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25 de jan de 2012

O ÚLTIMO NATURALISTA DA UFRN



O Último Naturalista da UFRN

*Juarez Chagas

Edgar Morin, o grande filósofo e cientista humanista da atualidade (ainda vivo, para nosso congraçamento) diz em seu livro O Homem e a Morte (Publicação Europa-América, 2ª ed., 1970), que o indivíduo é quem morre, porém não a espécie. Baseado nesse princípio, que é uma verdade, em termos filogenéticos, o homem busca alento e consolação para a perda dos entes queridos, amigos e familiares.

A morte, por sua vez, acha-se, terminante e inexoravelmente, inserida na roda da vida e leva a todos, independentemente de motivo e tempo, pois a consciência do ser (a propósito, o seu maior conflito existencial) é saber e ter ciência e consciência de que nasce, vive e morre, durante sua trajetória na humanidade, cujos descendentes, através do processo de reprodução, mantêm vivos a família, num processo cíclico ao longo do tempo, até esta tornar-se tão fragmentada e aglomerada ao mesmo tempo, à prole inicial. É uma questão a ser pensada e refletida, quando falamos em descendência e ascendência do ser, nao apenas em sua genealogia, mas também no cerne familiar da espécie.

Lamento escrever este artigo para dizer que, somente este mês, perdi duas pessoas inestimáveis (Homem Mau e Adalberto), cuja existência, nos mostra que realmente a vida é uma Dádiva de Deus e que vale a pena viver, ainda mais quando sabemos existir pessoas como estas que simplesmente não passam pela vida, mas a marcam e, sobretudo, nos mostram que devemos justificar nossa presença e vida, neste Planeta, antes de partirmos para outra dimensão.

Infelizmente, nesse último final de semana faleceu nosso colega e amigo, professor Adalberto Antônio Varela Freire. Eu não ia escrever nenhum artigo para fazer alusão à sua passagem para outra dimensão, no sentido apenas de enaltecimento, para não parecer que seria apenas por causa de sua morte. Continuo defendendo que as pessoas devem ser reconhecidas e homenageadas em vida e, se possível em público (quando um político manda um projeto para a Câmara não sai em tudo que é mídia? E quando inauguram uma obra, por mais singela que seja, não alardeiam os quatro cantos, em busca de notoriedade e reconhecimento?). Entretanto, vi algumas manifestações (todas elogiosas) sobre o mesmo que, resolvi fazer algumas observações pertinentes.

Adalberto Varela foi, não apenas em minha opinião, o maior, melhor e mais abnegado PROFESSOR do Centro de Biociências da UFRN, onde era professor das Cadeiras de Zoologia e Entomologia, nos seus primórdios. Era médico de formação e, Biólogo de coração, pois nunca exerceu a Medicina, tendo se dedicado de corpo e alma à Biologia. Dizia muitas vezes ser Zoólogo, pela Universidade de São Carlos, onde estudou pós-graduação. Achava muita graça quando eu, brincando, dizia que “de médico você só tem a letra”, pois escrevia horrivelmente inelegível, letras imensas que mais parecia macarrão derramando, aleatoriamente, numa grande travessa. Entretanto...a genialidade de sua escrita, estava no significado e no contexto e não na forma. Valia a pena ler qualquer coisa que ele escrevesse...desde que se conseguir entender a letra!

Tive a felicidade de conviver de perto com ele e, dividirmos algumas tarefas e projetos em comum ao longo de trinta anos em comum, no Centro de Biociências, da UFRN. Somos do mesmo concurso público para professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em 1978, quando foram aprovados 324 professores Colaboradores, onde ele foi o 1º lugar para a Disciplina de Parasitologia e eu para a Anatomia Comparativa. Com a transferência do Centro de Biociências para o Campus Universitário em 1981, após cinco anos de atividades extra-oficiais com estagiários voluntários, nos Departamentos do CB, criamos juntos, após muitas discussões ferrenhas de opositores (que infelizmente não foram poucos) a efetivação do Estágio Voluntário para que, já naquela época, alunos e alunas pudessem compartilhar de projetos e atividades acadêmicas específicas. Assim, vimos efetivada a aceitação do ESTÁGIO VOLUNTÁRIO (Portaria Nº 005-CB, de 04 de Junho de 1987). Hoje uma coisa natural na universidade, inclusive com estagiários e bolsistas devidamente remunerados através de projetos institucionalizados. Em seguida, ele, inteligentemente organizou e criou a SEMANA POTIGUAR DE DEBATES BIOLÓGICOS, com o apoio de seu próprio Laboratório de Entomologia da UFRN e Associação Norteriograndense de Biologia, evento este que durou muitos anos.

