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19 de mar de 2009

A ESSÊNCIA DO SUJEITO

A Essência do Sujeito
*Juarez Chagas

Lendo o Método 5, A Humanidade da Humanidade, de Edgar Morin, cujo título original é La Méthode 5, L’humanité de L’humanité, lançado no Brasil pela editora Sulina (2005), o leitor encontra na segunda parte do livro que trata da identidade individual, o primeiro capítulo que discorre sobre “O Âmago do Sujeito”. O Método é sua principal obra e é constituída por seis volumes, tendo sido escrita ao longo de três décadas e meia. Trata-se de uma das maiores obras de epistemologia disponível e nele, podemos encontrar muitas referências de seus outros livros como O Paradigma Perdido: a Natureza Humana, O Homem e Morte, dentre outros.

Morin, sabiamente, como era de se esperar, inicia rebuscando a noção de sujeito, baseada tradição filosófica ocidental, apontando onde o sujeito “engessou”. Por isso ele faz um interessante trocadilho que sucinta sagaz reflexão: “Ser sujeito supõe um indivíduo, mas a noção de indivíduo só ganha sentido ao comportar a noção de sujeito”, e lá na frente ele conclui o parágrafo, enfatizando que “ser sujeito implica situar-se no centro do mundo para conhecer e agir”.

Edgar Morin, como já bem sabemos, é sociólogo, filósofo e um dos mais importantes pensadores da atualidade e um dos expoentes mais expressivos do pensamento mundial contemporâneo. É considerado um dos principais mentores do estudo sobre a complexidade e, para nosso deleite acadêmico, esteve em Natal por duas vezes, em maio de 1998 e em 2004, onde se encontrou com o pessoal do Grecom-Grupo de estudos da complexidade, na UFRN, onde proferiu palestras sobre o tema.

Na verdade, ele propaga seus estudos e pesquisas de caráter inter-poli-transdisciplinar sobre os problemas complexos que as sociedades contemporâneas hoje enfrentam, coletivas para resoluções e análises satisfatórias de tais complexidades.

Resumir o pensamento de Morin sobre a essência do sujeito, não é tarefa fácil nem tão pouco pretensão deste artigo. Entretanto, não deixa de ser interessante e, eu diria que, muito importante também, abordar tais considerações neste contexto, uma vez que o entendimento de sujeito, seu papel e lugar no contexto sociocultural muitas vezes é entendido de várias formas e percepções, o que concordamos, causa certa confusão. Além disso, há uma ampla visão, cujo entendimento sobre o âmago do sujeito, nos permite viajar em sua subjetividade, porém nada disso o impede de viver para si e para o outro dialogicamente, como aponta morin.

Por outro lado também, é interessante notar que na essência do sujeito, enquanto indivíduo, a subjetividade comporta a afetividade, evidentemente, fazendo com que o sujeito humano esteja destinado ao amor, à entrega, à amizade, à inveja, ao ódio e a todos os sentimentos e conteúdos que o movem na relação com o outro. E é fundamental não esquecer que a relação com o outro inscreve-se virtualmente na relação consigo mesmo. Essa reflexão nos faz lembrar Jean-Louis Vullierme quando o mesmo diz que “os sujeitos se auto-organizam em interação com outros sujeitos”.

Nesse sentido, chamo a atenção sobre um dos artigos que escrevi sobre Tanatologia, onde lembrava que a morte do outro é a morte de si próprio e entendemos melhor essa colocação quando aceitamos que a morte não é apenas a decomposição de um corpo, porém e igualmente o aniquilamento de um sujeito. Por isso é que a morte de um ente querido não aniquila apenas o outro, mas também o eu e o nós mais íntimos, abrindo, na quase totalidade das vezes, um insuperável e intransponível ferimento no âmago de sua subjetividade.

Na realidade, se todos nós entendêssemos nossa própria essência e a essência do outro, o mundo certamente teria melhores indivíduos, melhores sujeitos e ótimas pessoas.

* Professor do Centro de Biociência da UFRN (Juarez@cb.ufrn.br)

A MORTE SEGUNDO FREUD

Nós e a Morte, Segundo Freud
*Juarez Chagas

“Nós criaturas civilizadas tendemos a ignorar a morte como parte da vida...no fundo ninguém acredita na própria morte, nem consegue imaginá-la. Uma convenção inexplícita faz tratar com reservas a morte do próximo. Enfatizamos sempre o acaso: acidente, infecção, etc., num esforço de subtrair o caráter necessário da morte. Essa desatenção empobrece a vida...”.

