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8 de out de 2008

O SÉCULO DA ANATOMIA

O Século da Anatomia (I)
(Publicado no O Jornal de Hoje)
*Juarez Chagas

Quando muitos leram O Código Da Vinci, de Dan Brown, uma das ficções americanas badaladas do momento, com mais de dez milhões de livros vendidos, segundo estampa divulgação na capa (Livraria Sextante, 480 pgs, 2004) não imaginariam que o entendimento do segredo da máquina humana fosse necessário para a compreensão do tema e trama do livro, como um todo. Evidentemente, que o conhecimento do próprio corpo pelo homem, o levaria às mais fantásticas descobertas da ciência na área da saúde.
No que diz respeito a este livro de Dan Brown, podemos dizer que praticamente toda sua inspiração foi baseada no Homem Vitruviano, uma das mais famosas obras de Da Vinci (1452-1519), por sua vez inspirada no trabalho do arquiteto romano Marco Vitrúvio (c.70-25 a. C.) em sua obra intitulada Os Dez Livros da Arquitetura, apresentado-se como um modelo iadeal para o ser humano, cujas proporções são perfeitas, segundo o ideal clássico de beleza. Com o passar do tempo a descrição gráfica se perdeu e Da Vinci foi contratado para resgatar não apenas a obra, mas uma nova dimensão da mesma e sua relação com a Natureza. É aí que entra o conhecimento do corpo humano. Sabemos que Da Vinci, foi muito antes do que qualquer anatomista o primeiro a dissecar corpos humanos com perícia anatômica, superada apenas por Vesalius, posteriormente. Tudo isso fez parte da Renascença, a maior revolução da humanidade, até então.

Na verdade, o segredo de De Humani Corpori Fabrica (título do mais importante livro da Anatomia, em todos os tempos, publicado em 1543, cujo fac símile do original, eu tenho um com pranchas desenhadas pelo próprio Von Kalkar), como bem postulou Vesalius, autor da própria obra e, indubitavelmente, o médico anatomista que apresentou sistêmica e topograficamente o corpo humano, não somente à ciência, mas ao mundo, fazendo com que a partir daí a medicina se tornasse viável no combate às mazelas e doenças orgânicas e, o conhecimento sobre o corpo humano tornou-se obrigatório para todos. Desconhecer o corpo é ser ignorante parcialmente sobre si mesmo e, praticamente, uma obrigação para os profissionais da saúde e, por que não dizer, no mínimo curioso para qualquer contexto no qual o indivíduo ou pessoa esteja inserido.
Mas, o principal ponto da presente discussão é qual foi o verdadeiro século da Anatomia, pois há muitas considerações importantes no que diz respeito à cronologia sobre o estudo do corpo humano. A princípio, no entendimento geral, é preciso citar as quatro grandes escolas anatômicas do passado: Egípcia, Babilônica, Grega e Romana.

Como é sabido, a Escola Egípcia detinha, antes de qualquer outra escola, a técnica do embalsamamento ou mumificação, a qual dominaram como ninguém. Tanto é que até hoje se constata a eficiência da mumificação através dos tempos. Já os Babilônicos tinham apenas conhecimentos superficiais sobre o corpo, o que lhes conferiam somente condições para tratamentos superficiais de ferimentos de lutas e guerras. Na realidade, as duas grandes e mais importantes escolas foram a Grega e a Romana, que deixaram um legado que mudou a história da humanidade. No que diz respeito à primeira, não podemos omitir, dentre outros, Hipócrates e Galeno. O primeiro instituiu, além de seu amplo conhecimento, a ética médica com seu juramento hipocrático e Galeno, por sua vez, dominou durante quinze séculos com sua anatomia rudimentar (mesmo sem ter dissecado um único corpo humano)

Foi então que surgiu Vesalius (1514-1564), o primeiro a fazer uma dissecação pública, com sentido acadêmico, mudando a história da medicina e do mundo. Portanto, eu diria que o “Século da Anatomia” foi o século de Andreas Vesalius ou De Humani Corpori Fabrica .

