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30 de mai de 2008

O CORPO OCULTO



UMA HISTÓRIA QUE VAI ALÉM DO CORPO
E DO ESPÍRITO
(Uma tese Acadêmica transformada em ficção)


* Por Waleska Maux


O biólogo, psicólogo e professor universitário Juarez Chagas, disponibiliza na Paraíba (Livraria Siciliana) a obra “C.D, O Corpo Oculto” (223 págs, A.S.Livros), uma ficção romanceada que traz à tona o valor do descobrimento dos valores da condição e natureza humanas, porém cheia de ardilosas tramas que permeiam do imaginário à realidade dos protagonistas, onde o corpo também serve de interface na história e do próprio desenvolvimento humano.

No livro, através do ‘cadáver desconhecido’, o autor aborda a questão da morte, tratada de forma quase acadêmica, porém como lição de vida e de sua importância na trajetória da humanidade. Trata-se de uma história de amor inspirada nas possibilidades do Destino sobre a natureza humana. Uma trama de vingança incomum numa família, temperada pela inveja e suas devastadoras conseqüências. Uma história que transita pelos mistérios da vida após a morte, para falar da força e do valor da amizade, além do poder misterioso do espírito sobre todas as demais energias capazes de formar e desintegrar os seres em nosso universo.

A história de Douglas Santos, um jovem que, de forma cruel e inesperada, vê-se impedido de viver um grande amor, vítima de um plano diabólico. Sobrevivendo à morte, no plano espiritual, ele retorna na pele e corpo do Cadáver Desconhecido (pois é enviando como tal, para uma universidade, para ser dissecado nas aulas de anatomia). O livro, segundo o autor, faz lembrar tramas como os clássicos de alguns personagens do gênero como A Múmia, Ghost, O Corvo e O Homem Sem Face, todos clássicos internacionais da literatura e também do cinema. Sobre o fenômeno da morte, cita o autor em um de seus trabalhos científicos: “Parece muito mais fácil saber e entender o que as pessoas sentem em relação à morte do que, propriamente, defini-la. Uma coisa é certa, por mais inaceitável e absurda que possa parecer na concepção pessoal de cada um, a morte complementa a vida, assim como o medo é o lado oposto da coragem e o mal do bem, formando ambas, no entanto, um todo”. Impressões O Corpo Oculto prende o leitor do inicio ao fim da trama.

Douglas, personagem simpático e de temperamento calmo e controlado, é vitima da trama ardilosa de um primo ambicioso, que consegue ceifar sua vida precocemente. Interessante também, a sensibilidade de Pitágoras, técnico de laboratório, que nutre um zelo afetuoso pelos cadáveres da Universidade. Entre ele e Douglas, cria-se um laço de afeto e amizade ultrapassando as barreiras da vida e da morte. Pitágoras lembra uma versão moderna de Quasímodo, segundo nos fala o autor. A ambição é abordada em vários campos, inclusive no meio acadêmico, assim como os requintes de crueldade do psicopata Teobaldo, primo do personagem principal do livro, que chega a dissecar alguns inimigos, num ritual pra lá de cruel.

O livro não é de terror, ao contrário, mostra-nos a face negra da morte e a face oculta do amor, num duelo que busca o equilíbrio das duas forças. Não deixa de nos provar que, tanto a morte como o amor, são formas de desenvolvimento do ser humano. Força oculta.

Vale a pena mergulhar neste enredo que traz o bem e o mal ao mesmo cenário e confronta-os num espiritual campo de batalha. Em um dos capítulos, viajamos ao Fantasma da ópera, através de um grande concerto que tem, entre seus participantes, por alguns instantes, o adorável Douglas, que incorpora num corpo sem vida, o talento que lhe é peculiar para agradar a sua amada que está na platéia, através da execução de Vozes da Primavera, de Strauss. Emocionante... Quem gosta das coisas do amor e quem quer entender mais sobre a morte como desenvolvimento humano, eis um bom livro.

Quem é o autor

Biólogo, psicólogo, professor universitário e escritor. Ao longo de sua carreira como professor de Anatomia Comparada, na Universidade Federal do RN, escreveu “Anatomia Comparativa dos Vertebrados, publicado pela Editora Universitária da UFRN. Em 2001, recebeu o premio de melhor argumento/roteiro ao filme na II Mostra de Vídeo no FestNatal com o video “O outro lado da Esquina” .

Desde 2004, Chagas é articulista do Jornal de Hoje (RN), onde escreve sobre assuntos diversos, em especial, abordando a Tanatologia (estudos sobre o fenômeno da morte). Em 2006 lançou com sucesso seu primeiro livro de ficção romanceada “C.D, o Corpo Oculto”, o qual teve excelente repercussão no meio literário local. Embora esteja no Brasil estes meses, atualmente cursa doutorado em terras lusitanas, defendo tese que aborda a Psicologia Social.

Onde encontrar o livro:

Siciliano, Poty, Cooperativa Cultural (Natal)
Prefácio Livros: Tambiá Shopping – Centro e Mag Shopping Manaíra (João Pessoa)

* Jornalista
(Divulgadora de lançamentos de Autores do Rn, Pb e outros Estados brasileiros)

PISTOLEIRO DO PÔR-DO-SOL



PISTOLEIRO DO PÔR-DO-SOL
(The Real Last Gunfighter)


Juarez Chagas

Ter encarado o desafio de escrever um romance ao estilo do velho Oeste (diferentemente dos romances e ficção contemporânea que escrevo) foi uma idéia que surgiu com o tempo. Havia muita coisa background que suportava esse projeto, como ter lido a maioria dos romances de Zane Grey e outros grandes romancistas do velho Oeste americano, referências inspiradoras do gênero. O fascinante mundo das Histórias em Quadrinhos dos clássicos westerns com seus heróis de papel fascinantes que eram incansavelmente lidos, desenhados e colecionados também serviram de inspiração. Adicione-se a isso a importante possibilidade de escreverr também sobre outros temas que não apenas romances contemporâneos.


