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27 de out de 2008

A CONQUISTA DA DOR


A Conquista da Dor (I)
* Juarez Chagas

Antes da assustadora morte, a dor foi a primeira coisa de que o ser humano quis se livrar. E são muitas as dores. De vários tipos e diversas causas e sintomatologias, portanto é evidente que o homem teria, no mínimo que tentar, aplacar esse incômodo dilacerante que sempre o deixou sensível, perturbado e por vezes, quando em condições insanas e, em algumas vezes extremista, se dispõe a comprometer a própria vida, para se livrar da dor. Assim sendo, ao longo do tempo, resolveu dizimá-la ou pelo menos tentar.

Porém...com o passar do tempo, viu que era impossível acabar com a dor, principalmente a dor psíquica, mental, subjetiva e, acima de tudo, não a dor da carne, mas a mais profunda das dores, a dor da alma.

Olhando o lado animal do homem, podemos arriscar classificá-lo como sendo o mais medroso dos animais, no que diz respeito à dor. Deve ser porque ele não só “sociabilizou” a dor, mas a “registrou” cortical e conscientemente, a ponto de ter “arquivos” da mesma, do qual lança mão quando é atingido ou agredido, respondendo neuro-fisiologicamente. Coitadinho do ser humano...às dores sempre se curvou covardemente, com raríssimas exceções que, honrosamente, merecem registros.

Mas, por que sentimos dor? De onde ela vem e até onde é capaz de nos torturar? Teríamos controle sobre ela ou sempre seríamos reféns de algo cuja origem se perderia na intimidade de nosso soma e mistérios de nossa psique? Então o homem inventou a ciência e esta, na sua amplitude, procurou responder cientificamente, claro.

Com o avanço da neurologia e neurociências de um modo geral, hoje sabemos que a dor (pelo menos a somática) é uma resposta sensorial de um dos mais importantes órgãos dos sentidos do corpo humano: o tato. É ele o responsável pela vida de relação do indivíduo com o meio. Seu conceito, enquanto modalidade sensorial da distribuição da sensibilidade dolorosa da pele, vai, além disso, e relaciona-se com a sensibilidade exteroceptiva e suas derivações.

Uma vez durante uma aula de neuroanatomia, onde discutíamos sobre o assunto, um aluno me perguntou se somos capazes de controlar a dor. Evidentemente, que não soube lhe responder nada além do que se a dor se manifesta orgânica e emocionalmente através dum circuito neurofisiológico, uma vez consciente desse circuito e suas estações de estímulos e respostas, pode ser possível sim, para algumas pessoas controlarem a dor, ou pelo menos minimizar seu limiar de ação. Muitos orientais são bons nisso com seu conhecimento, controle e sua medicina milenar. Esse fato tem, inclusive quebrando antigos conceitos neurofisiológicos da literatura e bibliografia ocidental.

Por outro lado, a propósito da conquista da dor, o homem conseguiu, tecnicamente, avanços importantíssimos. Se fôssemos historiar a cronologia da dor, logo lembraríamos que, nos primórdios da Anatomia (Vesalius) e temida cirurgia (Paré) era comum se dar um porre de aguardente no indivíduo, fazer um torniquete e “cortar o mal pela raiz”, literalmente! Pois era assim que se fazia na maioria das vezes. Quando o sujeito acordava (do porre e desmaio causado pela dor), sempre lhe faltava algum órgão. Às vezes o paciente sobrevivia.

Mas, avancemos para final do Século XVII, quando Joseph Priestley (1733-1804) conseguiu o grande feito que foi inventar o óxido nitroso ou “gás hilariante”. Por isso ele é conhecido como o Pai da Química Moderna. Entra nessa história e nesse momento um estudante fracassado de medicina Gardner Quincy Colton que fazia, a pedido, exibição do tal gás. Acontece que Sir Humphrey Davy (criador dos elementos químicos K, Na, Ba, Mg e Cl...) gostava de inalar o óxido nitroso para curar suas dores de cabeça e sentir “outras sensações”. De repente, ele achou que o gás hilariante podia ser útil em operações cirúrgicas, mas não quis investir na idéia.

Voltando a Quincy Colton, este resolve fazer importantes apresentações sobre o gás hilariante, onde perante multidões curiosas, fazia qualquer pessoa rir, cantar, dançar, brigar e até “perder a vergonha”...(por causa disso tudo, daí o adjetivo hilário). No meio dessa multidão, estava Sam Cooley, um então empregado de farmácia que, sob o efeito do gás corria como louco entre os bancos da platéia, somente notando depois ter machucado suas canelas e joelhos. Foi então que Cooley acabava de anunciar o Fiat Lux da anestesia. Por sua vez, no meio da multidão, também estava Horace Wells, um dentista em busca de novidades, que soltou a frase: “nesse caso, o homem pode extrair um dente sem sentir dor, com o gás hilariante?!” Wells (que depois ficou viciando em clorofórmio e outros gases inalantes) levou a nova idéia para seu sócio William Thomas Green Morton (1819-1856), que organizou logo uma demonstração para extrair dentes de quem se voluntariasse. Foi um grande acontecimento!

Mas, a história não começa e nem acaba aí, pois o óxido nitroso tinha seu rival, o éter, descoberto em 1540, por Valerius Cordus, porém ainda não utilizado como anestésico na época e sim para conservar a farmacopéia de Cordus, que era botânico. Morton, por sua vez, leu o tratado botânico e roubando a idéia de Wells, experimentou o éter em cachorro. Foi um sucesso!

Na verdade, o novo acontecimento virou uma grande farra, pois todo mundo agora se deliciava com a nova “farra do éter” em pequenas reuniões de amigos, festas e acontecimentos sociais, pois da anestesia, que leva o indivíduo à sensação de embriagues, surgiu o desejo do homem escapar de si mesmo e não apenas da dor. Hoje em dia, diz-se ser o éter ancestral dos “coquetéis” consumidos larga e abertamente em festas e “baladas”, muitas vezes organizadas para este fim. Só que muitas vezes, o “fim” pode ser outro...

Mas, há muito ainda a dizer sobre a dor, portanto aguardemos os próximos artigos e vejamos como o ser humano tem lidado com uma de suas mais incômodas inimigas.

* Professor do Centro de Biociências da UFRN(juarez@cb.ufrn.br)