e espirituais produzidas em segredo, e classificar as qualidades das inúmeras coisas com as quais o homem se relaciona.
Ao escutar o I Ching, pode-se escolher segui-lo ou não, essa é outra sabedoria importante de ser observada, pois o segredo é conseguir perceber qual é o caminho que mais tem a ver consigo mesmo, pois como o próprio I Ching diz em seu hexagrama que: "para cada pessoa existe um sentido próprio, um caminho, um destino que dá força à sua vida e que se consolida quando o homem consegue posicionar corretamente a vida e o destino harmonizando-os”.
É importante dizer também que a fonte dos princípios Ying e Yang é o T'ai Chi, conceito chinês do Absoluto, do Princípio Universal, do Eterno, o grande começo original de tudo o que existe, princípios estes que sempre foram enaltecidos e respeitados pelo Oriente, especialmente a China, com sua sabedoria milenar.
Por falar na China, que muito veremos neste mês por ocasião dos Jogos Olímpicos de Pequim, é o terceiro maior país do mundo com aproximadamente 9.572.900 km2 de área, ocupando grande parte da Ásia Oriental, é o primeiro em população mundial. Suas principais religiões e filosofias de vida são o confucionismo, o budismo e o taoísmo, o que lhe confere uma busca pelo equilíbrio interior própria de seu povo. Não foi em vão que Jung e outros filósofos e pensadores ocidentais se apaixonaram pela filosofia milenar chinesa (para desgosto de Freud...). Somente de uma ótica filosófica dessa magnitude poderia ter surgido O Livro das Mutações. A propósito, é de Confuncius o seguinte provérbio: “Só os tolos não mudam”...a questão é mudar pra melhor, porque a tolice reside exatamente no oposto (Publicado no http://www.jornaldehoje.com.br/).

*Professor do Centro de Biociências da UFRN(juarez@ufrn.br)

13 de ago de 2008

CAPELA DE OSSOS DE SAO FRANCISCO DE ÉVORA


Capela de ossos de São Francisco de Évora (Publicado no www.jornaldehoje.combr)

* Juarez Chagas

Temos visto as mais variadas representações da morte através de suas alegorias, símbolos, pinturas, vanitas e esculturas das mais diversas possíveis, entretanto nenhuma se assemelha a qualquer outra alegoria já feita, no que diz respeito ao aspecto escultural do que a encontrada no Convento de São Francisco, em Évora, Portugal, uma histórica cidade portuguesa, situada em Alentejo (Sul de Portugal), aproximadamente a 130km de Lisboa e considerada importante reduto histórico e cultural, percurso esse que fiz de carro em pouco menos de duas horas.

A visita foi importantíssima para minhas pesquisas sobre Tanatologia, não só pela representação inédita ali encontrada, mas também pelo valioso testemunho, através dos séculos. Na verdade, foram dados in loco, tudo devidamente registrado, pois é permitido filmar e fotografar. Arriscaria denominar esta capela única em todo o mundo como uma espécie de "alegoria viva da morte" (viva no sentido enfático da palavra, pois apesar da construção da capela ser praticamente com material de esqueletos humanos, a idéia viva de seus donos, permanece) onde suas colunas, paredes e parte do teto são construídas com partes dos próprios esqueletos de corpos mortos, outrora enterrados nos cemitérios das igrejas, capelas e conventos da região e suas vizinhanças, totalizando mais de cinco mil esqueletos ali compactados na arquitetura da famosa capela que, recebe quase que diariamente centenas de visitantes vindos de todo o Planeta. Ali, sente-se o clima pesado da presença da morte e, ao mesmo tempo, advêm imediatas reflexões sobre a finitude humana num misto de reverência, respeito e medo da presença da morte e da vida, como se ambas se confrontassem, amistosamente, nesse ambiente sagrado.Existe uma frase encimando a porta de granito à entrada da Capela chamando a atenção para todos que por ali passam, com o seguinte teor: "Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos". A frase não merece comentário e sim reflexão.

Esta Capela que a princípio parece, para a maioria dos visitantes, assustadora aos poucos vai acomodando a emoção e introspecção da pessoa que, de uma forma ou de outra, passa a perceber que a morte é parte da vida, no sentido oposto, como que tentando evidenciar através de sua estrutura física toda a alma e subjetividade que ela emana. Diz ainda a placa granítica que os fins e objetivos da Capela construída pelos religiosos foi, a princípio, no intuito de servir de consolo a uns e de notícia e curiosidade a outros, de tal forma que ninguém ficasse indiferente a uma capela erguida com restos mortais do próprio ser humano, onde também se destinou à meditação e oração da comunidade ou de quantos ali vão para o encontro com a reflexão de sua própria finitude.

A Capela foi construída no século XVI pelos franciscanos e cujo monumento físico e arquitetura é formada por três naves de quase 20 metros de comprimento por 11 metros de largura, tendo largas frestas do lado esquerdo por onde entra luz natural. Suas paredes e pilares são revestidos de ossos e caveiras unidos por cimento pardo. Suas abóbadas rebocadas de tijolos brancos são pintados com motivos alegóricos à morte.

O monumento é na verdade de arquitetura penitencial de arcarias ornamentadas com filas de caveiras, cornijas e naves brancas, como bem descreve a referida placa de apresentação. Dentre os cinco mil crânios ali existentes e vindos de várias igrejas da cidade, está a de um abade brasileiro, cuja referencia, também se faz presente.Dizem que Évora não é só dos alentejanos, nem dos portugueses em geral, pois foi declarada Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, em 1986. Portanto Évora é uma cidade eterna. O provérbio de que "As Instituições ficam e os homens passam" pode ser sentido com mais propriedade na Capela de Évora do que em qualquer outro lugar.
* Professor do Centro de Biociências da UFRN (juarez@cb.ufrn.br)

7 de ago de 2008

INVEJA

I N V E J A

*Juarez Chagas


A INVEJA sempre esteve, de uma forma ou de outra, encravada no âmago da subjetividade humana. Muitas vezes tida como uma das forças mais destruidoras do próprio ser, há paradoxalmente, quem a classifique também como uma corrente de motivação positiva, desde que seja (na ótica desses defensores) com objetivos de melhorar o desenvolvimento humano.

Maslow (1908-1970), psicólogo americano e um dos maiores estudiosos da Psicologia da motivação humana e bastante conhecido por seus estudos de comportamento motivacional, através de sua teoria da hierarquia das necessidades humanas, não reservou qualquer lugar para a inveja, como motivação. É preciso ter cuidado para não confundir inveja com estimulo ou motivação, pois os sentimentos e caminhos entre ambas são bem diferentes. Como dizia Chaucer: “a inveja se entristece com a bondade e a prosperidade dos outros, mas se deleita com a desgraça alheia”.

Teremos a seguir vários artigos específicos sobre a inveja, anteriormente publicados no Jornal de Hoje, dentre os quais alguns foram solicitados neste blog. Boa leitura e...cuidado com a inveja!

* Professor do Centro de Biociências da UFRN(Juarez@cb.ufrn.br)

SOBRE A INVEJA


Sobre a Inveja
(Publicado anteriormente no Jornal de Hoje)
*Juarez Chagas

Repetir artigos, principalmente num mesmo tablóide ou blog, pode ser interessante ou justamente o contrário. Eu particularmente não gosto muito, por preferir sempre uma linha evolutiva, muitas vezes desafiando temas dentre os quais possamos permear no sentido literário. Porém, fica muito difícil quando pelo menos três leitores escrevem pedindo replay de um determinado assunto. É o que acaba de acontecer com o artigo sobre inveja que, mesmo já fazendo um certo tempo que o mesmo foi publicado, vez ou outra recebo algum e-mail solicitando sua re-edição.

Não é sem sentido que a inveja desperte tanto interesse, cuidado, aversão e cause tanta destruição no ser humano, sendo inclusive estudada no âmbito da psicologia, no contexto psicanalítico de Freud, assim como na psicologia simbólica de Jung, pois tem se configurado num dos mais destrutivos sentimentos do ser humano.

A inveja, segundo pecado capital, tem origem teológica e antropológica em diferentes momentos da vida humana, incorporada na subjetividade e personalidade individual, compondo assim a coleção dos sete pecados capitais: cobiça, inveja, luxúria, ira, gula, orgulho e preguiça. Na verdade, a inveja é tida como um dos mais vis dos sentimentos humanos que, pela sua capacidade de destruição, tem sido considerada uma patologia comportamental e por causa disso requer, inclusive, tratamento psíquico.

Etimologicamente é importante a noção da palavra “inveja-s. m. (Latim, invidiam). Misto de ódio e desgosto provocado pela propriedade ou alegria de outrem; desejo de possuir um bem que outrem possui ou desfruta”. Mas, não basta saber o que ela significa técnica e ortograficamente. É preciso entender o que realmente a inveja representa, o que pode causar e, melhor ainda, é vital dela se livrar!

