Total de visualizações de página

1 de ago de 2008

UM HOMEM CHAMADO PROTÁSIO MELO



Um Homem Chamado Protásio Melo
Publicado no Jornal de Hoje, anteriormente
* Juarez Chagas

Somente hoje soube do recente falecimento de Protásio Melo (Setembro de 2006), quem eu tive a honra de conhecer de perto. E, esse evidentemente é mais que um motivo para mudar meus artigos de última hora, pois quero fazer alusão a uma das principais pessoas cultas de nosso Estado que atravessou o tempo com a mesma altivez e importância de tempos idos.

Ainda garoto, nos anos 60, auge da SCBEU na sociedade natalense, onde Protásio foi fundador e um dos seus principais professores de fonética e literatura americana, fui um de seus alunos nesses dois cursos, nos quais ele, com profundo conhecimento e habilidade, tornava o árido assunto (pra muitos um saco!) em aulas instigantes! Era, além de profundo conhecedor do Inglês, um gentleman.

Advogado de formação (cursou Direito em Recife), porém professor por opção, Protásio foi o principal elo de comunicação entre os americanos, governo norteriograndense e a sociedade natalense, no período pós-guerra, onde os americanos montaram uma base estratégica em Parnamirim, a qual passou a ser conhecida como “O Trampolim da Vitória”. Uma das últimas vezes que colocamos a conversa em dia foi em 1998 (ele ainda totalmente bem) em sua própria casa, a qual vez ou outra eu visitava e em cuja área costumávamos bater um saudoso papo, em Inglês, como ele gostava. Ele gostava de duas frases quando saia do Português pro Inglês sem avisar: “It´s a long time no seeing you...” e “I have to brush my English” (Quanto tempo sem ver você... e Tenho que desenferrujar meu Inglês).


A propósito de sua influência tanto com os americanos que “invadiram” a Natal dos anos 40 e o Governo daquela época, ele me disse, numa dessas conversas, de seu ressentimento com a direção do filme “For All – O Trampolim da Vitória” (1997), por não terem dado o devido valor e, pior ainda, distorcido, mesmo com uma trama fictícia no meio duma história real, o papel e importância do tradutor (que foi o próprio Protásio na vida real). Luiz Carlos Lacerda e Buzza Ferraz estiveram com Prontásio e o entrevistaram por um bom tempo, porém mudaram o rumo da história e da importância que o tradutor imediato teve, inclusive como conhecedor de segredos e importantes informações junto aos americanos, durante o período em que aqui estiveram. Protásio ficou bravo com o resultado. E com razão! Protásio não era apenas um tradutor, mas também ensinava Português aos oficiais sediados em Natal e tinha status de “oficial” no meio deles.

Na verdade, Natal tornou-se a principal cidade, não apenas brasileira, mas internacional, da época, em termos de base estratégica de guerra e, os 15 mil soldados americanos que aqui conviveram nessa época, mudaram radicalmente os costumes da pequena “cidade do sol” daquele tempo. Trouxeram tecnologia da época, eletrodomésticos, dólares e muito glamour, transformando a lenta e cadenciada vida tranqüila de Natal em abruptas mudanças às quais teve que se submeter do dia pra noite. O Inglês passou a ser a segunda língua de Natal e, talvez por essa razão, seja, mesmo ainda provinciana, uma das cidades brasileiras onde se fala mais e melhor o Inglês, em comparação com outras. Digo isso com conhecimento de causa, pois eu mesmo e tantos outros remanescentes dos anos 60, ensinamos o idioma por mais de duas décadas na Sociedade Cultural Brasil Estados Unidos, a qual evolui do adido cultural que os americanos estabeleceram entre as ruas Getúlio Vargas e Joaquim Manoel, tomando um quarteirão inteiro. Lá era a sede do Idioma Inglês em Natal que burilava por toda a cidade, desde o Inglês mais casto ao “Broken English” de cais de porto. Até a época do governo Nixon, emissários americanos ainda eram enviados para Natal, e um americano dirigia a SCBEU a cada dois anos. O ambiente continuava característico e a escola de Inglês ainda a melhor da cidade.

Eu passaria um bom tempo falando sobre Protásio, se necessário fosse. Mas, isso não é preciso e nem oportuno, no sentido de suas qualidades, as quais todos que o conheceram de perto e privaram de sua amizade, sabem. A imagem que tenho de Protásio, além de dezenas e dezenas de fotografias da época em que ele foi fundador, Professor e Presidente da SCBEU, é a imagem de quem correspondeu ao seu papel e função aqui entre nós. Era um bom marido e um pai apaixonado pelos filhos e filha e um excelente amigo, o que pude constatar, apesar da diferença de idade. Apenas lamento, não poder mais ouvir uma das frases que ele mais gostava de dizer quando revia os amigos: “A long time no seeing you...” Rest in peace, Protásio. (descanse em paz).