Falar sobre Adalberto é fácil para mim. Somos amigos verdadeiros. Isso para mim bastava e basta. Entretanto, o que me levou a escrever este artigo foi para (sem querer apontar egoísmo ou mesquinharia, sentimentos que envergonham), mas dizer que em vida, muitos que hoje o elogiam post-mortem, o repudiavam e, votavam contras seus mais importantes projetos nas plenárias dos Departamentos. Projetos estes, na maioria das vezes, simples e geniais, em prol da Universidade e Estado. Com o tempo, isso fez com que nós o perdêssemos para o Ceres- Caicó, dado a decepção que ele amargava por não entender o quanto o ser humano é, por vezes, mesquinho e hipócrita. Então, pediu transferência para o Ceres que, por sua vez, o acolheu muito bem e foi quem lucrou os últimos anos de pesquisas e estudos de sua vida. Ele amava a Natureza e setia-se isolado e realizado no Seridó.

Adalberto deixou um legado sem preço para a universidade. Alguns milhares de estudantes que passaram por sua orientação, hoje se sentem lisonjeados por terem recebido dele orientação e conselhos acadêmicos. Deixou inestimáveis coleções de insetos e centenas de vertebrados que hoje, constituem preciosas coleções sobre a fauna de nosso Estado. Dentre os inúmeros artigos, trabalhos, e estudos laboratoriais deixou também o livro Fauna Potiguar (Edufrn, 1997), hoje uma raridade bibliográfica para a UFRN.

Simples, tímido, introspectivo, se comportava como uma ave de rapina quieta em seu lugar, mas que quando investia em suas ações era difícil alcançá-lo ou impedí-lo de seus intentos. Quando ria de algo, realmente ria e suas gargalhadas tomavam todo o CB e se esvaíam carregadas pelo vento, enquanto se recompunha para continuar rindo. Podia ler academicamente cinco idiomas, mas gostava mais do Inglês e, nos meados dos anos 80, juntou-se ao um grupo de professores, ao qual eu dava aula de Inglês, duas vezes por semana. Eram encontros mais de lazer, do que propriamente obrigatório. Ele ria mais ainda quando a aula era sobre “nomes feios”.

Foi quando viajamos para Serra Negra do Norte, no final dos anos 80, para realizar estudos da fauna da reserva ecológica de lá, da qual ele era um dos coordenadores, que demonstrou um de seus projetos mais ousados. Montou um abrangente projeto de estudos, do qual participei e lá ficamos uma semana, realizando estudos e comportamento animal das cinco classes de vertebrados. Isso ele já fazia corriqueiramente, pois fez dessa reserva, sua segunda casa, para onde ia constantemente. Seu conhecimento sobre a fauna e flora era simplesmente maravilhoso e impressionante. Não deixava nada a desejar a nenhum naturalista de qualquer lugar do mundo. Tornava-se temeroso para qualquer cientista, contrapô-lo em questous taxonômicas, pois nao apenas conhecia a fundo a taxonomia, como era capaz de descrever espécimes do Reino à Espécie, como quem dizia as letras do Alfabeto. Infelizmente, seu jeito simples e sua timidez, talvez tenham sido empecilho para não tê-lo tornado um dos pesquisadores e naturalistas mais famoso do mundo. Eu, na verdade, conheci duas pessoas que nunca quiseram comprar ou digirir automóvel: Protásio Melo e Adalberto Varela. Dizia que nao iria dominar uma máquina para ser, em seguida, escravo dela. Por isso era muito comum vê-lo andando a pé para o trabalho, mas nao lhe faltava carona ou alguem que quisesse privar de momentos com ele, mesmo que fosse durante uma carona bem aceita.

Ele tinha uma bicama em seu laboratório entomológico e, na maioria das vezes, dormia lá mesmo quando a madrugada não lhe oferecia mais segurança para ir para casa, após cansativos estudos e trabalho. Acordava cedo no seguinte e já estava no laboratório. Seus vencimentos eram todos gastos com livros, viagens, manuteção do laboratório e aparatus para a própria Universidade e sequer se incomodava com isso, pois muitas vezes dizia que nao valia a pena ser dependente da burocracia que, por vezes, levava até anos para liberar orçamento para pesquisas e outras necessidades básicas para seus estudos.