Portanto, apresento (já lançado nas livrarias de Natal e João Pessoa), embora direcionado mais a um público específico, o Pistoleiro do Pôr-do-Sol, um romance no velho Oeste, onde a Natureza Humana é colocada à frente dos revólveres.

Um pouco da personagem:

Johnny Slim, filho de uma pacata família de fazendeiros, ao norte do Texas, segundo de uma prole de três irmãos, foi batizado John Scott River. Entretanto, por ter crescido mais do que os irmãos e, também pela magreza que apresentava na adolescência, passou a ser chamado carinhosamente de Slim (magro), pela família. Embora, depois, tenha se tornado um homem forte e robusto, Johnny Slim passou a ser seu verdadeiro nome.

Como fazendeiro que era, seu pai criava gado, tinha juntamente com os filhos e seus empregados rotina de cowboys, mesmo no início do século XX e promovia, inclusive rodeios. Em um desses rodeios, chegou a conhecer o próprio Buffalo Bill (William Frederick Cody), já no fim de sua carreira, em 1915, quando o mais famoso cavaleiro do Oeste, viajava com seu circo intinerante, representando a si mesmo como herói verdadeiro e de ficção. O sr. James Scott River gostava de contar que Slim, nessa ocasião ainda um garoto, apertou a mão de Bill, cumprimentando-o. Slim é o segundo filho e nasceu num dia de chuva, trazendo muita alegria para a família. Aos dezoito anos serve as forças armadas, onde aprende a usar armas de fogo e quando volta, passa a ser um verdadeiro cowboy e a defender seu território contra ladrões de gado e assassinos, que ainda existem nessa época em que os índios “se aposentam” e vivem de favores do governo e dos homens brancos.
Johnny Slim, senão o último, é um dos últimos pistoleiros do Oeste, pode-se dizer, dos tempos considerados modernos para a lei do revólver e tudo começa quando ele resolve procurar seu irmão mais novo, o qual teria sido aliciado por bandidos, enquanto ele servia o exército. Slim promete a seus pais que só voltaria pra casa quando encontrasse seu irmão, nem que para isso tenha que percorrer todo o Oeste. E como nunca consegue encontrá-lo, jamais retorna para a família. Em conseqüência disso, enquanto anda muito como um cavaleiro solitário, de um lugar para outro, encontra uma moça que lhe rouba o coração e vive muitas emocionantes aventuras.

Onde encontrar o livro:
Prefácio Livros: Tambiá Shopping – Centro e Mag Shopping Manaíra (João Pessoa)
Cooperativa Cultural (Campus) e Siciliano Midway Mall (Natal)

juachagas@gmail.com

29 de mai de 2008

QUANDO UM HOMEM AMA UMA MULHER



Quando um Homem Ama uma Mulher
(Publicado no Jornal de Hoje, anteriormente)

Juarez Chagas


Recentemente conversamos sobre Guerra e Morte. Hoje vamos falar a respeito de Vida e Amor. Nada mais coerente, para se mostrar que a vida tem, predominantemente, suas duas faces, inúmeras fases e é no meio desse caminho que, muitas vezes questionamos seu destino, que nós humanos caminhamos e caminhamos até onde podemos.

“Quando Um Homem Ama Uma Mulher” (When a Man Loves a Woman, USA, 1994) é o título de um excelente filme, o qual se não faz a mais “dura e controlada” das pessoas chorar em algumas ou pelo menos numa de suas passagens emocionantes, no mínimo a fará refletir sobre perdas, amor, ganhos e, sobretudo, reconstituição da condição humana após fracassos, hoje mais discutida do que nunca, no âmbito da Psicologia.

O filme começa com a abertura da linda música homônima When a Man Loves a Woman (Percy Sledge), quando Michael (Andy Garcia) encontra sua mulher Alice (Meg Ryan) em um bar, onde marcaram para se encontrar e comerem algo, antes de rumarem para casa. Michael é piloto de bordo e acaba de chegar de viagem.

À noite saem para comemorar o aniversário de Alice e, em virtude disso, surge sua primeira recaída, pois ela adquirira o hábito de beber desde os nove anos de idade. Hábito esse herdado de seu pai, que era alcoólatra. Ao chegarem em casa, Alice irrita-se com o alarme de um carro estacionado na rua e, irritada, vai até o carro com várias caixas de ovos, sujando todo o carro de ovos quebrados. Sem controle ela sobe em cima do carro, e convida Michael para fazer o mesmo, ou seja, atirar ovos no carro, numa brincadeira irreverente, porém totalmente impulsionada pela bebida. Finalmente, Michael cede ao pedido e ambos brincam como duas crianças brincam na lama. Porém, ele não ficou satisfeito com isso...

Dia seguinte, depois do trabalho, onde Alice é professora, sua amiga Pam, pede para falar com ela, pois está com problemas com o namorado e precisa desabafar. As duas vão para um bar vizinho e lá, acabam bebendo uns drinks, o que faz com que Alice chegue em casa muito tarde da noite e totalmente embriagada. Michael reclama e pergunta por onde ela andou, então ela lhe conta que bebeu porque havia saído com a amiga. Em seguida, após ver que não fora apenas pelos simples fato de ter saído com Pam, porém por não ter conseguido ficar sem beber, começa a procurar desculpa culpando o tipo de trabalho e a ausência do marido, que vive viajando. Quando Alice começa a falar na ausência constante de Michael, ele sente-se culpado por não estar presente para dar, o suporte necessário que ela precisa, assim como também às suas duas filhas, Casey de 4 e Jess de 6 anos. Então ele sugere que ambos tirem uma temporada curta de férias, longe de tudo e de todos, com o objetivo da esposa melhorar.