* Professor do Centro de Biociência da UFRN (Juarez@cb.ufrn.br)
Professor Melquíades e a SCBEU (II)
Publicado no Jornal de Hoje, anteriormente

* Juarez Chagas

Dentre os 54 sócios fundadores da Sociedade Cultural Brasil-Estados Unidos que constam da relação de sua Ata de fundação, em 26 de Julho de 1957, a começar com Doutor Onofre Lopes da Silva e terminar com Humberto Nezi, seguido do norte-americano W. Taylor, acha-se na 48ª posição na relação dos fundadores, “Jose Melquiades, brasileiro, solteiro, professor, residente em Natal”. Vale salientar a particularidade para a profissão de PROFESSOR, entre outras como medico, advogado, Jornalista, engenheiro...pelo menos, nessa época, professor era uma profissão respeitada e valorizada, em nosso pais.

Nessa época, ele já havia desistido do seminário, preferindo o magistério à batina, porem ainda não tinha se casado com D. Giselda Paraguassu, com quem depois teve oito filhos, sendo quatro homens e quatro mulheres. Ate nisso foi equilibrado, como gostava de dizer quando indagado sobre seus descendentes. “Ninguém tem nada a reclamar em termos de maioria ou minoria. Lá em casa, homens e mulheres são iguais, mesmo que seja na quantidade”.

Por falar em igualdade, das ilustres mulheres fundadoras da SCBEU, podemos citar Zila Mamede, D. Floripes Mesquita, Yvone Barbalho (que por sinal, nos deixou recentemente...), dentre outras. Pelas pessoas que fundaram nossa Sociedade Cultural Brasil-EEUU, podemos ter uma idéia de sua importância no meio sociocultural de Natal.

Professor Melquiades, como vimos no artigo anterior, era uma pessoa tanto carismática quanto culta e, o mais importante, a simplicidade interpunha-se entre essas duas qualidades, algo não muito fácil para muitas personalidades em qualquer profissão.

Uma outra paixão que ele carregava consigo e que, poucos sabiam, era o significado dos Reis Magos para nossa cidade. Tanto é verdade que Natal, alem de um lindo nome, é uma cidade apaixonante, tem, analogamente, tudo a ver com o dia do nascimento de Jesus, onde os três Reis Magos, teriam peregrinado para oferecer presentes ao Cristo Salvador. Professor Melquiades escreveu um livro, intitulado História de Santos Reis, publicado em 1999, narrando também sobre a Capela de Santos Reis, bairro onde escolheu para viver.

Mas, trazendo da lembrança outra interessante passagem sobre o mestre, certa vez tive que procurá-lo, às pressas, pois eu tinha assumido, temporária e circunstancialmente a Direção da SCBEU, em 1982 (durante sua fase mais difícil, diga-se de passagem. Nessa época, Dr. Onofre Lopes, mesmo adoentado, presidiu sua ultima reunião) e, precisava de sua assinatura de Vice-Presidente. Disseram-me que o encontraria facilmente no Bar do Lourival, ali perto da antiga Radio Poty, quase em frente ao Diário de Natal. Dito e feito, lá estava ele, elegantemente sentado ao redor duma mesa, com um amigo que eu não conhecia e, pelo visto, tinha acabado de chegar, pois não havia ainda bebida em sua mesa, fato que só acontecia em duas situações: ou ele estava doente, ou não havia mais bebida no bar. De repente chega o garçom, e coloca em sua mesa uma dose de Rum Montila. Apresentei-me no exato momento que o rapaz se retirava para atender outros fregueses do bar.
-Garçom, por favor...quem mandou trazer essa bebida? O rapaz volta-se, dar de ombros e disse “o senhor”.
- Não, não, não (esfregando as mãos). Você me perguntou, “Cerveja?” e eu lhe disse apenas“Unh Hum! E não um rum!” Por favor, volte e me traga a cerveja mais gelada que tiver. Só bebo Rum Montila em ultima instancia!
- Bhrama? Pergunta, desconfiado o garçom.
- Unh Hum! Responde, rindo o professor, esfregando as mãos e mostrando-me uma cadeira para que eu sentasse.