Tem uma passagem interessante que vale a pena contar, para amenizar um pouco a tristeza de sua perda. Num belo dia ensolarado, cedinho da manhã, encontro Adalberto todo “aparamentado” iniciando uma escalada nas dunas do Campus. Ia colher material para seus estudos. Conversamos um pouco (eu corria o anel viário do Campus pra manter a forma física). Nesse dia estava havendo um dos treinamentos de tiro e “captura de inimigo” nas dunas do Batalhão de Engenharia. Quando já no alto das dunas, em um dado momento, sob fogo cerrado e totalmente apavorado, Adalberto consegue subir em uma árvore e usa a camisa branca para acenar paz e socorro. Os soldados o prenderam, levaram-no para o Batalhão e, somente depois de algumas horas e um telefonema do Comandante para o Diretor do Centro (se não me engano era o Professor Aldo Barbosa, na época), para certificar-se que realmente era um professor universitário, realizando seus estudos, é que um carro do exército foi deixa-lo no Biociências a são e salvo. Não sabiam os soldados que o conduziram que, ali estava diante deles, apesar de não parecer, por estar revestido pela simplicidade, a maior autoridade sobre os habitantes das dunas onde eles simplesmente sabiam apenas treinar tiros e vigiare o patrimônio ecológico.

Algumas más línguas comentavam porque ele nunca era visto com nenhuma mulher, sugerindo homossexualismo de sua parte. Isso era outro absurdo que conjecturavam e assunto de quem nao tinha o que fazer, pois isso sequer passava por sua cabeça. O que acontecia era que a timidez tomava conta de si, além de outro agravante que era (dito por ele mesmo aos poucos amigos íntimos) ter uma paixão platônica por uma professora universitária e que somente a ela amaria. Mas, platonismo era uma coisa bem típica sua, assim como também acreditar em extraterrestres e ufologia, o que deve ser encarado como virtude e nao defeito. Infelizmente, a professora se casou com outro e ele teria se resignado a não amar mais ninguém, senão a ela. Isso piorou muito seu estado solitário e de recolhimento em si mesmo, mas por outro lado, desfaz as dúvidas maldosas que alguém possa ter sobre isso.

Guardo grande sentimento de saudade misturado com remorso ou algo parecido, por não ter falado com ele em seus últimos dias de vida. Soube que ele perguntou por mim em seu leito de morte, quando hospitalizado. Infelizmente, faleceu antes que o visitasse. Apesar de estudar academicamente sobre Tanatologia e terminalidade humana, evito ver os amigos e parentes que se vão, pois quero guardar deles, apenas suas lembranças em vida, como conversando ou sorrindo, ou simplesmente como eram no seu cotidiano. E foi assim com Adalberto. Não fui ao funeral e nem ao sepultamento, mas prestei, comigo mesmo, homenagem e desejei que descanse em paz, pois ele bem merece mais que isso.

Aproveito também este espaço para, com conhecimento de causa, fazer outra observação pertinente, embora pareça uma pouco rebelde, porém necessária por ser verdadeira. Nossa Universidade Federal precisa cuidar mais da imagem de seus professores que já se foram, mas que deram grande contribuição para esta nobre Instituição, assim como também reconhecer melhor seus docentes aposentados. Não se vive de lembranças e eu concordo. Mas, também não há presente ou futuro sem passado. E quando o passado é digno e valoroso, deve sim, ser aludido de alguma forma. E isso precisa ser reverenciado. Espero, portanto, que Adalberto seja reconhecido como tal e que suas lições e seu legado não sejam esquecidos após as missas de 7º e 30º dias, pois todos os dias de sua vida, ele dedicou incansavelmente a esta mesma Universidade.

Hoje, tenho certeza de que ele acena sua bandeira branca onde estiver, não como um pedido de socorro, pois lá é que está a salvo, mas como o último naturalista da UFRN, pedindo paz para a mediocridade e combate à inveja, que é o pior sentimento do ser humano.

*Professor do Centro de Biociências da UFRN(Juarez@cb.ufrn.br)

11 de jan de 2012

Adeus, HOMEM MAU !


Adeus, HOMEM MAU !
*Juarez Chagas


Dizem que quando morre um herói, uma lenda é criada. Eu acredito nisso, pois todos nós temos nossos heróis que, independentemente de suas vontades, deixaram ou vao deixar suas lendas entre nós que, por sua vez, são repetidas e passadas de geração a geração através do tempo. São, inevitavelmente, muitas vezes modificadas, aumentadas, enfatizadas... por isso são lendas. Estes heróis são nossos pais, nossos amigos ou pessoas estranhas ao nosso convívio, mas que defendem, representam e nos mostram que sonhos existem e se realizam.