A questão aqui não é apontar dicas ou receitas de como identificar um invejoso ou uma invejosa, porque isso compete a cada um de nós saber fazê-lo. Aliás, é vital, não apenas identificar, mas também se livrar do invejoso. Entretanto, para isso é muito importante que saibamos perceber os sinais. A propósito, estamos sempre recebendo sinais sobre tudo em nossas vidas, nós é que os negligenciamos, deixando escapar as nuances e detalhes. Nosso soma e nossa psiqué existem para nos inteirar ao ambiente, tanto o ambiente que nos cerca quanto nosso ambiente subjetivo, emocional e mental. Não possuímos cem bilhões de neurônios sem razão. Na verdade, são esses neurônios que compõem nosso sistema nervoso, e evidentemente, sua complexidade. Portanto, é necessário entendê-lo e desse entendimento usufruirmos de sua capacidade, caso contrário, estamos fadados ao insucesso e a tudo o que é negativo.

A inveja é tão importante em nossas vidas, do ponto de vista do conhecimento, que a ciência, a exemplo da religião, resolveu também se preocupar com ela. A psicanálise, por exemplo, tem dedicado uma boa parte de seus estudos à inveja. Freud, Jung, Melanie Klein e outros estudiosos do comportamento humano deram sua grande contribuição a estudos sobre o assunto. Na verdade, podemos ver que a inveja pode estar dentro de cada um de nós e também dentro dos outros pecados capitais, além de ser ela própria.

Mas, deveríamos bem notar o invejoso de longe, porque ele próprio se denuncia duma forma ou de outra. Muito embora suas características sejam diversas e ecléticas. Então, é aí que reside aí a importância dos sinais. Existe o invejoso aniquilador e esse diz logo a que veio; destruir você no primeiro round, sem dó nem piedade; existe o oposto desse, que ao contrário, se aproxima de você como uma hiena faminta, porém sutil; Tem o tipo gentil que engana bem. Rir de todas as bobagens que você fala, faz questão de ser seu “amigo”e elogiar as coisas mais absurdas e estúpidas que você possa dizer ou fazer, enquanto afia suas garras sem nenhum ruído para enfiá-las em você, no momento certo e quando menos você espera. Existe aquele que surge de repente, muito embora já estivesse lhe sondando há séculos! É aquele que sabe tudo sobre você, se brincar, mais do que você sabe sobre você mesmo. Existe aquele com quem você cruza somente eventualmente, mas que lhe espreita à distancia, há muito tempo, e quando lhe vê imagina consigo mesmo “eu ainda chego lá também. Me aguarde...” mesmo que, aonde você vá seja o pior lugar do mundo. O que ele quer é competir como você por uma questão de necessidade que vai além da inveja. Digamos que esse tipo possa até apresentar algum grau de psicopatia e achar que o que faz é correto; E aquele que quer ser você em tudo? Já se deparou com o tipo? Então se prepare que vai encontrar um dia. Se ele ou ela pudesse, teria até o teu nome ao contrário, para quando chamar repetidas vezes sem parar, soar exatamente igual. Sabe aquela brincadeirinha boba de dizer “você amo...” repetidas vezes e terminar dizendo “amo você”? É exatamente isso. Esse tipo quer ser você de qualquer jeito. E o perigo reside em tudo que diz respeito a você. Ele se aproxima da tua família, dos teus amigos, procura um trabalho parecido só pra freqüentar o mesmo ambiente; Existe o clone desse também, que quer ser você, mas não se aproxima. Ao contrário, ele tenta te personificar. Usa as mesmas roupas que você, o mesmo carro e até o mesmo perfume. Freqüenta os mesmos ambientes. Tudo isso a uma certa distância. Faz amizade com os teus amigos até chegar ao ponto que as pessoas começam a desconfiar que quem tem inveja dele é você. Aí já é tarde. Daqui que você consiga provar que é o contrário, irão achar você a mais ridícula das pessoas! Você pode até parar na terapia pra poder justificar a você mesmo que você é você e não ele e, correr o risco de ouvir o terapeuta te dizer “Você sofre de inveja”, ou então deixar o próprio terapeuta no divã, com síndrome da dúvida.

É meu caro e minha cara...da inveja ninguém se livra. A não ser que usemos um pouco de nossos cem bilhões de neurônios, adequadamente. O importante é que tenhamos também uma proteção energética antagônica à inveja, que pode até ser uma capa protetora, para podermos enfrentar esse tipo de morte que também veste a capa da inveja, matando a dignidade do ser humano, pondo fim no seu sentimento mais nobre, o amor à vida e ao próximo, através da solidariedade e otimismo igualmente para todos. Infelizmente, por causa da inveja, isso ainda parece utopia. Que todos tenham um bom carnaval, sem inveja, acidentes, nem mortes!

* Professor do Centro de Biociências da UFRN(Juarez@cb.ufrn.br)

AINDA SOBRE A INVEJA COMO MANTO DA MORTE




Ainda Sobre a Inveja como Manto da Morte
(Publicado anteriormente no Jornal de Hoje)
*Juarez Chagas

Continuando o assunto sobre inveja abordado em nosso último artigo, é bom enfatizar sua relação com a morte, inclusive a partir do título “A Morte veste o mando da Inveja”, sobre o qual recebi vários e-mails de congratulações sobre o tema e até alguns falando de suas indignações contra essa devastadora e negativa energia humana, o que me deixou bastante animado por terem sido todos de pessoas que abominam tão vil sentimento.

A relação da inveja com a morte é muito clara. Sim, inclusive porque a morte não é apenas um conceito do fim da vida, porem também significa perdas e aniquilações que não, necessariamente, apenas o fim físico, a extinção da matéria, a cessão do processo biológico. É muito mais que isso, daí sua complexidade e sua diversidade de conceitos, seja no âmbito social, teológico ou científico.

Engraçado é que se você for consultar um dicionário Inglês ou americano, você vai se deparar com o termo inveja como sendo o segundo “pecado mortal”(deadly sin) ao invés de pecado capital. Claro que, semanticamente temos uma adaptação gramatical, mas isso não correu por acaso. Por falar em acaso, eu pessoalmente, não acredito em coincidências nem em casualidades. Imagino que tudo acontece por uma razão de ser, de estar, de acontecer e não aleatoriamente, mesmo que seja apenas alguma coisa, como somos levados a pensar.

Portanto, esse pecado que é capital, é igualmente mortal. Trazendo essa idéia para o aspecto da inveja, podemos comprovar coisa mais absurda em sua razão de ser? O ser humano a ter inveja do seu próximo, poderíamos até arriscar dizer, da mesma forma que o ama ou odeia? E a razão disso reside no seu íntimo e essa razão o mata a cada dia, porque além de ter o poder de destruir seu próximo, também corrói a si mesmo, aniquilando seus bons sentimentos, tornando-o uma pessoa avarenta, infeliz e perigosa socialmente. Não são raros os exemplos de tramas, muitas delas mirabolantes e dignas da imaginação de Hitchcock que tanto gostava de retratar em seus suspenses antológicos, comumente culminando com mortes e destruições de quem é alvo da inveja.

Pois bem, assim como a morte, a inveja não é tão fácil de se definir como muitos possam imaginar. E pior ainda, ela pode se parecer como tantos outros sentimentos perigosos e destrutivos, como ciúme, possessão, obsessão e tantos outros. E você já imaginou quando esta vem associada aos mesmos? Realmente, aí fica muito difícil a pessoa conseguir se livrar. É botar as mãos pro céu e pedir a Deus por milagres! Aliás, a própria religião tratou de alertar a humanidade sobre a inveja, quando fez questão de mostrar no livro mais lido do mundo, a Bíblia, que Caim matou seu irmão Abel exatamente porque era invejoso. Por aí vocês tirem que, se a inveja está no próprio seio da família, onde estão não estaria mais...? Ela está olhando pra você no seu trabalho, está espreitando você às suas costas, está ao seu lado nas reuniões, seja de que ordem for, está no esporte, doida que você quebre uma perna, tenha uma torção, fique fora da competição; se você é escritor, jornalista ou simplesmente vive das letras, ela está torcendo pra você ter um traumatismo craniano que cause desordens no pensamento; Se você é um bom médico, dentista ou psicólogo, ela torce pra que o doente seja você; se você é um vitorioso comerciante ou empresário, ela deseja que você quebre e vá à falência; está nas escolas, nas universidades, em todas as profissões; enfim, seria mais prático perguntar onde a inveja não está.

Mas, aí teríamos dois problemas, além do que ter que enfrentar todo dia a própria inveja: um de ordem ambiental e outro de ordem social. No primeiro, talvez não existisse esse lugar onde a inveja não estaria e, se por um milagre existisse (milagres acontecem), nesse caso já seria o de ordem social, indubitavelmente, não suportaria o contingente de pessoas que para lá iriam, pois sem sombra de dúvidas todo mundo iria querer ir para esse lugar utópico.