No primeiro passeio de barco, já no recanto de férias, Alice já tinha bebido mais que o suficiente pelo dia todo. Cai do barco e quase morre afogada, não tivesse Michael resgatado-a com muita sorte. Depois deste incidente, os dois conversam pela primeira vez, após tanto tempo, sobre o vício e sobre o que realmente está acontecendo.
- Você me assustou ontem, querida. Você não assustou a si mesma? Indaga Michael.
- Vou parar de beber tanto. Ontem à noite foi a melhor coisa que aconteceu. Isso me abriu os olhos. Te prometo. Prometo a mim mesma.

Alice e Michael retornam das férias e, já na primeira noite após a volta, ela começa a sentir o drama com mais intensidade. Dorme mal, levanta-se no meio da noite, procurando uma garrafa de Vodka que havia escondido e vai jogá-la no lixo. Nesse momento, a irresistível vontade de beber é maior e então ela bebe toda a garrafa antes de jogá-la vazia, no lixo.

Está aí confirmado seu estado de abstinência, pois não pôde evitar mais a ausência do álcool. O pior é que Alice não pode ocultar essa passagem do marido que dormia, pois sem querer, a porta se trancou por dentro e ela não pôde entrar, tendo que tocar a campainha para que ele viesse abrir a porta para ela. Quando ele abre a porta, ela metade trôpega e metade sem jeito para qualquer desculpa, diz
- Bem, está tudo bem lá na calçada. Compulsão por lixo. Mas, me sinto muito melhor agora. Nesse sentido, não sabemos se ela foi irônica consigo mesma ou se quis se justificar ao marido ou se queria dizer que a droga é um lixo. Quem sabe, ambos.

Na manhã seguinte é visível o nervosismo, a ansiedade de Alice, que são outras fortes características do alcoolismo. Sua irritação e inquietação são tão notórias que começa a implicar com Jess, proibindo-a de ir à casa de sua colega de escola, impasse esse resolvido por Michael, o que a irrita mais ainda.

Finalmente, Michael viaja e já nessa primeira oportunidade, Alice já chega embriagada em casa. Preocupada com o estado da mãe, Jess a segue e pergunta se ela está doente, quando a vê ingerir várias pílulas de aspirina com Vodka. Alice, em contra-partida esbofeteia a filha e manda-lhe fazer suas tarefas. A garota sai correndo e chorando para seu quarto. Em seguida Alice vai tomar banho, porém começa a passar mal, ter convulsões e então, sem controle cai por cima da aporta de vidro do banheiro. Jess consegue localizar o pai, em outro Estado, pois havia viajado como piloto e lhe diz por telefone que sua mãe está morta. Nesse momento, o drama familiar se configura e parece ser maior do que a da alcoólatra, pois o estado da própria doente, não é maior do que o drama psicológico vivido por Jess e Michael, que desesperado ruma para casa, achando que sua esposa está mesmo morta.

QUANDO UM HOMEM AMA UMA MULHER


Quando um Homem Ama uma Mulher (II)
(Publicado no Jornal de Hoje, anteriormente)

Juarez Chagas


Continuando a triste trajetória de Alice Green, personagem fictícia vivida por Meg Ryan no filme que leva o título deste artigo, vimos que ela, literalmente embriagada e sem o mínimo domínio do corpo e mente, após cair com todo o corpo por cima da divisória de vidro do banheiro, ficou inerte estirada no chão, como se morta estivesse.

Quando Alice acorda no hospital, Michael está ao seu lado, chorando discretamente. Assim que ela acorda ele a beija, demonstrando afeto e não pena. Esse momento é importante, pois o doente de alcoolismo já se sente rejeitado por si só e não suportaria o sentimento de piedade por parte dos outros. Outro momento importante do filme é quando Alice, finalmente admite e confessa estar doente. Ela diz que bateu em Jess, diz que bebe sem parar, que começa às 4hs da madrugada e continua durante o dia todo. Admite que bebe no banheiro, no armário, no quarto das meninas e em todos os lugares da casa.
- Bebo Vodka pra você não sentir o cheiro. Michael ouve tudo atentamente.
- Tenho que ficar alta pra conseguir fazer qualquer coisa. Tenho muito medo o tempo todo. Nesse momento, Alice admite a dependência. Admitir a dependência já é uma forma de pedir ajuda, pois sozinha não conseguirá sair do vício, uma vez que se encontra refém da bebida, uma das maiores drogas veladas, do planeta, que destrói sua vítima lentamente, quando provoca acidentes, suicídio ou homicídio.
- O que vou fazer? Ela pergunta chorando.
- Vamos pensar em algo. Não quero que se preocupe com isso. Vamos encontrar o melhor tratamento que existe. Você não está sozinha. Nunca.
Nesse ponto, numa cena emocionante, o filme deixa bem claro a fundamental importância do apoio e da ajuda, sem a qual o paciente jamais teria êxito. Nesse caso, claro o amor de Michael pela esposa é incondicional e ela sabe disso e se sente segura.
Chega o dia do internato de Alice. Antes de sair de casa ela sente a necessidade e o dever de falar com Cassey e Jess e, principalmente, pedir perdão a Jess por tê-la agredido. A garota ainda está muito ressentida e não diz uma só palavra na despedida. Ou seja, revolta, sentimento de mágoa e outras características das seqüelas do alcoolismo, que sem exceção acomete toda a família. O trauma que Jess sente é algo devastador para uma criança.
Ao chegar na clínica, Alice quase desiste, pois logo de entrada, tem que obedecer às normas do tratamento, tais quais, revista de sua bolsa (onde foi encontrado um vidro de perfume com bebida), não dá telefonemas e subir sozinha para a primeira entrevista. Ela quase desiste, mas Michael lhe convence a encarar a situação. Ela lentamente se vê entrando no período de desintoxicação.

O internamento de Alice, não trouxe adaptações somente para ela. Trouxe para toda a família. Michael teve que mudar sua rotina de vida e as garotas também, pois eles agora precisam cuidar melhor uns dos outros e da casa. Jess, com apenas seis anos, resolve assumir a cozinha e tomar conta de Cassey, sua irmã caçula de 4 anos.
Dra. Mendez, uma conselheira da clínica, acompanha Alice na “síndrome de abstinência”, quando ela tem suas primeiras reações de desintoxicação e a estimula a agüentar firme durante os primeiros dias. No terceiro dia é que Alice é permitida a fazer uma ligação para casa e falar com Michael. Ela chora muito e diz que está sendo muito difícil.