No dia 11 de Novembro de 2001, o professor Melquiades, assistia uma missa na capela de Santos Reis, a qual historiou e tanto defendeu, quando se sentiu mal e foi levado para o Papi, onde veio a falecer, mais ou menos, umas três horas depois.

Para os inúmeros alunos e alunas cujas formações tanto contribuiu, tenho duvidas se existe algum ou alguma que não sinta orgulho em dizer a frase ao contrario do que o velho MESTRE tanto falava: “Foi meu PROFESSOR!”
*Professor do Centro de Biociências da UFRN (juarez@cb.ufrn.br)

PROFESSOR MELQUÍADES E A SCBEU




Professor Melquíades e a SCBEU
Publicado no Jornal de Hoje, anteriormente



* Juarez Chagas

Falar sobre a SCBEU e não falar sobre sua relação com o Professor José Melquíades ou vice-versa, não seria uma história completa, nem para um, nem para o outro. Assim como o professor Protásio e tantas outras personalidades que fizeram da SCBEU, o diferencial em nossa sociedade cultural natalense dos anos 50,60 e 70, o professor Melquiades foi também um de seus principais mentores e um dos responsáveis pelo ensino, não somente do Inglês, mas também da literatura norte-americana, em nosso meio.

Tive a grande satisfação de, ainda adolescente, ter sido aluno do professor Melquiades que, diga-se de passagem, não foi e nem poderia ter sido mérito somente de poucos, pois o carismático mestre, não conseguia ter a dimensão de quantos passaram por suas lições, fosse na Língua Inglesa, fosse na Literatura ou em ambas, conjuntamente. Sobre essa particularidade, ele já havia inclusive incorporado em sua natural verbalização, a seguinte frase, quando se referia a alguém conhecido, dizendo de pronto: “Foi meu aluno!”

Dono de um humor clássico e cortante, encarava a vida com alegria, obstinação e por vezes ironia, quando esta se apresentava adversa. Fisicamente, era uma mistura de brevilínio com traços de longilínio (baixo e magro) e, particularmente, ria quando eu dizia-lhe que parecia com o ator norte-americano, Gilbert Roland, principalmente o bigode... “Que por sinal, conheci pessoalmente”. Emendava, esfregando as mãos.

Foi um homem das letras, da literatura e da advocacia, tendo sido promotor publico em Natal. Após o curso de Direito, licenciou-se, em 1966, em Letras pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, deixando a advocacia para dedicar-se ao magistério. Depois disso, passou a lecionar em vários colégios e universidade, muitas vezes, ao mesmo tempo. Ginásio 7 de Setembro, ETFERN (atual CEFET), SCBEU e UFRN. Seu legado educacional é imenso e rico. Escrever era uma de suas grandes versatilidades e paixão. Colaborou praticamente em todos os jornais de Natal, com seus artigos e crônicas e publicou, após estagio nos Estados Unidos, seu primeiro livro, em 1961, Os Estados Unidos a Mulher e o Cachorro, prefaciado simplesmente por Luis da Câmara Cascudo, seu amigo.

Olhando em meus arquivos, descobri uma antiga relação de alunos, referente ao 4º Ano “A”, turma de Inglês e Literatura, curso ministrado pelo professor Melquiades, no segundo semestre de 1969. A referida lista, com as notas da avaliação final do curso e, especialmente assinada por todos (a pedido meu na época), consta dos seguintes alunos, nessa ordem: Herbet Dore, Armanda Maria de M. Bezerra, Leila Aguiar de Figueiredo, Maria de Fátima Moreira César, Regina Maria L. Villar de Mello, Giselia Maria do Nascimento, Jose Arimateia Soares, Antonio Guedes Câmara, Francisca de A. Torres de Oliveira, Walter Dore Jr, Evaldite de Sousa Brito, Iaponira Rocha Fernandes, Zivanilson Teixeira e Silva, Carlos Alberto N. da Silva, Carlos Sizenando Rossiter Pinheiro, Herbert Borges, Juarez Chagas, Nivaldo Sena de Oliveira, Célia Maria F. de Medeiros. Esta foi uma de suas ultimas turmas, como professor Integral de Inglês avançado, após o qual passou a ocupar o cargo de Vice-Presidente da SCBEU e a proferir palestras, participando apenas em cursos especiais para a formação de Professores de Inglês.