Por outro lado, também duas coisas que nos alentam (a nós não invejosos) é que a inveja anda de mãos dadas com a mediocridade, conferindo assim uma característica, além de doentia, medíocre a quem é invejoso. Sim, porque só os medíocres são invejosos e não conseguem, ao invés de alimentarem a inveja, se debruçarem sobre esse próprio sentimento degradante, tentar dele se livrar e buscar seus próprios sonhos, suas próprias realizações, tornando-o escravo dos sonhos e realizações alheias que, mesmo conseguindo se apossar delas, jamais serão suas (isso é o que gera o conflito da não posse e não realização). E a outra coisa que nos alenta e, mesmo correndo o risco de termos nossos sonhos, por mais simples que eles possam ser, usurpados pelo invejoso, no fundo sentimos pena dele e, ao contrario dele, não lhe desejamos inveja nem destruição. Inclusive porque nesse aspecto, ele a si se basta. Mas, é bom estar atento e saber que a morte realmente veste a capa da inveja ou não seria o contrario, a inveja veste a capa da morte?




* Professor do Centro de Biociências da UFRN(Juarez@cb.ufrn.br)

A INVEJA CONTINUA


A Inveja Continua
(Publicado anteriormente no Jornal de Hoje)

*Juarez Chagas


Como diz o título do artigo, a inveja continua e, infelizmente, não poderia ser diferente, pois como sendo um dos sentimentos mais mesquinhos e destruidor que a sociedade já viu, acha-se impregnado na natureza e condição humana, quase como uma marca ou estigma.

A relação da inveja com a morte é, sobremaneira, muito íntima inclusive porque a morte não é apenas um conceito do fim da vida, porém também significa perdas, destruições e aniquilações que não, necessariamente, apenas o fim físico, a extinção da matéria, a cessão do processo orgânico e biopsíquico. É muito mais que isso, daí sua complexidade e sua diversidade de conceitos, seja no âmbito social, teológico ou científico.

Consultando um dicionário Inglês ou americano, veremos o termo inveja como sendo o segundo “pecado mortal”(deadly sin) ao invés de pecado capital (citei o dicionário Inglês, por sabermos que esse idioma contém quase 30% de palavras de origem neolatinas). O que chama a atenção de antemão é a palavra “mortal”, o que denota realmente que a inveja é devastadora e realmente mortal. Claro que, semanticamente temos uma adaptação gramatical, mas isso não ocorreu por acaso.

Em recente artigo, a revista Psique, Ciência & Vida No 1. traz uma reportagem (de capa) sobre a Inveja, a qual aborda alguns trabalhos recentes sobre a mesma, no âmbito da Psicologia, sendo esta defendida pelo Dr. Carlos Byington, médico psiquiatra e analista junguiano, afirmando que a inveja também tem seu lado bom e criativo, segundo a psicologia simbólica de Jung. Nesse contexto, afirma que a inveja tanto vitima quanto nos impulsiona para a vida. Esse tipo de inveja criativa, como passou a ser chamada é um fato em sua abordagem, porém pessoalmente não acho que deva ser uma pulsão saudável, mesmo no que diga respeito a uma força propulsora em busca de algumas realizações.

Talvez devêssemos substituí-la apenas por uma “ambição saudável” e não inveja, mesmo que possa ser vista como uma força transformadora do ser humano em busca de seus ideais. Inveja é sempre inveja e, devemos buscar sucesso em nossa capacidade criativa e estímulos cada vez mais criativos sem desejar a destruição do próximo, aprendendo a buscar nossos próprios desejos, mesmo que os mesmos sejam idênticos aos do próximo.

O ser humano é o único indivíduo a ter inveja do seu próximo, dentre toda a diversidade animal. Não estamos falando de competição, defesa e domínio de território ou qualquer outra situação de preservação ou sobrevivência individual do ser e sim de um certo poder de destruir seu próximo, mesmo que para isso também destrua a si mesmo, aniquilando seus bons sentimentos, tornando-o uma pessoa avarenta, infeliz e perigosa socialmente.

Pois bem, assim como a morte, a inveja não é tão fácil de se definir como muitos possam imaginar. E pior ainda, ela pode se parecer como tantos outros sentimentos perigosos e destrutivos, como ciúme, possessão, obsessão e tantos outros de natureza doentia. E você já imaginou quando esta vem associada aos mesmos? Realmente, aí fica muito difícil a pessoa conseguir se livrar. É botar as mãos pro céu e pedir a Deus para se livrar. Aliás, a própria religião tratou de alertar a humanidade sobre a inveja, quando fez questão de mostrar no livro mais lido do mundo, a Bíblia, que Caim matou seu irmão Abel exatamente porque era invejoso.

Por aí você conclua que, se a inveja está no próprio seio da família, no próprio sangue, onde estão não mais estaria...? Ela está olhando pra você no seu trabalho, está espreitando você às suas costas, está ao seu lado nas reuniões, seja de que ordem for, está no esporte, doida que você quebre uma perna, tenha uma torção, fique fora da competição; se você é escritor, jornalista ou simplesmente vive das letras, ela está torcendo pra você ter um traumatismo craniano que cause desordens no pensamento; Se você é um bom médico, dentista ou psicólogo, ela conspira pra que o doente seja você; se você é um vitorioso comerciante ou empresário, ela deseja que você quebre e vá à falência; está nas escolas, nas universidades, em todas as profissões; enfim, seria mais prático perguntar onde a inveja não está.

Mas, aí teríamos dois problemas, além do que ter que enfrentar todo dia a própria inveja: um de ordem ambiental e outro de ordem social. No primeiro, talvez não existisse esse lugar onde a inveja não estivesse e, se por um milagre existisse (milagres acontecem), nesse caso já seria o de ordem social, indubitavelmente, não suportaria o contingente de pessoas que para lá iriam, pois sem sombra de dúvidas todo mundo iria querer ir para esse lugar utópico, onde a inveja não existisse.

Por outro lado, também duas coisas que nos alentam (a nós não invejosos) é que a inveja anda de mãos dadas com a mediocridade, conferindo assim uma característica, além de doentia, medíocre a quem é invejoso ou invejosa. Sim, porque só os medíocres são invejosos e não conseguem, ao invés de alimentarem a inveja, se debruçar sobre esse próprio sentimento degradante, tentar dele se livrar e buscar seus próprios sonhos, suas próprias realizações, tornando-o escravo dos sonhos e realizações alheias que, mesmo conseguindo se apossar delas, jamais serão suas de verdade (isso é o que gera o conflito da não posse e não realização plena). E a outra coisa que nos alenta e, mesmo correndo o risco de termos nossos sonhos, por mais simples que eles possam ser, usurpados pelo invejoso, no fundo sentimos pena dele e, ao contrario dele, não lhe desejamos inveja nem destruição. Inclusive porque nesse aspecto, ele a si se basta. Mas, é bom estar atento e saber que a morte realmente veste a capa da inveja. Ou não seria o contrario, a inveja, muitas vezes, se cobre com a capa da morte? De uma forma ou de outra, infelizmente, a inveja continua.

* Professor do Centro de Biociências da UFRN(
Juarez@cb.ufrn.br)

2 de ago de 2008

JUNG...E YIN E YANG?

Jung... e Yin e Yang?
Publicado no Jornal de Hoje
*Juarez Chagas

A relação de Jung (1875-1961) com Freud (1856 - 1939) durou cinco anos, exatamente de 1907 a 1912 e, na verdade, foi mais traumática do que propriamente amistosa, segundo os mais íntimos de ambos confirmavam.Carl Gustav Jung concluiu seu curso médico em 1902, cuja tese de psiquiatria tinha o título de “Os Chamados Fenômenos Ocultos”, onde o mesmo, já cita sobre a "Interpretação dos Sonhos”, simplesmente três vezes. A história toda começava exatamente aí...

Por outro lado, porém quase na mesma direção, Freud já descobrira a ‘nova ciência da psiqué, a qual denominou de Psicanálise, que consistia numa parte da Psicologia como um novo método de tratamento das neuroses. Até aí, tudo bem, porém depois do primeiro encontro com Jung ocorrido em sua casa, em Viena, no início de 1907, começaria, o que poderia ser visto como uma relação de amor e ódio, entre ambos. Jung, apesar do grande respeito e admiração pelo mestre e pai da Psicanálise, diria depois o seguinte: "as primeiras impressões que tive de Freud permaneceram vagas e, em parte, incompreendidas".

Na realidade, com a clara resistência a Freud, por causa de seus estudos “contundentes” para a época, Jung cairia em sua defesa pública num congresso realizado em Munique, no qual Freud foi propositadamente omitido, a respeito das neuroses obsessivas, estabelecidas por ele. Daí, Jung, em 1906, escreveu um artigo numa revista médica sobre a doutrina freudiana das neuroses e acabou advertido por dois colegas de que se continuasse defendendo essa corrente (que era o próprio Freud) não teria futuro universitário.


Jung, entretanto continuou a defender Freud, porém com mais cautela e deixando claro que haveria diferenças entre ambos, enfatizando que a "única diferença que, apoiado em minhas próprias experiências, não podia concordar era que todas as neuroses fossem causadas por recalques ou traumas sexuais. Essa hipótese era válida em certos casos, mas não em outros”... Freud tomou isso como uma “irreverência” de seu predileto pupilo, o que, a partir de então, só se acirrariam os ânimos entre ambos, com Jung propenso a abandonar a teoria sexual defendida por Freud. Freud, por sua vez, via em Jung o futuro da Psicanálise e o instigava a não abandonar sua teoria.