*Professor do Centro de Biociências da UFRN(Juarez@cb.ufrn.br)

O SÉCULO DA ANATOMIA

O Século da Anatomia (II)
*Juarez Chagas

Há muitos acontecimentos interessantes sobre a história da Anatomia que, como podemos perceber seria necessário uma seqüência de capítulos, sobre o tema. Porém, o objetivo não é esse e sim, pontuar algumas passagens interessantes que tenham conexões diretas com o saber do ser humano (pra não dizer somente “do homem”, como habitual), principalmente na contemporaneidade. A respeito disso, na minha opinião o conhecimento anatômico deveria ser obrigatório em todos os currículos, assim sendo todo mundo saberia um pouco mais sobre seu próprio corpo e, conseqüentemente, também conheceria melhor sobre seu sistema neural, responsável por muito do comportamento humano.
Não podemos falar de Anatomia sem falar em Andreas Vesalius (1514-1564) cuja incontestável bravura foi desde exumações ocultas de cadáveres para o estudo da anatomia, em calabouços à luz de vela e anfiteatros clandestinos até às dissecações públicas com o reconhecimento do clero e universidades, depois das quais se instituiu o estudo acadêmico da anatomia. Antes, como foi visto no artigo anterior, predominava a medicina de Hipócrates, com sua conotação humanística e, posteriormente Galeno, o qual sem nunca ter dissecado um só cadáver humano, gostava de desenvolver teorias sobre diversos tratamentos a base de ervas, que deveria curar os “elementos” do corpo, levando em conta sua concepção metafísica da natureza do corpo, o qual ele comparava com a Natureza. Estes elementos eram compostos de quatro componentes indissociáveis e igualmente indispensáveis: fogo, ar, terra e água.

O método do estudo da anatomia de Vesalius revolucionou a ciência, em particular a medicina, por ser eminentemente prático, real e investigativo, conseqüentemente. Jamais alguém tinha feito antes o que ele fez e, por isso, é reconhecido como o Pai da Anatomia.

É interessante observar que a cirurgia até então era completamente rude dramática e, infelizmente, matava mais do que curava. Não havia anestesia (só a partir de 1801), o equipamento cirúrgico era precário (os médico eram chamados de barbeiros cirurgiões ou cirurgiões-barbeiros), amputações eram tidas como moda...porém, mesmo com toda essa deficiência, o mais grave era a falta do conhecimento anatômico, pois o corpo humano deveria ser inviolável, chorado e enterrado depois de morto. Quem fosse pego dissecando cadáveres deveria ser queimado em praça pública como feiticeiro ou herege. Era época da Santa Inquisição. Somente a Igreja, a Religião podia nortear o que deveria ou não ser feito.

Na época de Vesalius, um dos mais famosos cirurgiões chamava-se Ambroise Paré (1510-1590) que, mesmo com a anatomia oculta da época, foi um inovador na área cirúrgica e, altamente, competente. Era também muito humano, humilde e de espírito religioso (qualidades estas nem sempre presentes em muitos). É dele a célebre frase que ainda perdura através dos tempos: “Eu o tratei e Deus o curou”.

A propósito, Vesalius e Paré (em ação na foto do artigo) não foram apenas contemporâneos, mas também ambos se encontraram no leito de morte de Henrique II, da França. O Rei tinha sido gravemente ferido num duelo com o Comte Montegomery, capitão da guarda da côrte francesa, por questões pessoais entre ambos, que disputavam (sigilosamente) a mesma amante. A lança de Montgomery perfurou o capacete do Rei, penetrou em seu olho e espatifou-se dentro de sua órbita. Então, mandaram chamar Paré, que imediatamente sugeriu a presença de Vesalius. Mas, os absurdos da época aconteciam normalmente, especialmente na corte. Paré e Vesalius testaram procedimentos cirúrgicos em seis cabeças de criminosos executados, na tentativa de salvar a própria cabeça do Rei que acabou falecendo onze dias após a cirurgia.
Paré por sua vez, foi irônico após a autópsia que, ao examinar o crânio e encéfalo do Lorde, encontrou um abscesso na superfície do cérebro, dizendo o seguinte: “...Aqui foi encontrado um começo de corrupção, o que deve ter sido causa suficiente para a morte do meu Lorde e não apenas o dano causado no seu olho”.
Se a analogia, segundo a ironia de Paré, de tumores e abscessos nas cabeças de poderosos fosse sinônimo de corrupção, hospitais e leitos não suportariam o contingente de moribundos e a causa mortis seria de fácil constatação

*Professor do Centro de Biociências da UFRN(
Juarez@cb.ufrn.br)