Chega o Domingo de visita e Michael e as meninas dividem o tempo com Alice que parece feliz, porém muito apreensiva, se sentido como um animalzinho parcialmente preso. Na comunidade dos pacientes da clínica, Michael observa que ele não está sendo valorizado por Alice que está dando mais atenção a seus novos amigos do que a ele mesmo. Alice nesse contexto, divide com os amigos momentos de confidencias que Michael não pode lhe proporcionar. Ele sente isso e fica incomodado.

Chega o dia de Alice ir embora. Dra. Mendez está com ela na ultima conversa. Ela diz que está com medo e que não sabe o que a aguarda, pois chegou uma pessoa e está saindo outra. Nesse sentido, vimos que a recuperação também causa uma certa “institucionalização” do paciente. Ela se imagina uma outra pessoa que sente deixar seu novo lar. Quando retorna para casa, tudo parece normal, porém Alice nota que não foi apenas ela que mudou, mas todo mundo. Ela se sente como tendo, perdido seu “lugar de esposa, mãe e de dona de casa”, pois Michael agora parece querer resolver tudo sozinho. Problemas com as meninas, com a casa, tudo ele quer resolver. Resultado: acabam na terapia de casal, pois sua nova vida lhe traz também novos conflitos, antes inexistentes.
Os dois discutem sobre o momento que estão passando. Alice diz que Michael a culpa por tudo e que se sente estúpida do mesmo jeito que antes. Surge assim um outro problema que ambos não estão sabendo resolver. Então, Michael resolve ir embora e sai de casa.

Chega o dia do depoimento final de Alice na instituição onde estivera internada. Ela começa se apresentando e dizendo que nesse dia completa 184 dias sem beber. Seu depoimento é simplesmente emocionante. Diz que se sente recuperada, mas, que o álcool lhe roubou o que mais amava, seu esposo. Também roubou sua vida.Todos os presentes a aplaudem de pé. Michael também se encontra na platéia e vem recebê-la, para sua surpresa e felicidade. Como a própria música tema do filme diz, quando um homem ama uma mulher, tudo faz pra lhe fazer feliz.

O QUE É A MORTE?


O Que é a Morte ?
(Publicado no Jornal de Hoje, anteriormente)

Juarez Chagas

A princípio, esta parece ser uma pergunta fácil de se responder, mas não é. Tanto é verdade essa afirmação que até hoje não temos uma definição adequada para a morte, apesar da mesma ser tão ou mais antiga do que a própria vida, à qual sempre busca exterminar.
Parece que, assim como a sol e a lua, a noite e o dia, o bem e o mal, o masculino e o feminino e todas as dualidades e simetrias, mesmo paradoxalmente heterogêneas, se é que assim podemos chamá-las, a morte também já surgiu com a vida, para ser seu lado simétrico e ao mesmo tempo antagônico, por ser exatamente o oposto, mas também, em conjunto formar o seu inteiro, encerrando o ciclo vital das plantas, animais e seres humanos.

Popularmente falando, vejamos como Aurélio Buarque conceitua a morte: “Morte. S.f.1. Ato de morrer; o fim da vida animal ou vegetal. 2. Termo, fim. 3. destruição, ruína. 4. fig. Grande dor; pesar profundo. 5. entidade imaginária da crendice popular, representada em geral por um esqueleto, armado de uma foice com que ceifa as vidas”.

Mas, entendemos que este é um conceito gramaticalmente técnico e que sua definição não contempla nem engloba todo o seu conteúdo significativo e fica, portanto, a necessidade de uma compreensão mais profunda, no sentido de entender, de certa forma, a ansiedade em virtude do desconhecimento, permanecendo,muitas vezes, as mesmas dúvidas e questões, tais quais: como outras culturas e grupos sociais definem a morte? Como seria a vida sem a morte? Nosso Planeta suportaria seres imortais sem renovação do ciclo vital? E quanto à superpopulação? Teríamos espaço, água, ar e alimento suficientes para todos e mais ainda para os que nasceriam a cada instante? Como seria a convivência entre seres imortais? Parece que uma das respostas é a constatação de que a morte não é apenas algo inevitável, porém também necessário, assim como a própria vida, em sua seleçao natural.

A filosofia oriental nos ensina que devemos conhecer o yin e o yang, o claro e o escuro, o positivo e o negativo, o bem e o mal, o feio e o belo...para que possamos viver em equilíbrio. O ocidente tenta combater a morte com unhas e dentes! As demais culturas dos diferentes povos têm sua própria maneira de ver, encarar, tentar evitar ou se esconder da morte. Esta sem piedade, complacência ou adjetivos específicos, determina até onde a vida de nós humanos deve ir. Isso, é inegável dizer, atemoriza a quase totalidade dos seres humanos, que são os únicos indivíduos na face da terra conscientes de sua própria morte, gerando tal comportamento, pois não fomos preparados para aceitar esse fato de modo diferente. Ao contrário, fomos preparados para temer a morte, tentar evitá-la e até excluí-la de nosso pensamento e imaginação, na tentativa de vivermos mais tranqüilos. Mas, como evitar algo que está presente, não somente em nosso consciente, mas paralelamente lado a lado às nossas vidas? Esse sentimento é tão forte que acaba por constituir-se em uma das únicas certezas de nosso Destino sobre a face da terra, tendo originado o tão popular adágio: “ A morte é a única certeza que temos da vida!”.

Bem sabemos que, enquanto o Oriente procura entender a morte no campo espiritual e para ela se preparar. O Ocidente a vê como sua pior inimiga e procura cada vez mais combatê-la com experimentos e tecnologia, argumentando que a revolução biomédica sobrepujará, em breve, sobre a doença, mantendo cada vez mais fortes os processos vitais orgânicos, tornando a velhice apenas um período mais saudável da vida e, assim transformando a morte em algo do passado.