Três anos depois do primeiro encontro, em 1910, ainda em Viena, Freud reiterou o pedido a Jung para não abandonar a teoria sexual, pois para Freud era necessário tornar essa teoria em "um dogma, um baluarte inabalável". Jung sentiu-se chocado com a proposta: "ele me pediu isso cheio de ardor, como um pai que pede aos filhos que vá à Igreja todos os domingos. Isso, "feriu o cerne de nossa amizade.”Comentaria Jung, mais tarde.

O certo é que o positivismo científico materialista de Freud não perdoou seu discípulo, o qual buscou fundamentos criativos na religião e ocultismo, fazendo com que a Psicologia de Jung fosse um processo de cura pela transformação do mundo à sua volta. Ele, envolto com o humanismo, via na religião uma forma de diálogo do ego com o self. Brigas, intrigas e desavenças à parte, analisemos a grande causa dessa “separação” dos dois maiores expoentes da Psicanálise: fenômenos ocultos! Como Jung sempre se interessou pela filosofia oriental, em 1920, acreditando na religião e mitologia, se aprofundou no Yin e Yang e, o que poucos sabem, passou a lançar varetas proféticas do I Ching, o Livro das Mutações (que inclusive tenho uma cópia) para seus pacientes.

Vale salientar que, o fascínio do I Ching levou Jung a formular a teoria da “sincronicidade”, algo não muito comum para os ocidentais. Uma coisa é incontestável, concordasse Freud ou não, o Ying e Yang é o equilíbrio. É o masculino e o feminino; o bem e o mal; a noite e o dia; o positivo e o negativo...tudo que as pessoas precisam no mundo de hoje: sincronicidade.


* Professor do Centro de Biociências da UFRN(juarez@cb.ufrn.br)

EU SEI JUDO

Eu sei Judo…
Publicado no Jornal de Hoje, anteriormente
*Juarez Chagas

Como estamos também, vez ou outra, incursionando pelas décadas de 60 e 70, sobre algumas peculiaridades a respeito da turma da Jaguarary e suas “relações contemporâneas” com outros fatos da época, é justo que falemos, pois de alguns acontecimentos interessantes que ocorreram concomitantemente, já que sempre me solicitam juntamente com outros artigos. Não custa atender gentil solicitação.

Recentemente, estive conversando com meu amigo Nilsen Carvalho (este mesmo, que é Vice-reitor de nossa Universidade Federal) e, a propósito por ter sido uma visita quase informal, enquanto conversávamos, relembramos de, pelo menos umas três passagens da época, das quais só vou me reportar sobre uma delas que, por sinal, tem o próprio Nilsen como protagonista.

Mas, antes de falar sobre o assunto, propriamente, normalmente quando nos encontramos, eu lhe digo duas coisas, já de praxe: “Gosto mais de você sem ser Vice-Reitor” e “Rapaz, joga esse cigarro fora...”. E explico as duas frases que ele já tá acostumado ouvir. Primeiro porque, normalmente, queremos privar das amizades de velhos amigos e, por vezes, os eventuais cargos importantes que ocupam, não nos permitem como gostaríamos, o que entendemos muito bem, pois acontecem por força do ofício. E, segundo, no caso especifico, toda vez que o vejo com um cigarro no bico ou entre os dedos, reclamo e chamo sua atenção, para que largue tal vicio que certamente tá acabando com seus pulmões. Pois se ele não o largar, o vicio é que certamente jamais ira deixá-lo.

Bem, voltando ao assunto, Nilsen cursava o curso de Farmácia, na mesma época em que Dilma (sua esposa), a qual é minha colega de turma, cursava Ciências Biológicas, portanto estávamos sempre nos encontrando pelos corredores, festas, jogos universitários, enfim, eventos comuns da turma. Vicente Babosa, nosso ilustre colega que, apesar de sempre ter estado envolvido com a política, também cursava Biologia e, alem da mania de só viver falando em política e, discursando sempre que podia, nesta época arranjou outro assunto, o judô. Pois bem...Vicente, empolgado com sua empresa de segurança, a emserve, inventou de aprender judô e defesa pessoal, juntamente com alguns de seus homens de segurança da empresa.

O fato é que ninguém agüentava mais ouvir Vicente falar em judô pra aqui, judô pra ali, golpe esse, golpe aquele. E um dia ocorreu que Nilsen (este sim, não apenas praticante realmente de judô, porém também competidor e já graduado, senão me falha a memória, em Jodan) estava meio chateado (por razão desconhecida), apesar de não ser uma de suas características, pois quando o mesmo anda calado, é muito mais um observador do que um aborrecido. E Vicente, empolgado com suas novas aulas de judô, porém ainda um neófito nesta arte marcial, não perdia a oportunidade de falar sobre seu novo aprendizado. Nesse dia, nos encontramos, pois, em um dos corredores da antiga Faculdade de Farmácia. Nilsen, por sua vez, tinha ido se encontrar com Dilma, após a aula. Vicente puxou no braço de Nilsen, assim que o viu se aproximar e foi logo dizendo:

- Nilsen, vem cá...ontem eu aprendi um novo golpe de Judô. Meu amigo, esse parece infalível!
Nilsen ficou parado sem dizer uma palavra, fitando Vicente que parecia contente com sua própria narração. Eu, ao lado de ambos, fiquei ouvindo e também observado a cena. Mas, Nilsen não parecia estar gostando de nada do que tava ouvido. E continuava fitando-o serenamente. E Vicente lá, falando sobre o golpe e, como ele finalmente percebera que Nilsen nem se empolgara e nem estava acreditando muito no que ele estava falando (porque até o nome do golpe ele não sabia pronunciar), Vicente por sua vez resolve, repentinamente, tentar demonstrar a técnica no próprio Nilsen. Nilsen, pra quem não o conheceu na época de atleta, parecia gordo (diferente de agora, que realmente é), mas era forte, ou seja, não era gordura e sim músculos que o deixavam atarracado e, diga-se, por sinal, um adversário dificílimo de algum oponente desestabilizar sua base, com um deashi barai, por exemplo. Vicente, não foi muito feliz em sua demonstração, pois segurou na gola da camisa de Nilsen e tentou girar para aplicar um osotogari (que era o nome que ele tentava explicar). Nilsen nem se aluiu do lugar e, imediatamente falou pra Vicente, ao mesmo tempo em que reagiu.

- Por acaso é esse golpe aqui que você tá tentando dar?..(já aplicando o mesmo) Lembro bem que não vi as duas mãos de Nilsen chegar à gola da camisa de Vicente, nem tão pouco vi seu pée direito varrer (deashi barai) suas duas pernas (que estavam juntas, o que um judoca jamais deixaria numa luta), mas sei que vi Vicente ser projetado, voando por cima do ombro de Nilsen e, se estatelar com todo o corpo no piso do corredor. A queda foi um pouco surda porque foi no cimento, mas o grito de Vicente, não. Todo mundo, por ali no prédio da Faculdade de Farmácia, deve ter ouvido.

Pra encurtar a história, dia seguinte, lá vem Nilsen novamente, pegar Dilma na saída da aula, juntamente com toda a turma. Assim que o vi se aproximar, olhei pra Vicente que estava andando todo troncho e entrevado, perguntei:
- Vicente, você por acaso aprendeu algum outro golpe de Judô, ontem à noite? Seu olhar fulminante e de desagrado foi a resposta, enquanto o riso da turma o desconcertou mais ainda.

Terminada a conversa (não essa sobre o episodio, mas sobre o assunto que realmente me fizera procurá-lo na Reitoria), Nilsen me disse:
- Olha, se você contar isso em seus artigos e Vicente não gostar e vier aqui me reclamar...(não o deixei completar a frase e disse):
- Então, a pedido meu, aplique outro osotogari nele, sendo que desta vez do lado esquerdo.

(Apesar da narração estar em forma de artigo, os nomes e o ocorrido não são mera coincidência e o fato é verídico e, mais importante ainda, continuamos todos bons amigos)

* Professor do Centro de Biociencias da UFRN (juarez@cb.ufrn.br)


Era Uma Vez, Lampião...


Juarez Chagas

Eu sempre achei a saga de Lampião, fantástica! Não discuto aqui como ele era visto pela ótica popular, se como herói ou vilão nacional, mas sim em seus conflitos e questões humanas pautadas em suas dualidades tempestuosas. Um homem capaz de fazer, com o pouco que tinha o muito que buscava. Era um verdadeiro obstinado. Na visão do banditismo ou da saga "hobinhoodiana", poderia até ser, por sua ambigüidade, comparado analogamente com Jess James, Billy the Kid, ou o próprio Hobin Hood e outros congêneres de outras partes do mundo. Mas, ele foi um sertanejo e bem brasileiro. E mesmo após 70 anos de seu desaparecimento, continua bem vivo na memória do Brasil.