Dizem também que, quando morre alguém famoso, até os anônimos reverenciam sua partida para enaltecer sua fama. O contrário seria um absurdo, no contexto sociocultural da humanidade, pois desconhecido quando morre, ninguém toma conhecimento, muitas vezes nem seus próprios familiares

Nesse final de semana passado, mais precisamente no Dia de Santos Reis, faleceu um ícone dos Anos Dourados de Natal. É claro que faleceram outras pessoas também que, como seres humanos, tiveram todos sua pessoal importância. Mas esse ao qual me refiro, teve tanto sua pessoal importancia como também e, talvez mais ainda, importância, para muitos, no contexto social da Natal dos Anos Dourados, ou dos anos 60 e 70, por ter significado para toda aquela jovem geração, uma de suas próprias representações na irreverência, alegria, juventude e contestação através de seu humor.

Estou falando de Carlos Joaquim Vitoriano da Silva, cujo nome foi totalmente ofuscado e substituído por Homem Mau, apelido este dos mais felizes e autênticos já alcunhado em alguém que, lhe foi dado (dito e confirmado pelo mesmo) por Arnon Sávio, que era seu vizinho, na Monsenhor Pegado com a Jaguaray, com quem foi também parceiro de muitas de suas aventuras.

Eu costumo dizer (sem desmerecer outros humoristas que Natal já teve) que, sem precisar a exata cronologia, Natal conheceu três grandes repentistas naturais do humor: Zé Areia, Espanta Jesus e Homem Mau, sendo que um deles fez do humor sua profissão de vida. Os outros dois, destilavam seu fino humor, sátiras e “pegadinhas” apenas em seus meios boêmios e entre amigos. E...coitados dos amigos!

HM viveu e “aprontou” no bairro Jaguarary dos 16 aos 26 anos de idade, tendo sido, portanto, durante a década dos anos dourados, seu mais irreverente playboy e bom vivant, recluindo-se depois em Mirassol, praticamente no anonimato, como um pistoleiro que pendura e aposenta suas armas, mas que é procurado por muitos para constatar e relembrar sua fama. Mas, ele preferia rir do passado do que sacar novamente as armas e atirar balas de humor.

Anos mais tarde, longe de seu reinado do passado, tornou-se um pacato cidadão, aposentado de suas aventuras, casado e pai de três filhas e, recente avô, micro-empresário no ramo da construção civil e, como toda boa majestade, viveu sobre e não sob a fama e o deleite de um dos humores mais finos e espontâneos que Natal já teve e, justamente nos Anos Dourados. Sobre nao ter tido nenhum filho e somente as três filhas, às vezes ele zombava dizendo: “enquanto, com o passar da idade o homem mal (notem a indução ao termo “homem mal”, cacofonicamente proposital) suporta uma mulher, eu tenho logo quatro!” e ria, recuando a cabeça para trás, um hábito natural.

Não é porque Homem Mau nos deixou que escrevo este artigo em sua homenagem. Sou daqueles que defende homenagens aos vivos e aos mortos reverência, lembrança e respeito. A propósito, desde 2007 e 2008 que publico artigos, neste Jornal, sobre HM, por achar que seu legado e sua importancia nao deveriam ser esquecidos. Assim como também dediquei ao mesmo (quando ainda em vida) um capítulo inteiro no livro Nos Bons Tempos da SCBEU-Viagem nas Memórias dos Anos Dourados de Natal (lançado em 2011) onde se acha registrada sua trajetória e importancia na Natal dos anos 60.

Nas coroas de flores deitadas em sua tumba no cemitério, notava-se uma grande diferença nominal, onde havia reverência às duas pessoas numa só: um anônimo Carlos, cujo letreiro aparecia tímido e outra enorme simbolizando a lenda, totalmente em destaque, escrito HOMEM MAU ! Talvez, esta tenha sido, indiretamente, sua última sátira em cima do próprio nome de registro e de si mesmo. Imagino como ele nao deve tá se divertindo lá em cima, rindo de todos que ainda vivem na terra, por terem que aturar sua ausência. Adeus, Homem Mau!
*Professor do Centro de Biociência da UFRN (Juarez@cb.ufrn.br)