Por outro lado, esse processo puramente científico que alimenta mais ainda o desejo da imortalidade, parece, segundo o pai da psicanálise não levar em conta a subjetividade humana em torno de seus conflitos existenciais, pois o próprio Freud chegou a afirmar “ É possível que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez morramos porque desejamos morrer. Assim como amor e ódio por alguém habitam nosso peito, assim também nossa vida conjuga o desejo de manter-se e um anseio pela própria destruição”.

Portanto, parece muito mais fácil saber e entender o que as pessoas sentem em relação à morte do que, propriamente, defini-la. Uma coisa é certa, por mais inaceitável e absurda que possa parecer na concepção pessoal de cada um, a morte complementa a vida, assim como o medo é o lado oposto da coragem e o mal do bem, formando ambas, no entanto, um todo. Mesmo parecendo paradoxal e antagônico, poderíamos dizer que um é o outro lado do outro, às avessas, embora formando um inteiro. Então, perguntas como estas mantêm todo o sentido que sempre tiveram: “O que seria do bem se não existisse o mal?”, ou “O que significaria o belo sem a existência do feio?”; “Que idéia teríamos do profundo se não existisse o superficial?” enfim, “Como seria a vida sem a morte?”

PATCH ADAMS, O AMOR É CONTAGIOSO



O Amor é Contagioso
(Publicado no Jornal de Hoje, anteriormente)

Juarez Chagas

Na verdade é assim que deveria ser o amor pela vida: contagioso. Por outro lado, para que se completasse o desejo quase utópico do ser humano sobre a busca do amor em sua plenitude, a vida também deveria ser contagiosa com amor, e o é. No filme Patch Adams, o Amor é Contagioso (Universal Pictures, USA 1998), vemos uma dessas vertentes, humanamente defendida por Hunter Patch Adams, um médico que, além da técnica curativa, crê no riso e no humor como remédio e alento para doentes, principalmente os desenganados pela medicina.

A princípio, Patch Adams lembra Elizabeth Klüber-Ross quando se trata da causa pelo tratamento humano do paciente. Quem leu os livros de Klüber-Ross e Patch Adams, pode identificar, de imediato, a similaridade entre ambos. Ross, já abordada em artigos anteriores (falecida há cinco anos atrás), médica por convicção em ajudar o próximo, aprendeu a lidar com perdas e a partir de sua própria formação ajudou milhões de pessoas a lidarem com a própria morte. É dela os estudos acadêmicos sobre as fases da morte e como encará-las.

O verdadeiro Patch Adams ( inspiração do filme que, mais uma vez prova o inquestionável talento de Robin Williams, por sinal ganhador do Oscar do filme homônimo), por sua vez graduou-se em medicina em 1971, teve como sua principal causa convencer as pessoas, principalmente colegas de profissão, sobre a interação entre medicina e humanização. “Quero ajudar. Quero me conectar com as pessoas. Médicos lidam com as pessoas nas horas mais vulneráveis. Ele oferece tratamento, mas também conselhos e esperança e é por isso que quero ser médico. O médico deve tratar o paciente além da doença”, diz seu personagem numa das falas do filme.

O Dr. Hunter Patch Adams é real e ainda muito bem vivo. Tem sido reverenciado e homenageado no mundo todo por suas ações e atitudes em ajudar as pessoas. Fundou o Instituto Gesunheit, um hospital humano e gratuito, com sua nova versão sendo agora construída em West Virginia, onde a medicina tradicional integra-se com a natureza, arte curativa, homeopatia, acupuntura, recreação, amizade e muito divertimento. Bem a cara de Patch, diriam todos.

Ainda, no que diz respeito ao filme, é ao mesmo tempo uma comédia e drama, assim como também um filme que enaltece o amor e a natureza humana. Uma excelente ficção baseada em fatos reais, o qual começa com Patch Adams viajando num ônibus, rumo a um hospital psiquiátrico, após tentar suicídio. Ao chegar no hospital é colocado num quarto com um doente mental e, a partir daí, passa a conviver com os demais doentes mentais da instituição, procurando se integrar e interagir com os mesmos, indistintamente.

Após sua entrevista individual com o médico psiquiatra que vai acompanhá-lo, é colocado para fazer tratamento em grupo. Ele começa a perceber o conflito de cada um de seus “colegas” e tenta ajudá-los penetrando em sua sintonia e seus problemas e tentando entender e viver suas próprias angústias. Evidentemente, que isso causa grande tumulto no hospital e então, resolve, a contra gosto do diretor do hospital, pedir alta, pois descobre ter agora um novo objetivo de vida: ser médico e tentar ajudar os outros!

Dois anos depois, ele se matricula na Universidade para cursar medicina. Acontece que a partir daí, Patch torna-se o grande problema da universidade e do hospital, pois passa a quebrar normas tradicionais com seu jeito irreverente de ser, mesmo sendo para ajudar os outros, principalmente os pacientes terminais. Suas atitudes pouco ortodoxas culminam com a construção de um hospital ao ar livre, mesmo não tendo ainda concluído o curso médico. E por isso é julgado academicamente, no sentido de ser expulso da universidade.Vejamos um dos diálogos de Patch, quando este é interpelado a justificar suas atitudes.

- Você considerou as conseqüências de suas ações? E se um de seus pacientes morresse? Indaga o presidente da comissão acadêmica julgadora.
- Qual o problema com a morte, senhor? De que temos tanto medo? Por que não tratar a morte com certa dignidade e decência e, Deus me perdoe, até mesmo humor? Morte não é o inimigo, senhores. Vamos lutar contra as doenças, vamos lutar contra a pior doença de todos, a indiferença. Eu freqüentei essas escolas e ouvi pessoas falarem de transferência e distanciamento. Transferência é inevitável. Todo ser humano afeta um ao outro. Por que não queremos isso entre paciente e médico? É por isso que considero seus ensinamentos errados. A missão do médico não deve ser prevenir a morte, mas também melhorar a qualidade de vida e para isso, se trata da doença sem ganhar ou perder. Se tratar a pessoa, eu lhes garanto, vai ganhar, não importa o desfecho!