Lampião e Maria Bonita e grande parte de seu bando, morreram na Grota de Angicos, em Sergipe, no dia 28 de julho de 1938, portanto há 70 anos atrás. Pelo rico legado inspirador de realidade e ficção, dedico a essa passagem histórica, o conto que se segue, intitulado “O Punhal de Lampião-A Historia que não foi contada”. O referido conto de 10 páginas e ,oportunamente, divididos em VI partes, não foi publicado editorialmente, mas encontra-se devidamente registrado na Fundação Biblioteca Nacional sob o Registro: 118.774 e foi lançado neste blog apenas como diversificação dos temas de rotina, para os leitores que gentilmente acompanham meu trabalho literário. Boa leitura!

O PUNHAL DE LAMPIÃO

O Punhal de Lampião
(A Historia que não foi contada)
Juarez Chagas


I Parte
Um Contador de Histórias?

Meu nome é Adelino Sebastião. Mas, não adianta dizer o nome de batismo, pois todo mundo só me conhece como Bastião da Serra Grande, o contador de estórias. Sou mesmo e o quê que tem? Aprendi com meu avô, homem de rara inteligência no meio desse sertão afora. Lembro bem que aprendi a ler e a escrever por iniciativa dele que me levou pro único grupo escolar da região, num dia de chuva, puxado pelo braço. Naqueles tempos e no meio do sertão, lugarejo que tinha grupo escolar era privilegiado. Disarnei rápido. A professora Clara gostava de mim, porque me achava inteligente e desembaraçado. Em pouco tempo eu tava lendo cartilha, catecismo, Bíblia, cordel e frases de placa de caminhão, quando aparecia um, uma vez na vida, nas festas juninas e finais de ano. Ela pedia pra mim ler na classe, em pé em frente da turma. Eu me sentia importante, meu avô também...

Depois, quando cresci, passei a escrever cartas pro povo que tinha parentes distante, nas capitais das cidades do Brasil a fora, pondo emoção e história no papel. Muita gente chorava na minha frente. Às vezes até eu também. Mas, simulava dizendo que era cisco no olho. Não ficava bem, eu chorar de minha própria interpretação das cartas dos outros. Também lia as que eles recebiam. Aí sim, às vezes fazia uma impostação de voz...dava mais vida às palavras da carta. Quando o sujeito ou a comadre tava alegre ou triste demais, eu invertia o tom e aí eles riam e choravam ao mesmo tempo. Mas, eu respeitava a todos. Não é fácil ter uma pessoa querida longe da gente. E assim, andei por todo o sertão do meu Estado que conheço como a palma da minha mão. O Estado do Rio Grande do Norte. Eu gostava muito de ler esse nome em voz alta. Achava bonito. Enfatizava as palavras Estado, Rio, Grande e Norte, como se fosse uma louvação. E era mesmo. Não importava se alguém entendesse errado. Rio Grande do Norte! Afinal, tinha que enaltecer o lugar onde nasci, mesmo que fosse no meio do sertão, não é mesmo?

Bem, mas indo ao que interessa, tem estória que vale a pena contar, outras que vale a pena esquecer. Outras são de arrepiar, outras de fazer rir e outras ainda de fazer sofrer. Mas, a estória de hoje não é sobre mim e sim sobre um grande amigo meu e o punhal de Lampião. Sim, isso mesmo, o punhal de Lampião!

Por falar em Lampião, existem muitas histórias e estórias sobre ele, o gangaceiro mais temido do Sertão, em todos os tempos. Herói ou bandido? Injustiçado ou justiceiro? E quanto mais a história se espalha, mais detalhes e versões ela ganha. Já as estórias de Lampião resultam de verdadeiras ficções mal ou bem contadas. Então, vamos à minha estória de hoje e tire suas próprias conclusões sobre história e ficção, herói ou bandido.

Corre o ano de mil novecentos e noventa, em Salvador que, como sabemos é uma cidade agitada por natureza. Nesse momento acabam de inaugurar o “Museu folclore Estadual”, num dia de festa que se confunde com tantas outras, numa das capitais mais alegres do Brasil. No museu, além de grande acervo cultural, estão expostas, não somente réplicas em cera das cabeças de Lampião, Maria Bonita e de grande parte do bando de cangaceiros, mas também grande parte do material de sua história, como livros, fotos, indumentárias e outros objetos. O acervo do museu é itinerante e a idéia é atrair turistas e curiosos do assunto sobre o cangaço.

Em pé, de frente às cabeças expostas, fumando seu cigarro de palha, um velhinho com pouco mais de oitenta anos, observa atento, como se tudo aquilo lhe fosse familiar. De repente, alguns turistas, juntamente com uma equipe de filmagem, ocupam o espaço, afastando-o de lado, como se ele estivesse atrapalhando o local. A equipe começa a filmar as cabeças do bando e seu acervo. Um deles, provavelmente o diretor da equipe, começa a narrar a historia de Lampião, seguindo um roteiro que carrega na mão.

- “E, Lampião, tido como o mais temido bandido do sertão brasileiro, era um dos indivíduos mais cruéis que alguém já conheceu...” Foi, de pronto, interrompido pelo velhinho que, com autoridade corrige a frase.
- Mentira! Lampião não era perverso e nem bandido! Você não o conheceu pra dizer isso! “Corta!” Bradou o suposto Diretor, sob o olhar surpreso de todos e furioso por ter perdido a seqüência da filmagem e olhando o velhinho por um instante, com o indicador nos lábios, indicando silêncio, volta a se concentrar em seu trabalho. “Vamos repetir a cena e a fala. Câmara, Luz, Ação!”
- “...Na realidade, diz a história, o Rei do Cangaço, costumava matar inocentes e indefesos, como represálias às investidas da polícia”. O velho dá um passo à frente e, dedo em riste, retruca novamente.
- Não senhor!...O diretor brame outro “Corta!” e o velhinho continua...Virgulino era um homem justo. Embora valente e enérgico, mas justo. Ah, se esse país tivesse mais homens como ele! Alguém no meio da equipe, provavelmente o responsável pela equipe, interrompe tudo e assume o comando dos trabalhos cinematográficos.
- Um momento! Fala erguendo a mão esquerda e olhando o velho, atentamente, indaga ao grupo...será que vocês não perceberam que podemos estar diante de um precioso achado? Põe a mão direita no ombro do velho, enquanto todos o cercam curiosos, passando agora a dar-lhe a devida atenção, enquanto pergunta.
- Quem é o senhor?...o que sabe sobre Lampião?
O velhinho olha atento e, antes que possa responder, aparece alguém com uma cadeira, na qual quase lhe jogam sentado e, já sob as lentes da câmera, desconfiado, mas querendo ainda contestar a história, pigarreia a garganta enquanto lhe pedem pra falar.
- Bem, já que vocês insistem...mas, a história é diferente, ouviram bem?
- Isso vovô, pode contar o que sabe. Todos ficam atentos, aguardando o velhinho.

Surge um close no rosto do velho que abre um largo sorriso nervoso e sob a fumaça duma grande baforada em seu cigarro, seus olhos agora vêm uma cena de sessenta e pouco anos atrás. O tempo lhe jogou para um passado....(Continua).

O PUNHAL DE LAMPIÃO

O Punhal de Lampião
(A Historia que não foi contada)
Juarez Chagas
II Parte
História ou Estória?...

...Tudo começa, como num passe de mágica...ele agora está nas redondezas de Martins, vizinho às regiões serranas do Rio Grande do Norte, no meio do sertão, trilha eventual do bando de Lampião, quando transitava entre as terras da Paraíba, Pernambuco e Ceará.
- Tá vendo aquele pé de manga? Pergunta ZéRaimundo, um rapaz robusto, de 16 anos, apontando o indicador.
- Tou sim...Responde Maria da Cruz, uma linda morena de 15 anos, dividindo o olhar entre a árvore e o rapaz.
- Pois bem, quem chegar lá por último, dá um beijo no outro.
- Pois, tá bom...responde ela, meio desconfiada.
- Então lá vai...um, dois, três e JÁ!!! E os dois se largam em disparada, com ele chegando primeiro, como era de se esperar. Não foi nem preciso ele cobrar o esperado beijo. Embora, um pouco tímida e ambos cansados, se aproximaram e, no meio da respiração de ambos, ainda ofegante, tanto pelo esforço da carreira como pela emoção do primeiro beijo, suas bocas se encontram lentamente e, de súbito, o arrebatador beijo. Há tempos que os dois se olham no grupo escolar onde freqüentam duas vezes por semana. Ambos perdem o fôlego e por um instante nada falam, até que ela quebra o silêncio.
- Você gosta mesmo de mim, ZéRaimundo?
- Mas, ôxente menina...gosto demais da conta. Ela não espera que ele diga mais alguma coisa. Justificar
- A gente vai se casar, num vai ZéRaimundo?
- Mas, claro que vamos...olha, eu tenho uma coisa pra te dar. Eu mesmo fiz. Puxa do bolso um colar de tiras couro de boi bem trabalhado e curtido a capricho e, cuidadosamente põe em volta do pescoço dela, que abre um belo sorriso.