O texto acima é de Sigmund Freud e é a introdução de sua palestra intitulada “Nós e a Morte”, proferida em 1916, a qual faz parte de sua obra “Considerações atuais sobre a Guerra e a Morte”, onde o psicanalista apresenta ao mundo científico da época, sua visão sobre a finitude humana e como ela deveria ser encarada por cada um de nós.

O texto de Freud tem a capacidade de nos conduzir a algumas reflexões nada rotineiras ou prazerosas, mas que todo ser consciente deveria fazer, porém no entanto, normalmente fugimos delas (reflexões).

Quem leu o trabalho de Freud “Nós e a Morte”, o qual originou-se de um ciclo de palestras proferido pelo mesmo em 1915, percebe que sua preocupação com a questão da morte tem base não apenas no declínio da condição biológica, mas também fortemente calcada na questão da guerra e sua capacidade destrutiva além da morte, algo que o afetou muito particularmente! Ele reporta-se, categoricamente, sobre o ato do homem matar seu inimigo desde sua época mais primitiva aos dias atuais, havendo um ponto comum entre o homem primitivo e o civilizado, no que diz respeito ao desejo de destruir quem o ameaça ou lhe oferece perigo, pois a consciência de que a guerra põe fim à atitude convencional ante a morte é planejada.

Interessante é que Freud diz que nosso inconsciente comporta-se de maneira semelhante ao do homem primitivo, pois este inconscientemente não acredita na própria morte, apesar de vê-la rondando e de abater seu próximo, constantemente. Por outro lado, sabemos que o consciente, como era de se esperar, apavora-se com a idéia da morte e, portanto, está aí gerado o conflito existencial. A propósito, Freud chama a atenção de que nossa atitude civilizada perante à morte é muito irreal e que “vivemos psicologicamente acima de nossos meios”, enquanto deveríamos conceder um espaço maior em nossas vidas para a morte, para que a vida se tornasse suportável conscientemente, embora sabendo de sua finitude e de suas conseqüências.

No meio de toda essa fantástica abordagem de Freud, me chama a atenção o fato dele se referir a “atitude civilizada” do homem frente à morte, mais de uma vez, como se admitisse ser uma obrigação para o homem moderno lidar melhor com sua terminalidade. É claro que fica evidente a comparação que o mesmo faz entre a maneira de encarar a morte e a guerra entre o homem primitivo e o homem civilizado, no entanto, observando a evolução humana através dos tempos, percebemos que a aceitação da morte como sendo parte da vida ou o fim desta, não avançou como deveria. É interessante observar que quanto mais moderno o homem, mais modernas suas guerras e suas mortes.

E sabido, não somente por causa da doença que o combalia, o definhava e o irritava cada vez mais, nos última anos de sua vida, mas também por cada vez mais admitir ser a finitude a última companheira do homem, que Freud defendia a idéia de que viver eternamente seria o maior fardo que o ser humano carregaria, se possível fosse. E isso não estava no seu inconsciente.


* Professor do Centro de Biociência da UFRN (Juarez@cb.ufrn.br)

RUA AUGUSTA

Rua Augusta
*Juarez Chagas

Em 2005, quando fui participar de um congresso de Tanatologia em São Paulo, realizei um simples e antigo desejo, relacionado à década de 60: percorrer a Rua Augusta, de seu início até o fim, no intuito de conhecê-la melhor, em toda a sua extensão.

Na verdade, eu já havia passado uma temporada
em SP quando estudava na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), por ocasião do Mestrado, nesta universidade e que fica a, apenas, alguns quarteirões de distancia da mesma. Porém, naquela época, apesar de, eventualmente passar por esta rua, não havia tempo para conhecê-la melhor, como pretendia. As energias e e todos os meus horários, inclusive finais de semana eram somente destinados para os estudos.

Pra quem não sabe, a rua Augusta virou um marco histórico para a juventude brasileira daquela época e representou, na década de ouro dos Anos 60, para os jovens, especialmente, os paulistanos, glamour e diversão. Era ao mesmo tempo, obrigatório e livre ponto de encontro da juventude paulistana das décadas de 60 e 70, constituindo-se numa importante via arterial da cidade, unindo os jardins ao centro da cidade. Seu início, a partir da rua Martins Fontes com a rua Martinho Prado até o cruzamento com a Avenida Paulista, forma uma acentuada subida que a partir deste ponto desce até o seu término na Rua Colômbia, que é, na verdade, uma continuação da mesma, porém com outro nome.