Patch foi absolvido, estimulado a terminar o curso médico e ovacionado pela platéia de alunos e amigos da universidade, após o resultado de sua absolvição. Foi estimulado a ser médico e aplicar a mesma filosofia de trabalho. Posteriormente fundou seu próprio hospital, ao qual muitos outros médicos se juntaram pela boa causa humana.

A lição de Patch Adams deveria ser também contagiosa. Um excelente exemplo a ser seguido, principalmente por aqueles que ainda não atentaram para o espírito da humanidade. Quanto ao filme, mesmo para quem já assistiu, eu recomendo como divertimento e reflexao. Além da pipoca tenha um lenço consigo também, pois certamente irá rir e chorar.

Quantas Vezes Morremos Antes de Tanathos Chegar?

Quantas Vezes Morremos Antes de Tanathos Chegar?
(Publicado no Jornal de Hoje, anteriormente e no pt.shvoong.com/humanities/1752550)

Juarez Chagas


Estudos sobre a morte, depois de séculos de hibernação ainda iniciada na idade média, hibernação esta causada pelo medo, pavor, pânico que velaram este tão importante tema que diz respeito às nossas vidas e mais especificamente ainda, ao nosso comportamento frente ao social, finalmente, vêm chamando a atenção da comunidade acadêmica e, esperamos que muito em breve, saia do “anonimato paradoxalmente tão popular” para às esferas das discussões mais ecléticas possíveis.

O interesse em saber quem é essa personagem viva, embora sendo morte, cuja imagem personificada de esqueleto em seu cavalo, aflige e ceifa vidas com sua foice impiedosa e que, cedo ou tarde, nunca falha, sempre foi um dos mais complexos mistérios no consciente e inconsciente individual e coletivo do ser humano. Porém cabe uma simples pergunta lógica: se o interesse é tão vital, por que a morte ainda permanece um tabu, figura velada, oculta e intocável em seu misterioso mundo dos mortos, mas bem no âmago da vida humana, já que todos os dias, senão a todo instante, a vemos, temos contato com ela, através de suas ações? A resposta também parece simples e lógica: medo. Sim, é o medo que ela alastra mesmo antes de nos causar a própria morte! Pior ainda, pânico para muitos e angústia para tantos outros. Como diz a velha frase de William Dunbar: Timor mortis conturban me”, ou seja, a morte me deixa morto de medo.

A discussão, no entanto pode parecer contraditória, quando concordamos que um dos desejos da sociedade, sempre ávida por descobrir a verdade nua e crua de segredos e mistérios que tanta importância têm para o ser humano, por que a morte permanece ainda um tabu estigmatizado? Talvez a resposta esteja nas diferentes culturas, crenças, religiões que ao longo do tempo têm mantido esse assunto sob mantos de mistérios.

A morte surgiu com a vida e seria arriscado e impreciso afirmar o tempo de sua existência mesmo com as estimativas cronológicas apresentadas por fundamentações empíricas, teóricas e científicas sobre os fenômenos da Natureza. Entretanto, não é apenas o fato do morrer simplesmente que aflige o ser humano e sim quantas vezes morremos antes de sucumbirmos definitivamente.

Uma pesquisa recentemente realizada nesse sentido revelou a já esperada constatação de que não morremos apenas uma vez e sim várias vezes, pois existem mais do que razões para acreditarmos que antes de morrermos definitivamente, morremos inúmeras vezes, mesmo que não percebamos isso claramente. Essa constatação encontra embasamento, coerência e sustentação no incontestável fato de que a morte é uma separação, uma perda definitiva, uma infinita distância do ser e do ter. É a mais brusca e fatal das separações já experimentada pelo ser humano.
Mas, existem também outras separações e perdas no decorrer da vida do indivíduo que, se não o aniquila como a morte-mor o faz, conduzindo-o à lápide dos mortos, mata dentro de si, na alma, na mente, na sua subjetividade e até nos orgânicos processos vitais, que se caracterizam como outros tipos de mortes. Portanto, a pergunta do título “Quantas vezes morremos antes de Tanathos chegar?”, realmente procede, pois bem sabemos que, mitologicamente, Tanathos sendo o deus da morte, teria domínio sobre a vida das pessoas. Daí, tanatologia significar o estudo da morte, enquanto Eros é amor, vida.

Não é foco deste simples artigo discorrer sobre a cronologia da morte, seus tipos e suas causas, porém é importante dizer que o conceito e a personificação da morte é algo bastante diversificado, segundo as diversas sociedades e suas culturas. Por outro lado, isso tem dificultado sobremaneira um estudo linear e mais direto sobre o tema, fazendo com que a morte permaneça escondida em seu misterioso mundo oculto, isso porque nós mesmos a ocultamos, na esperança dela nos afastarmos e dela nos livrarmos.

Porém, retomando a questão abordada sobre as várias mortes pelas quais o indivíduo está fadado a passar e vivenciar ao longo de sua existência, tomemos o exemplo da Pequena Lucy, uma criança de família brasileira urbana, de classe média.

A pequena Lucy amava sua bonequinha de pano Florzinha, a qual ganhara quando completou três anos de idade. Até os oito anos nunca havia passado uma só noite que as duas não estivesse lado a lado, na cama trocando confidências, segredos e mistérios comuns ao mundo mágico das crianças. Mas, um dia Florzinha foi roubada por uma colega de escola de Lucy que viera, juntamente com outras amigas, fazer uma tarefa lúdica em sua casa. Ã noite, na hora de dormir, Lucy não encontrou Florzinha. Desesperada, depois de revirar quase todo o quarto e não encontrá-la, ela desoladamente diz, em prantos, para sua mãe. “Quero Florzinha! Quero minha boneca! Quero morrer!”. Com o passar dos dias e da certeza da perda de sua boneca, não apenas justificava suas frases, como algo já morrera em Lucy, dado o amor que ela dedicava a mesma. Amor este agora perdido. Ela passou a viver acabrunhada, triste e totalmente sem ânimo. Na verdade, a perda é uma morte, pois algo morrera em si...