Mas, aquele momento mágico estava com os dias contados. Dia seguinte, o lugarejo nos arredores da Serra Grande é atacado por um grupo do bando de Lampião, que acampava por aquelas bandas. Estavam de passagem para Mossoró e Virgulino tinha ido à cidade das Quatro Torres sondar, pois pretendiam saquear, mas que dessa vez seria apenas uma vistoria pelas vizinhanças da famosa capital do Oeste. Os cangaceiros que tinham ficado acampados invadem bodegas, o botequim e o armazém com seus suprimentos. Roubam, além dos cereais e outros pertences da comunidade, algumas mulheres e, entre elas, Maria da Cruz. Na verdade, o ataque acontece sem que Lampião soubesse, pois o mesmo tinha ordenado que os homens aguardassem seu retorno e esperassem suas ordens, para dar prosseguimento à viagem.

Durante o ataque, ZéRaimundo, da janela de sua casa, onde mora com uma tia que se encontra ausente, vê atônito a confusão e o pânico das pessoas correndo, fechando suas portas e janelas e escapando como podem. No momento em que os cangaceiros saqueiam e roubam as mulheres, ele sai correndo desesperadamente, quando vê Maria da Cruz ser apanhada e jogada na garupa do cavalo de um deles. Corre em disparada, desvencilhando-se dos cavalos, que tropeiam e circulam aleatoriamente, tenta socorrê-la, pois ela já estava no cavalo de “Araruta”, que no momento chefia o bando. Quando este percebe a investida louca do rapaz, desfere uma violenta coronhada com sua espingarda, em sua testa, a qual é imediatamente banhada por um vínculo de sangue que lhe escorre a face, fazendo-o cair praticamente desfalecido.

- Vou enchê esse fio d’ua égua de chumbo agora mêrmo!! Esbraveja Araruta, rodopiando seu cavalo e mirando a cabeça de ZéRaimundo, que se contorce no chão.
- NÃÃOO!! Grita Maria da Cruz, desesperada, na garupa, desviando o cano da espingarda num esforço inesperado, enquanto o tiro detona, acertando o ombro esquerdo do
rapaz que, já fulminado acaba por desfalecer. O cangaceiro, revoltado, desfere um violento
tapa no rosto da moça, fazendo-a desmaiar e pender o corpo em direção ao seu. Em seguida, grita para o bando e dá ordem de retirada, saindo todos aos gritos e tiros, em disparada pela estrada afora, desaparecendo nas capoeiras.

Após todo o alvoroço, volta à calmaria no lugarejo sob a imagem de um lugar completamente destroçado. ZéRaimundo é levado para o povoado mais próximo, para se tratar, mas a princípio, é tido como morto, por aqueles que aguardam seu retorno (Continua).

O PUNHAL DE LAMPIÃO

O Punhal de Lampião
(A Historia que não foi contada)
Juarez Chagas

III Parte
Dez anos se passam...

ZéRaimundo, desgostoso, não retorna mais à casa da tia e agora trabalha num armazém do povoado, cujo dono que o acolheu e dele cuidou, trata-o quase como filho. Nesse mesmo período conhece outra moça de nome Rosa Maria, que em pouco tempo por ele se apaixona. Apesar de ser correspondida, o rapaz nunca lhe negou que não esquecera seu primeiro amor e que ainda guarda esperanças de a encontrar um dia. Tem idéia fixa de se vingar, seja em que tempo for.

Certo dia, alguém lhe procura no armazém com um pedaço de papel na mão. O rapaz lê o bilhete amassado e, às pressas, volta ao lugarejo, o qual deixara há dez anos. Lá chegando, viu que sua tia que o havia criado até os dezesseis anos, estava estirada no meio da sala, morta e velada por alguns poucos amigos e suas comadres vizinhas. Nesse mesmo dia, ZéRaimundo tem notícia de que o bando de Lampião está acampado nas redondezas duma fazenda próxima e, com o coração sobressaltado, resolve averiguar. Talvez não lhe surgisse outra chance como essa, imagina.

Dia seguinte, logo cedo da manhã, ZéRaimundo é surpreendido por dois cangaceiros, que o viram bisbilhotar os arredores do acampamento do bando de Lampião, perto da tal fazenda. É preso e levado até o Rei do Cangaço. Ao chegar na roda dos cangaceiros que comem a refeição da manhã, é bruscamente empurrado para frente de Lampião que pergunta o que faz naquele lugar. Corajosamente diz que ali é sua região e conta sua história, a qual Lampião ouve com muita atenção e lhe diz que o responsável pelo roubo de sua namorada está em missão e que ele vai ter que ficar no acampamento até Araruta voltar, pra saber da veracidade da história. O sangue de ZéRaimundo gela e esquenta ao mesmo tempo. Desconfia do que lhe aguarda.
- Você é valente, cabra. Mas se for mentira o que tu tá dizendo, vai se arrepender de ter nascido. Ordena um dos cabras e manda cuidar dele.
- Dá um prato de comida pra ele e deixa ele vigiado até Araruta voltar!

Pelo menos, por enquanto estava a salvo, pensa ZéRaimundo enquanto lhe vigiam a uma certa distância.Entre as mulheres do bando havia uma moça usando o colar de Maria da Cruz, o qual ele logo reconhece assim que vê. Emocionado, ele tenta se aproximar da moça que, às escondidas, lhe dá notícias dela, dizendo que havia “morrido de parto”. A moça, de nome Imaculada, na medida do possível, passa a se encontrar com ZéRaimundo, em quem, de repente, passa a ver sua chance de escapar das garras do bando, pois também, assim como Maria da Cruz, havia sido raptada. Conta sua história, dizendo que também havia sido roubada, porém de uma distante fazenda e que Maria da Cruz havia lhe dado o colar de couro, antes de morrer. Aliás, que ela morrera em seus braços sem poder parir a criança. ZéRaimundo, entre desolação, ódio e algumas lágrimas que rolam em seu rosto, agradece a moça e se afasta, para seu lugar (Continua).

O PUNHAL DE LAMPIÃO

O Punhal de Lampião
(A Historia que não foi contada)
Juarez Chagas

IV Parte
Encontro com Araruta

Dois dias depois, Araruta retorna da missão. O rapaz o reconhece de imediato. Já havia se passado uns onze anos, embora para ele fizesse mais de um século! Por outro lado, naquele momento tudo volta à sua mente, como um verdadeiro flashback, como se fosse ontem. Lampião resolve chamar Araruta quase que de imediato. Em seguida, manda chamar ZéRaimundo também para confrontar a história do rapaz, porque um outro cabra do bando, cochicha algo pra ele, denunciando Araruta, de abuso de poder e maldade com as pessoas, passando dos limites, e de certa forma, difamando o bando de Lampião, nas missões que tem chefiado, quando Virgulino está ausente.

- Vou averiguar. Mas se for mentira cabra da peste, é melhor começar a rezar! Num gosto de quem delata amigo com mentira! Nesse espaço de tempo, ZéRaimundo, incentivado pela moça resolve fugir antes que ele vá ter com Araruta, porque passou a achar que não sairia vivo dali, nem ela também. Mas, quando os dois se dirigem sorrateiramente para se evadirem nas caatingas, surge Araruta que os surpreende. Este puxa pelo colarinho da camisa do rapaz e o esbofeteia, fazendo-o cair no chão e, antes que o mesmo se levante, seu punhal já está encostado em sua garganta, deixando-o totalmente imóvel e sem ação. A moça gela e quase desmaia, pois sabe o que vai acontecer.

- Tu vai arrenegá do dia em que nacêu cabra! Já a ponto de sangrá-lo, quando surge Lampião, interrompendo. O resto do bando vem atrás do seu chefe, para ver o que havia.
- Um momento cabra! O home é valente. Merece morrer lutando. Diz isso e olha para o cabra que havia denunciado Araruta e, arrancando um de seus punhais, de cabo de madrepérola, rebola para o rapaz, fazendo-o cair ao seu lado. Araruta pára por um instante, sem entender direito o gesto de seu chefe, olha para seus companheiros, e por intuição desconfia o porquê da ação de Lampião para com um desobediente de suas ordesn. Alguém deve tê-lo denunciado, imagina. ZéRaimundo olha Lampião, a moça e Araruta. Um flashback mais rápido que os outros percorre sua mente e ele não vê mais ninguém, apenas ele mesmo correndo para salvar Maria da Cruz, recebendo a violenta coronhada, caindo no chão e o tiro seco zoando em sua cabeça e atingindo-lhe o ombro. ZéRaimundo rola rápido e pega firme o punhal e se põe em pé e em frente a Araruta. Os cangaceiros fazem um círculo devagar. Agora, os dois armados começam a rodar, ambos de braços estendidos, de punhais na mão, guardando distância entre si, num ritual de morte, onde apenas um sairá vivo dali. ZéRaimundo, após receber algumas cutiladas, consegue num golpe de sorte, após uma esquiva rápida, em que Araruta fica totalmente exposto à sua frente com o punhal que riscou um golpe no vazio, espeta o peito esquerdo do cangaceiro que, após um baque surdo, dá seu último suspiro. Araruta está morto. Os cangaceiros ficam admirados, mas nada falam. Lampião, indiferente ao ocorrido, ordena os cabras, enquanto ZéRaimundo olha todos do círculo com o punhal na mão, ainda sujo de sangue. A moça, chorando, corre a lhe conferir os ferimentos, para ver se não são fatais. Aliviada, o abraça em soluços.