Atualmente, o trecho que vai do início da rua até o cruzamento com a avenida Paulista, se localiza na região centrala de São Paulo, onde se pode encontrar boites, saunas , pequenos restaurantes e casas de espetáculos, porém sendo um dos pontos de meretrício na cidade, um marco nada orgulhoso para a maior cidade brasileira, nos dias de hoje, mas que faz parte de sua geografia e urbanismo.

Não é nenhuma novidade o estilo de vida dos jovens dos Anos 60, embora muitos ainda seguissem a filosofia dos “Rebeldes sem causa”, defendido pelo estilo James Dean, dos anos 50, ou de Brando e Presley, dentre outros e, no Brasil, especialmente nas cidades consideradas “grandes e avançadas”, não era diferente.

No caso da Rua Augusta daquele tempo, os jovens paulistanos exibiam seus carros em alta velocidade pelo asfalto, encontros de turmas, grupos, casais de namorados, onde a onda do Rock n Roll, ainda imperava. Era o frisson da época subir a Augusta, no sentido Avenida Paulista , fazendo “pegas e cavalo-de-pau” e apostando corridas em grupos de 10 a 15 carros, no estilo “Juventude Transviada”. Era um delírio para todos: os jovens se deleitavam com a adrenalina e os pais ficavam às raias de infartos e colapsos nervosos.

Evidentemente que tudo isso não tinha apenas que ser vivido pela juventude, mas também cantado. E, assim sendo, a música Rua Augusta (1963), de Hervé Cordovil e, cantada e interpretada por seu filho Ronnie Cord (Ronald Cordovil), retrata muito bem toda essa rebeldia da juventude paulistana. Posteriormente, a música foi imortalizada pela Jovem Guarda, com Erasmo Carlos (o Tremendão) tornando-se um dos maiores hits dos anos 60. Muitos outros artistas também regravaram esse sucesso marcante, como os Mutantes, em 1972 e Raul Seixas, nos anos 80, quando gravou um disco em tributo ao Rock.

Por falar nisso, o programa Jovem Guarda, um programa de auditório, da TV Record, surgido em 1965, comandado por Roberto Carlos, Erasmos Carlos e Wanderléia, contribui sobremaneira para que Rua Augusta ficasse nacionalmente famosa (Aliás, o maior e mais famoso programa de música pop que o país já teve). Tem até o episódio com Erasmos Carlos que, empolgado com toda a história da Rua Augusta, comprou um fusca cor de abacate para subir e descer a rua, ainda nos velhos bons tempos. Dizem que o apelido “Tremendão”, do Erasmo foi por causa dessa música. Dizem também que parte da juventude paulista da época encarava isso como um insulto, pois paulistas e cariocas sempre tiveram suas diferenças.

Relembremos o significado e clima que a canção Rua Augusta passava para todos na Época de Ouro da juventude brasileira:
I
Entrei na Rua Augusta
A 120 por hora
Botei a turma toda
Do passeio pra fora
\Com 3 pneus carecas
Sem usar a buzina
Parei a quatro dedos
Da esquina
Falou!
Vai! Vai! Johnny
Vai! Vai! Alfredo
Quem é da nossa gangue
Não tem medo...(2x)

I I
Meu carro não tem breque
Não tem luz
Não tem buzina
Tem 3 carburadores
Todos 3 envenenados
Só pára na subida
Quando falta gasolina
Só pára se tiver
Sinal fechado
Tremendão!

III
Toquei a 130
Com destino à cidade
No Anhangabaú
Botei mais velocidade
Com 3 pneus carecas
Derrapando na raia
Subi a Galeria Prestes Maia
Tremendão!
Vai! Vai! Johnny!
Vai! Vai! Alfredo!
Quem é da nossa gangue
Não tem medo...(2x)
É bom lembrar que, apesar da música dizer a 120 por hora, eles paravam no sinal fechado, coisa que muitos jovens de hoje não fazem, demonstrando outro tipo de rebeldia que conduz à morte em muitas ruas do país.

* Professor do Centro de Biociência da UFRN (juarez@cb.ufrn.br)