Assim como o caso da pequena Lucy, todos os dias, a toda hora exemplos semelhantes estão acontecendo em todo o mundo. Separações de casais, amores perdidos ou desfeitos, desilusões e sonhos acabados, morte de mitos e heróis e inclusive a morte do outro, o outro com quem se tem laços, tudo isso constitui em tipos de morte. Ainda não sabemos, do ponto de vista científico, a dimensão exata que essas mortes podem causar, pois elas afetam profundamente nossa subjetividade, desorganizam e desequilibram devastadoramente nossa psiché e desestruturam nossa mente, afetando normalmente também o somático, fazendo como que todo esse processo se arraste, na maioria dos casos, até a morte definitiva, para não dizer por toda a vida. Então, podemos dizer, sem sombra de dúvidas que morremos muitas vezes antes de Tanathos chegar!

A ROSA DA MORTE


A Rosa da Morte
(Publicado no Jornal de Hoje, anteriormente)

Juarez Chagas


É engraçado (não no sentido cômico) como o Ocidente combate a morte, oculta, vela e a mantém afastada do seu meio educacional e acadêmico como se a mesma fosse o pior monstro da humanidade (e o pior é que acabou sendo mesmo!), mantendo sempre seu arsenal marcial a postos lado-a-lado da ciência no confronto duma guerra sem fim.
Enquanto isso, algumas sociedades ocidentais, cruzam suas pernas e distendem os braços em posição de lótus, fecham seus olhos e, mesmo com eles fechados, observam a morte com prudência, respeito e até aceitação. Temos aí duas visões diferentes de entendimento e enfrentamento, no que diz respeito às diferentes filosofias de vida, de duas das mais distintas regiões continentais que compõem o planeta terra. Uma dogmática, espiritual e teológica e outra científica e pragmática. No meio disso, o valor da vida e do desenvolvimento humano permeia, muitas vezes sem idéia do seu verdadeiro destino e objetivo final como realização individual e coletiva.
Mas, não podemos desconhecer o pensamento de alguns filósofos ocidentais que divergem do que poder-se-ia imaginar “pensamento normal ou comum”. Podemos citar o exemplo de Arthur Schopenhauer em seu famoso ensaio sobre a morte. Claro, que a idéia principal da maioria de meus artigos que versam sobre a tanatologia é trazer a questão educacional sobre a finitude humana para que possamos, diante do inegável e milagroso processo biológico, do qual a morte faz parte, conhecer bem esse fenômeno, para que possamos viver melhor sem a idéia da ignorância e dos conflitos que esta gera.

Recentemente, completou sessenta anos, portanto mais de meio século, de morte em massa populacional, duma parte de nosso planeta. A quase total devastação de Hiroshima e Nagasaki pelas bombas nucleares de urânio que a América derramou morte e pânico sobre toda população e que, na verdade, continuaram ainda espalhando morte e, psicologicamente, pânico nos primeiros anos que se seguiram.

A bomba jogada em Hiroshima, às 8:15hs de uma manhã de sol indiferente, varreu a cidade por nove quilômetros quadrados devastando cada pedaço num clarão mortal nunca visto antes. Cerca de setenta mil pessoas morreram imediatamente e nas semanas seguintes o número quase triplicou. Um verdadeiro massacre humano! No céu se desenhou uma gigantesca “rosa” de fogo e fumaça que, mesmo quem a viu por fotografia, jamais esquecerá, passando a ser chamada de cogumelo ou Rosa de Iroshima. "É o maior acontecimento de toda a História", disse se vangloriando, o então presidente dos EEUU, Harry Truman, assim que soube do bombardeio, que ele mesmo havia, de sã consciência, autorizado. Três dias depois foi a vez de Nagasaki, quando às 11:02hs de 9 de agosto (horário japonês) foi também quase varrida do mapa.

É impressionante como a ciência e tecnologia, sob o desejo humano do domínio e do poder, investe bilhões de dólares, para manter esse poder, nem que para isso seja necessário acabar com a vida de milhares e milhares de pessoas inocentes. Nem que para isso seja necessário convocar a morte, a quem por outro lado tanto combate. É um dos contra-sensos humano que por si só se explica ou pelo menos, tenta.

Mesmo do outro lado do mundo e, não tendo sofrido essa horrenda e vergonhosa mortandade, como protesto e com sensibilidade poética, o grande poeta brasileiro Vinicius de Morais escreveu cortantes versos que, na voz de Ney Matogrosso, os Secos e Molhados derramaram poesia angustiante, transformando “A Rosa de Hiroshima”, a rosa da morte, em canção e canto cálido, nos saudosos anos 70. Foi exatamente assim que Vinicius escreveu e os Secos e Molhados cantaram:

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas,
Pensem nas meninas
Cegas inexatas,
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas,
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas.

Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa, da rosa!

Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor, sem perfume
Sem rosa, sem nada

Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa, da rosa!

Diferentemente dos versos da canção, eu apenas diria, que procuremos esquecer daquela rosa e procuremos cultivar uma outra rosa, a rosa do amor e da vida.

juachagas@gmail.com

O MUNDO É DAS MULHERES


O Mundo é da Mulheres (Sempre foi…)
(Publicado anteriormente, no Jornal de Hoje )

Juarez Chagas

Tem se discutido muito ultimamente que o mundo é das mulheres e que elas poderão dominá-lo, definitivamente. Na verdade, eu pessoalmente acho que sempre foi e sempre será, apesar de muita contestação do mundo machista.
É fácil entender o óbvio: basta fazer um retrospecto, desde os primórdios e, observar que essa história de que a mulher surgiu de uma costela do homem foi apenas uma metáfora pra quem quiser entender a seu modo. A mulher sempre teve vida própria e, é importante lembrar, que tem o dom, poder e dádiva da maternidade, o que por si só já lhe confere condição ímpar. As mulheres, além de procriarem, não precisam provar pra ninguém que o amor e cuidado maternal para com a prole, distanciam-se imensamente do cuidado paterno, considerando as exceções, claro. Isso sem falar na sua qualidade de musa inspiradora.