- Levem o corpo dele daqui e enterrem com todos os seus pertences! Dessa vez ninguém divide nada nem fica com nada dele! Dito isso, dirige-se para o cabra que “dedurou” Araruta e fala que a partir daquele momento ele é seu substituto. Em seguida, volta-se para o rapaz, que dá um passo à frente, olha o corpo sendo arrastado, estende a mão para Lampião, entregando-lhe o punhal de volta.

- E você cabra, a partir de agora faz parte do bando! Não pode mais abandonar o grupo. Foi justo, mas matou um dos meus homens mais valente. Talvez tenha evitado que eu mesmo tivesse feito isso. Mas não podemos ter nenhuma baixa agora. Os macacos são muitos. Fala isso olhando para ele e para o punhal e completa.
- Pode ficar com ele. Com certeza ainda vai salvar tua vida outra vez (Continua).
O Punhal de Lampião
(A Historia que não foi contada)
Juarez Chagas

V Parte
Um Novo Cangaceiro e o fim de Lampião

O tempo passa e ZéRaimundo agora faz parte do cangaço, até que um dia cedinho o bando parte para o que seria sua última batalha. O dia era vinte de Julho, o ano Trinta e Oito. Depois da derrota do bando de Lampião, em Mossoró, 6 anos atrás, os cangaceiros andavam mais precavidos. Mas, mesmo assim, Lampião organiza-se para ir a Pernambuco pela última vez, sua terra natal. Só depois iria para a Grota do Angicos, já em Sergipe, para uma trégua de alguns dias, onde descansaria e estudaria com calma suas novas estratégias de combate aos “macacos”. Ordenou a ZéRaimundo que ficasse tomando conta do acampamento, como era de costume, enquanto o resto do cangaço partia para distante missão. . De repente, pensava ele, seria mais um teste de confiança de Lampião, pra ver se ele fugia, em sua ausência, com a moça? Afinal, já fazia mais de ano que ele estava no bando, após a morte de Araruta, mesmo que nunca tenha participado de confronto algum com os macacos ou outros ataques do bando. Aprendera a atirar e reconhecer pistas, muito bem, porém sempre muito observado, de perto ou de longe, pelo próprio Lampião.
- “É mais fácil eu dizer na cara dele que vou m’embora do que fugir pelas suas costas...” Respondia ele a seus próprios pensamentos.

Uma semana depois de atravessar o Rio São Francisco, vindo de Alagoas, Lampião acomoda-se na Grota de Angicos, seu mais seguro esconderijo e, portanto, o preferido dentre os demais, pois nem jagunços mais espertos que procuravam se juntar ao bando de cangaceiros conseguiam encontrá-lo por aquelas redondezas sem ajuda de algum coiteiro de confiança.

Naquela manhã de vinte e oito de Julho de 1938, Lampião sai de sua tenda na Grota de Angicos, com uma caneca na mão, acompanhado de Maria Bonita, para lavar o rosto e olhar o ambiente. Ele jamais poderia desconfiar que o local estivesse cercado por 50 soldados da tropa do tenente João Bezerra, da policia de Alagoas, ajudado por um coiteiro traidor de nome Pedro Cândido, que conhecia bem o lugar e era da confiança de Lampião. E certamente, tinham cercando o lugar na calada da noite. Havia trinta e quatro cangaceiros no esconderijo, mas todos foram surpreendidos de tocaia, a menos de seis metros de distância, pelos soldados entrincheirados, com fuzis e metralhadoras. Lampião levou um tiro mortal e caiu já praticamente morto, enquanto Maria Bonita caiu sobre seu corpo na tentativa de protegê-lo e foi também crivada de balas. Quase todos foram assassinados! Apenas alguns conseguiram escapar, os quais depois se juntariam ao bando de Corisco, que por sua vez, tentaria vingar a morte de seu mentor. Mas, o massacre não acabou simplesmente com a morte de Lampião e seus cabras, pois friamente tiveram suas cabeças decepadas, exibidas como verdadeiros troféus, em vários Estados brasileiros. Era preciso mostrar a força do governo ao povo, através da polícia...

Dois dias depois do horrendo massacre, ainda no distante acampamento estratégico, ZéRaimundo e Imaculada, depois de ouvirem por todo canto sobre a morte de Lampião e seus cabras, sem que ninguém visse ou soubesse, conseguem chegar a Grota de Angicos. Ali encontram todos os indícios do impiedoso massacre e o chapéu de Lampião, esquecido num canto do mato. Depois de verificarem tudo, os dois procuram sair dali o mais rápido possível.

Ao voltarem por outro lugar totalmente desconhecido para eles, porém comum para o bando de Lampião, ironicamente passam, sem perceberem, nos arredores à beira do caminho, por uma cruz de madeira, enfincada numa cova, com o seguinte escrito: “Maria da Cruz, mulher de Araruta”. Nesse dia, o vento sopra forte, sibilando, aplacando o calor do sertão (Continua).

O PUNHAL DE LAMPIÃO

O Punhal de Lampião
(A Historia que não foi contada)
Juarez Chagas


VI Parte
Mais vale um punhal na mão do que dois na cintura...

Voltando ao presente, repentinamente, foi como se os olhos do velho agora voltassem do passado e pudessem ver o momento e todas aquelas pessoas ao seu redor, ouvindo sua história. Foi como se estivesse acordado de um sonho distante, como se estivesse sedado pela memória do tempo. O Diretor das filmagens, sorrindo lhe faz a seguinte pergunta.
- Pra terminar...o senhor tem alguma prova do que está dizendo, ou algo que pertenceu a Lampião e que não esteja aqui neste museu? Um membro da equipe começa a balançar a cabeça e fala, contestando a pergunta.
- Ora, ora...nada a ver, cara. Quer prova mais que essa história? A equipe vibra e começa a bater palmas, aplaudindo. E todos parecem comemorar o grande achado.
- Demais, pessoal! Foi a surpresa do ano! Vamos mesclar nosso roteiro com essa história real, já que ficção e realidade sempre caminham juntas. Já tenho até o título na cabeça: “Lampião, a história que não foi contada!”. Mais palmas se ouve, enquanto o velhinho aproveita o momento de euforia de todos, para sair dali de mansinho. Aquela euforia besta não lhe interessa. E realmente consegue sair sem ser notado.

O velho ainda não acabara de descer as escadas do museu, quando é abordado por dois trombadinhas, de canivetes em punho e dois pares de olhos assustados, lhe abordando.
- É um assalto vovô. Passa a grana. Passa!! O velhinho olha os dois trombadinhas e, de repente, saca um punhal por dentro da cintura (de cabo de madrepérola) e mostra para os dois rapazolas que, pasmos olham o punhal e, sem querer, comparam com seus pequenos canivetes. Entreolham-se por um instante e “desabam” em disparada, gritando mamãe. O velhinho olha para o punhal com um sorriso silencioso e diz a si mesmo.
- “Mas, certamente não me salvará da terceira, Virgulino” .
Ele estava certo, pois dois dias depois, após nossa última conversa, tem um infarto fulminante e morre como um bravo. Seu punhal, o punhal de Lampião me foi dado por ele mesmo como lembrança. Até parece que sabia que ia morrer...

Pra terminar, dizem que sou um bom contador de estórias e histórias e que às vezes, misturo uma com a outra, fato comum hoje em dia. Todavia, se o leitor for bem informado, vai saber diferenciar a história na ou da estória e vice-versa.

Mas, o mais importante dessa narrativa, é que, em nosso Estado do Rio Grande do Norte, não foi somente Mossoró que enfrentou Lampião, como muitos dizem. Pois, vindo da Paraíba, pra chegar até lá, Virgulino e seus capangas passaram por muitos lugares do Estado. E, com certeza, não apenas rezaram para o Padrinho Padre Cícero do Juazeiro, no meio do caminho, não. Prova disso foi meu amigo ZéRaimundo que, embora hoje cantado em cordel e contado em ficção, não somente enfrentou o cangaceiro, mas também conviveu com ele, embora levado pelas circunstancias da vida.

Meu nome é Adelino Sebastião. Mas, não adianta dizer o nome de batismo, pois todo mundo só me conhece como Bastião da Serra Grande, o contador de estórias. Sou mesmo, com muito orgulho e o quê que tem?

FIM

1 de ago de 2008

UM HOMEM CHAMADO PROTÁSIO MELO



Um Homem Chamado Protásio Melo
Publicado no Jornal de Hoje, anteriormente
* Juarez Chagas

Somente hoje soube do recente falecimento de Protásio Melo (Setembro de 2006), quem eu tive a honra de conhecer de perto. E, esse evidentemente é mais que um motivo para mudar meus artigos de última hora, pois quero fazer alusão a uma das principais pessoas cultas de nosso Estado que atravessou o tempo com a mesma altivez e importância de tempos idos.