Para citar apenas uma das veias de seu humor que lhe fluía naturalmente, lembro que no final dos anos 70, Roberto Carvalho de Oliveira Freitas, um dos novos professores da SCBEU, a quem costumávamos chamar de “Bob”, inventou de organizar uma excursão para a Ilha de Itamaracá, em Pernambuco. Marta, filha do Professor Melquiades queria ir, mas não queria pedir ao pai, por imaginar que ele não concordaria. Roberto, então resolve pedir ao mestre que liberasse sua filha para tornar a excursão mais agradável e estimular outras moças que estavam ainda indecisas. Estava o professor Melquiades, com Protasio e o Diretor da SCBEU, no snacbar, bebendo cerveja, hobby que ele adorava. Chega Roberto, todo cuidadoso e diz:
- Professor Melquíades, posso lhe dar uma palavrinha? Um pouco nervoso...
- Ah, sim! Pois não, meu jovem, Aliás, você já esta fazendo isso! Respondeu, esfregando as mãos como se estivesse com frio (ele tinha essa mania). Roberto então formulou o pedido, o mais rápido que pode e ficou na expectativa.
- Pick Nick??? Não! Não! Não, meu jovem. Me peça outra coisa qualquer, pick nick não. Roberto, triste com a resposta, mais rápida ainda e não entendendo a veemência da negativa, quis saber o porque. Professor Melquiades contou-lhe prontamente.
- Meu rapaz, quando eu era jovem assim como você, fui a um desses pick nick e....lá pras tantas, um rapaz e uma moça entraram no mato e... até hoje! Pick Nick meu jovem, literalmente significa “pegar coisa pequena” e minha filha é baixinha, magrinha... agree with me (concorda comigo)? Com o repente do professor, Roberto não sabia se ria ou lamentava...

Todos nos sabíamos que o motivo não era esse. Professor Melquiades não gostava de viagens longas de ônibus. Por falar em viagem longa, ele viajou para sempre para longe de nosso convívio, em 11 de Novembro de 2001...

* Professor do Centro de Biociências da UFRN(Juarez@cb.ufrn.br)

SCBEU...ÔH TEMPO BOM!...



SCBEU (Ôh Tempo Bom...)
Publicado no Jornal de Hoje, anteriormente

* Juarez Chagas

É completamente impossível falarmos dos anos 60 e 70, quando nos referimos à sociedade natalense da época, sem falarmos da Sociedade cultural Brasil Estados Unidos ou simplesmente SCBEU, como era mais conhecida. Na verdade, não há como falar da Natal daquela época, omitindo a SCBEU, a mais tradicional, dinâmica e social Escola de Inglês que a cidade dos Reis Magos já teve em todos os tempos e que, como nenhuma outra, cumpriu seu papel ensinando o bom Inglês americano e difundido a cultura norte-americana em nossa capital, assim como divulgando também, o Brasil para os EEUU, por aproximadamente trinta anos.

Eu sempre disse a mim mesmo que, se escrevesse um dia sobre a SCBEU, só falaria das coisas boas referentes à mesma, mesmo sabendo que esta teve um fim que não mereceu. Mas, pra fazer jus mais ainda a sua grande importância e relevante papel que teve em Natal e sua sociedade, relembremos apenas o que ficou de bom e positivo.

A SCBEU foi fundada em 25 de Abril de 1957 (em reunião na então Faculdade de Direito de Natal) e saiu de cena (vamos assim dizer), em 14 de Junho de 1984. Portanto, este ano completaria meio século se ainda estivesse funcionando. Pra começar, a SCBEU inicialmente foi originada da idéia (além de Escola binacional) de atuar também como uma espécie de adido cultural, aqui em Natal, após a Segunda Guerra Mundial, por ter sido a “Cidade do Sol”, base estratégica norte-americana de guerra. Por isso, Natal consta no Mapa Mundi, como o Trampolim da Vitória e, por terem os americanos convivido com a cidade durante essa época, Natal, mesmo sendo provinciana em comparação com outras capitais, é a cidade onde mais se fala Inglês, comparativamente. Melhor ainda, viveu uma situação real, pois os americanos que vieram pra cá e não os natalenses que fizerem “intercâmbio”. No final, foi uma situação que acabou sendo positiva para ambos.