Ainda garoto, nos anos 60, auge da SCBEU na sociedade natalense, onde Protásio foi fundador e um dos seus principais professores de fonética e literatura americana, fui um de seus alunos nesses dois cursos, nos quais ele, com profundo conhecimento e habilidade, tornava o árido assunto (pra muitos um saco!) em aulas instigantes! Era, além de profundo conhecedor do Inglês, um gentleman.

Advogado de formação (cursou Direito em Recife), porém professor por opção, Protásio foi o principal elo de comunicação entre os americanos, governo norteriograndense e a sociedade natalense, no período pós-guerra, onde os americanos montaram uma base estratégica em Parnamirim, a qual passou a ser conhecida como “O Trampolim da Vitória”. Uma das últimas vezes que colocamos a conversa em dia foi em 1998 (ele ainda totalmente bem) em sua própria casa, a qual vez ou outra eu visitava e em cuja área costumávamos bater um saudoso papo, em Inglês, como ele gostava. Ele gostava de duas frases quando saia do Português pro Inglês sem avisar: “It´s a long time no seeing you...” e “I have to brush my English” (Quanto tempo sem ver você... e Tenho que desenferrujar meu Inglês).


A propósito de sua influência tanto com os americanos que “invadiram” a Natal dos anos 40 e o Governo daquela época, ele me disse, numa dessas conversas, de seu ressentimento com a direção do filme “For All – O Trampolim da Vitória” (1997), por não terem dado o devido valor e, pior ainda, distorcido, mesmo com uma trama fictícia no meio duma história real, o papel e importância do tradutor (que foi o próprio Protásio na vida real). Luiz Carlos Lacerda e Buzza Ferraz estiveram com Prontásio e o entrevistaram por um bom tempo, porém mudaram o rumo da história e da importância que o tradutor imediato teve, inclusive como conhecedor de segredos e importantes informações junto aos americanos, durante o período em que aqui estiveram. Protásio ficou bravo com o resultado. E com razão! Protásio não era apenas um tradutor, mas também ensinava Português aos oficiais sediados em Natal e tinha status de “oficial” no meio deles.

Na verdade, Natal tornou-se a principal cidade, não apenas brasileira, mas internacional, da época, em termos de base estratégica de guerra e, os 15 mil soldados americanos que aqui conviveram nessa época, mudaram radicalmente os costumes da pequena “cidade do sol” daquele tempo. Trouxeram tecnologia da época, eletrodomésticos, dólares e muito glamour, transformando a lenta e cadenciada vida tranqüila de Natal em abruptas mudanças às quais teve que se submeter do dia pra noite. O Inglês passou a ser a segunda língua de Natal e, talvez por essa razão, seja, mesmo ainda provinciana, uma das cidades brasileiras onde se fala mais e melhor o Inglês, em comparação com outras. Digo isso com conhecimento de causa, pois eu mesmo e tantos outros remanescentes dos anos 60, ensinamos o idioma por mais de duas décadas na Sociedade Cultural Brasil Estados Unidos, a qual evolui do adido cultural que os americanos estabeleceram entre as ruas Getúlio Vargas e Joaquim Manoel, tomando um quarteirão inteiro. Lá era a sede do Idioma Inglês em Natal que burilava por toda a cidade, desde o Inglês mais casto ao “Broken English” de cais de porto. Até a época do governo Nixon, emissários americanos ainda eram enviados para Natal, e um americano dirigia a SCBEU a cada dois anos. O ambiente continuava característico e a escola de Inglês ainda a melhor da cidade.

Eu passaria um bom tempo falando sobre Protásio, se necessário fosse. Mas, isso não é preciso e nem oportuno, no sentido de suas qualidades, as quais todos que o conheceram de perto e privaram de sua amizade, sabem. A imagem que tenho de Protásio, além de dezenas e dezenas de fotografias da época em que ele foi fundador, Professor e Presidente da SCBEU, é a imagem de quem correspondeu ao seu papel e função aqui entre nós. Era um bom marido e um pai apaixonado pelos filhos e filha e um excelente amigo, o que pude constatar, apesar da diferença de idade. Apenas lamento, não poder mais ouvir uma das frases que ele mais gostava de dizer quando revia os amigos: “A long time no seeing you...” Rest in peace, Protásio. (descanse em paz).

* Professor do Centro de Biociência da UFRN (Juarez@cb.ufrn.br)
Professor Melquíades e a SCBEU (II)
Publicado no Jornal de Hoje, anteriormente

* Juarez Chagas

Dentre os 54 sócios fundadores da Sociedade Cultural Brasil-Estados Unidos que constam da relação de sua Ata de fundação, em 26 de Julho de 1957, a começar com Doutor Onofre Lopes da Silva e terminar com Humberto Nezi, seguido do norte-americano W. Taylor, acha-se na 48ª posição na relação dos fundadores, “Jose Melquiades, brasileiro, solteiro, professor, residente em Natal”. Vale salientar a particularidade para a profissão de PROFESSOR, entre outras como medico, advogado, Jornalista, engenheiro...pelo menos, nessa época, professor era uma profissão respeitada e valorizada, em nosso pais.

Nessa época, ele já havia desistido do seminário, preferindo o magistério à batina, porem ainda não tinha se casado com D. Giselda Paraguassu, com quem depois teve oito filhos, sendo quatro homens e quatro mulheres. Ate nisso foi equilibrado, como gostava de dizer quando indagado sobre seus descendentes. “Ninguém tem nada a reclamar em termos de maioria ou minoria. Lá em casa, homens e mulheres são iguais, mesmo que seja na quantidade”.

Por falar em igualdade, das ilustres mulheres fundadoras da SCBEU, podemos citar Zila Mamede, D. Floripes Mesquita, Yvone Barbalho (que por sinal, nos deixou recentemente...), dentre outras. Pelas pessoas que fundaram nossa Sociedade Cultural Brasil-EEUU, podemos ter uma idéia de sua importância no meio sociocultural de Natal.

Professor Melquiades, como vimos no artigo anterior, era uma pessoa tanto carismática quanto culta e, o mais importante, a simplicidade interpunha-se entre essas duas qualidades, algo não muito fácil para muitas personalidades em qualquer profissão.

Uma outra paixão que ele carregava consigo e que, poucos sabiam, era o significado dos Reis Magos para nossa cidade. Tanto é verdade que Natal, alem de um lindo nome, é uma cidade apaixonante, tem, analogamente, tudo a ver com o dia do nascimento de Jesus, onde os três Reis Magos, teriam peregrinado para oferecer presentes ao Cristo Salvador. Professor Melquiades escreveu um livro, intitulado História de Santos Reis, publicado em 1999, narrando também sobre a Capela de Santos Reis, bairro onde escolheu para viver.

Mas, trazendo da lembrança outra interessante passagem sobre o mestre, certa vez tive que procurá-lo, às pressas, pois eu tinha assumido, temporária e circunstancialmente a Direção da SCBEU, em 1982 (durante sua fase mais difícil, diga-se de passagem. Nessa época, Dr. Onofre Lopes, mesmo adoentado, presidiu sua ultima reunião) e, precisava de sua assinatura de Vice-Presidente. Disseram-me que o encontraria facilmente no Bar do Lourival, ali perto da antiga Radio Poty, quase em frente ao Diário de Natal. Dito e feito, lá estava ele, elegantemente sentado ao redor duma mesa, com um amigo que eu não conhecia e, pelo visto, tinha acabado de chegar, pois não havia ainda bebida em sua mesa, fato que só acontecia em duas situações: ou ele estava doente, ou não havia mais bebida no bar. De repente chega o garçom, e coloca em sua mesa uma dose de Rum Montila. Apresentei-me no exato momento que o rapaz se retirava para atender outros fregueses do bar.
-Garçom, por favor...quem mandou trazer essa bebida? O rapaz volta-se, dar de ombros e disse “o senhor”.
- Não, não, não (esfregando as mãos). Você me perguntou, “Cerveja?” e eu lhe disse apenas“Unh Hum! E não um rum!” Por favor, volte e me traga a cerveja mais gelada que tiver. Só bebo Rum Montila em ultima instancia!
- Bhrama? Pergunta, desconfiado o garçom.
- Unh Hum! Responde, rindo o professor, esfregando as mãos e mostrando-me uma cadeira para que eu sentasse.

No dia 11 de Novembro de 2001, o professor Melquiades, assistia uma missa na capela de Santos Reis, a qual historiou e tanto defendeu, quando se sentiu mal e foi levado para o Papi, onde veio a falecer, mais ou menos, umas três horas depois.

Para os inúmeros alunos e alunas cujas formações tanto contribuiu, tenho duvidas se existe algum ou alguma que não sinta orgulho em dizer a frase ao contrario do que o velho MESTRE tanto falava: “Foi meu PROFESSOR!”
*Professor do Centro de Biociências da UFRN (juarez@cb.ufrn.br)