A sociedade Cultural Brasil Estados Unidos foi (e continuará sendo em nossa memória) a mais famosa e mais importante Binational English Center que Natal já teve. Seus sócios fundadores foram em número de 54 (tenho uma cópia da ata de fundação, a qual tive o cuidado de guardar quando fui diretor desta entidade durante um ano), tendo sido fundada pelas mais ilustres autoridades e pessoas de destaque social da época. O Dr. Onofre Lopes foi o primeiro da lista e, Humberto Nesi o penúltimo. Dentre outros importantes fundadores iremos encontrar em sua ata de fundação, Dr. Edgar Barbosa, Dr. Paulo Pinheiro de Viveiros, Dr. Tarcisio Maia, Cônego (na época) Nivaldo Monte, Dr. João da Costa Machado, Dr. Otto de Brito Guerra, Dr. Alvamar Furtado, Dr. Otto Júlio Marinho (com quem tive o privilégio de trabalhar durante cinco anos na neuroanatomia e anatomia comparativa, na UFRN), Dr. José guará, Sra. Yvone Barbalho, Zila Mamede, Dr. Protásio Melo, Prof. José Melquíades, Dr. Arnaldo Arsênio de Azevedo, Dr. José Américo de Paiva e outros que, mesmo sem terem sido citados, tiveram a mesma importância.

A sede da SCBEU, ficou sendo onde funcionava o Consulado Americano, construído por ocasião da instalação da base de guerra, em Natal e, ainda de propriedade do Departamento de Estado dos Estados Unidos e após esse período, cedido pelo governo americano para que funcionasse a escola de Inglês que, na realidade, continuava mantendo sua função de intercâmbio com os Estados Unidos. A imensa casa fora construída toda com material específico e vindo dos EEUU, de navio. Ficava no grande quarteirão que ia da Rua Manoel Joaquim à Av. Getúlio Vargas, portanto seu endereço, às vezes, era dúbio.

Foi na reunião de sua 3ª assembléia geral (1/6/1957, no anfiteatro da Materndade Januário Cicco), presidida por Dr. Onofre Lopes que comunicou a todos ter recebido do Consulado Americano do Recife, as chaves do prédio destinado à sociedade. Algumas exigências foram feitas pelo governo americano em relação à doação do prédio para o funcionamento da SCBEU, como por exemplo, a escola seria presidida por um brasileiro, porém dirigida por um americano, que seria enviado, especialmente para esse fim, a cada dois anos, o que realmente ocorreu até 1970, tendo sido Mr. Douglas S. Rose (que também foi meu professor), seu último diretor americano, com residência em Natal.

Na verdade, a SCBEU funcionava como se fosse um pedaço dos Estados Unidos no centro de Natal, pois o ambiente era característico e o ensino muito rígido, embora da melhor qualidade, onde um curso normal durava cinco anos, quase igual a muitos curos universitários. Tivemos os melhores professores da época. Os melhores alunos e amigos também. Era um ambiente saudável de amizade e lazer. A escola mantinha convênios locais, nacionais e internacionais e, normalmente, recebia a visita de atores, cantores em geral. Robert Fitzgerald Kennedy foi uma das autoridades mais conhecidas, internacionalmente, que lá esteve, por ocasião de sua visita a Natal e inauguração da Praça John F. Kennedy (praça das cocadas), ao lado do cinema Nordeste.

Realmente, a Sociedade Cultural Brasil-Estados Unidos era motivo de orgulho pra quem dirigia, ensinava e aprendia, inclusive muitos casais la se conheceram e foram felizes para sempre. É como diz o título do artigo: ôh tempo bom (those were the days...)

* Professor do Centro de Biociências da UFRN (Juarez@cb.ufrn.br)

NOS TEMPOS DA SCBEU



Nos Tempos da SCBEU
Publicado no Jornal de Hoje, anteriormente


* Juarez Chagas

A SCBEU teve sua fase áurea em Natal, por duas décadas. Exatamente de l957 a l977. Nenhuma outra escola ameaçava tomar seu posto de melhor escola de Inglês de nossa querida “Cidade do Sol”. A bem da verdade e do mérito, nenhuma outra escola de Inglês a superou em qualquer que fosse o aspecto. Foi excelente no ensino, nos excelentes professores que tinha, nos alunos e alunas brilhantes, no magnífico ambiente (tanto físico quanto das relações humanas) e na sua importância social para a cidade. Muitos casais ali se conheceram, namoraram e alguns até casaram. Muitas amizades e conhecimentos, ali foram vivenciadas. Era um orgulho se estudar na SCBEU. Muitos ex-aluno(a)s tornaram-se professore(a)s de Inglês, alguns outros ganharam mundo afora, foram viver em outros paises... Pra se ter uma idéia da dimensão da escola, já no final de sua fase áurea, só professores, tinha mais de cinqüenta (eu mesmo ainda guardo uma cópia oficial da escola).

No início dos anos 70, outras escolas de Inglês começaram também a conquistar seu espaço em Natal, tais quais Yágizy, Fisk e CCAA, dentre outras. Porém, essas escolas, mesmo dispostas a uma concorrência leal e justa, não ameaçavam, de modo algum, a supremacia da SCBEU, a qual era The Best One, e ponto final.

Acontece que, nessa época o Yágizy, contratou Erivanaldo Galvão (esse mesmo: irmão de Babal, João...) para ensinar os estágios mais avançados de Inglês e, o “Mago”, como nós o chamávamos, continuava freqüentando a SCBEU, não apenas porque não desejava cortar o vínculo, mas principalmente para ostentar sua nova posição, o quê, diga-se de passagem, era bem merecida. Isso foi no ano de 1972...

Eri, pra quem não o conhecia ou conheceu, era um cara muito dinâmico, carismático e, por vezes, gozador. Quando dizia algo engraçado que ninguém ria, ele mesmo gargalhava para que todos ouvissem que realmente era engraçado. Tinha um humor cortante, porém amistoso, se é que essa fórmula existe. Conseguia aglomerar grupos de jovens ao seu redor, principalmente nas rodas de violão, o qual tocava como poucos todos os sucessos dos Beatles (ele ainda hoje é musico no Rio, por sinal, também júri das escolas de samba do carnaval carioca). Pois bem, Eri mesmo sendo um top teacher do Yázigi, vivia na SCBEU e, como tinha sido aluno de lá também, vez ou outra, fazia algumas críticas construtivas, quando achava por bem.Também foi em1972, o primeiro ano que a SCBEU passou a ter um diretor de cursos brasileiro, pois em todos os anos anteriores, a partir de sua fundação em 1957, todos os seus diretores eram americanos, enviados diretamente dos Estados Unidos, para essa missão. Bem...Lúcio foi seu primeiro diretor brasileiro (após uma comissão, em transição tê-la dirigido, a qual foi composta pelos professores Paulo Fernandes, Vilma Sampaio, Lucia Martorelli Luz e Luis de França) e uma de suas primeiras preocupações, segundo ele, era renovar a imagem da SCBEU, inclusive começando por pintar todo o prédio (que tomava praticamente todo o quarteirão que ia da Joaquim Manoel
à Av. Getúlio Vargas, de onde podíamos ver, da praia de areia preta ao Forte dos Reis Magos). Assim, sendo mandou seu secretário contratar um pintor de paredes para a devida pintura, inclusive do nome SOCIEDADE CULTURAL BRASIL-ESTADOS UNIDOS, que ficava no muro da Av. Getúlio Vargas e estava praticamente apagado, velho e desbotado.

O secretário momentâneo era Emilson Martins que prontamente disse conhecer um excelente pintor e, de imediato, sai à sua procura. Isso era uma Sexta-Feira e no Sábado, o pintor já estava pintando o prédio. Realmente, era um bom pintor. Mas, como não existe um bom sem defeito, o rapaz tinha dois (embora passíveis de correções, caso quisesse) que eram sua marca: não sabia ler e era o maior pau d´ água, assumido. O fato é que o pintor pintou, durante o Sábado todo e parte da manhã do Domingo e, resolvendo parar pra retomar na Segunda, foi embora sem dar a mínima satisfação a ninguém. Como era de se esperar, na Segunda não apareceu, devido à ressaca. Quando Lúcio chega, lá pelas 8hs da manhã, quase tem um infarto ao ver o que o pintou pintara. Saiu às pressas procurando o secretário (que displicentemente não tinha visto a obra do pintor beberrão) para trazer o pintor de volta, o mais rápido possível e no momento, providenciar um lençol ou cortina para cobrir a “arte” que fizera. Lá se foram os dois olhar o serviço. O rapaz havia pintado apenas parte do nome da escola e, resolvera ir embora pra continuar depois. O problema é que ele pintou: SOCIEDADE CU... e, aí parou. Evidentemente que, como não sabia ler, para ele pouco importava o que havia pintado ou não. Lúcio foi enfático com o secretário:
- Doutor, já pensou se Erivanaldo Galvão aparece aqui com uma máquina fotográfica...a SCBEU ia ficar difamada pelo resto da vida!

Na verdade, nada conseguiria difamar a SOCIEDADE CULTURAL BRASIL-ESTADOS UNIDOS. Nem mesmo o que conseguiram fazer com ela...

* Professor do Centro de Biociências da UFRN (juarez@cb.ufrn.br)