Portanto, nesse item, mais uma vez, elas ganham em disparada. Por outro lado, as leis da sociedade foram estabelecidas pelo homem que, relegou sua companheira a segundo plano, através dos tempos. Pra se ter uma idéia, a primeira mulher médica só pôde realmente atuar, depois de muitos preconceitos, já no final do século XVIII. A propósito, no campo cirúrgico, há bem pouco tempo não tínhamos nenhuma cirurgiã. Ninguém confiava nas habilidades cirúrgicas da mulher. Adicione-se a isso as demais profissões ditas tradicionais e particularmente masculinas, tais quais engenharia, astronomia, dentre outras.

Trazendo a discussão e panorama para a atualidade, século XXI, é impossível esconder a realidade, pois a mulher avança cada vez mais, não apenas numericamente (sabemos que em todas as espécies animais as fêmeas nascem muito mais que os machos e, no ser humano não é diferente. É uma lei da Natureza que preserva e cuida da procriação), mas também em todas as áreas que se possa imaginar.

Nós homens, devíamos achar isso altamente positivo, partindo do ponto de vista que, mesmo com muitas conquistas e com toda a sapiência que o homem adquiriu e legado que tem deixado às gerações futuras, também fizemos muita bobagem e coisas que denigrem a condição humana, como as guerras, por exemplo. Não seria a hora de desejarmos ver o que as mulheres, além do que já nos têm proporcionado (tudo de bom...tanto é que sem elas não podemos e nem queremos viver) fariam melhor que os homens? Na realidade, nem há alternativa, pois isso irá ocorrer, queiram muitos ou não.

Por outro lado, há considerações a serem feitas. Fazendo uma analogia a determinados partidos políticos encabeçados pelos homens (o que na maioria é vergonhoso), estariam as mulheres preparadas para governar? Será que tudo aquilo que elas combatem, não irão, quando no poder, fazer pior? Eu acho que elas fariam bem melhor do que essa politicagem que está aí.

A propósito, li esse final de semana uma reportagem de um jornal local, altamente preocupante, cujas headlines traziam: “Beber até cair, vira desafio entre jovens”. E jovens nessa reportagem referiam-se às meninas ainda adolescentes que afirmam que estão “tomando todas” e até mais que os meninos. Ou seja, estão dominando o álcool, também. A iniciativa sexual, em muitos casos, também partem das meninas, que se mostram cada vez mais liberais. Ora, se o contingente de mulheres é numericamente maior que o de homens, isso terá um efeito dominante em pouco tempo. Aliás, há uma recente pesquisa feita em Natal, a qual constatou que a Cidade do Sol tem uma proporção de vinte mulheres para cada homem.

Sem considerar o comentário jocoso de um conhecido que sobre isso, disse: “nesse caso tenho direito a mais 19...”, isso (não a piada, mas o fato) confirma nascerem mais mulheres que homens, indubitavelmente. Os homens também, até agora, morrem mais e mais cedo. Essa é mais uma das razões pela qual elas vão dominar o mundo!

Agora, dominar o mundo não é brincadeira. Certamente, haverá guerra entre as próprias mulheres e, os homens serão disputadíssimos, entre outras regalias. E ainda pode ser feita a pergunta, caso elas passem as mãos pelos pés (o que não acredito) e ainda pisem na bola: “ é melhor agora, ou antes, quando o homem era manda-chuva” ?


O MUNDO É DAS MULHERES


O Mundo é das Mulheres (II)
(Publicado anteriormente, no Jornal de Hoje )

Juarez Chagas


Sobre o Artigo anterior, cujo título é o mesmo, recebi alguns e-mails de algumas mulheres (nenhum de nenhum homem, sobre este tema...pelo menos até o momento), comentado e concordando praticamente com quase tudo que no artigo foi abordado. Mas, façamos uma pausa para a seguinte conjectura futura...
- Tragam a ré, imediatamente! Brada a juíza aguardando uma jovem mulher, mais ou menos 32 anos, acusada de vários homicídios e formação de quadrilha composta por mais vinte suspeitas, as quais se encontram foragidas. O júri é composto por quatro mulheres e um homem que, calmamente aguardam a acusada, não somente pelas advogadas de acusação e de defesa, mas por uma platéia composta de 98% de outras mulheres, ansiosas, pelo resultado final.

Lá fora, a mídia aguarda o resultado enquanto as repórteres, camerawomen, motoristas, contra-regras, editores de imagens, enfim várias equipes, todas compostas por mulheres, formam um aglomerado que mais parece um movimento grevista. Por falar em greve, as principais montadoras de automóveis, robótica e outros equipamentos essenciais à sociedade moderna, também ameaçam paralisar seus serviços, pois a presidente do país não cumpriu com suas promessas de campanha sobre o salário mínimo e várias ações sociais, as quais dizia defender, veementemente quando se encontrava em lado oposto ao governo. Também o congresso, cuja maioria indiscutível é composta por políticas representantes de seus Estados...também as reitoras das universidades públicas pressionam o governo para melhores condições de trabalho e aumento para as professoras (e professores) que ameaçam paralisar suas atividades acadêmicas, isso porque suas rivais das instituições privadas, caminham a passos largos. Por outro lado, programas espaciais foram adaptados às condições femininas e, agora para que um astronauta homem consiga fazer parte da tripulação feminina, em viagens espaciais e outros programas rumo a outros planetas, têm que passar por todos os testes que as mulheres passaram, inclusive “intuição feminina”...coitados dos protótipos schwarzeneggers e demais exterminadores do futuro.

Concomitantemente ao julgamento da suposta chefe da quadrilha feminina, realizam-se vários fóruns internacionais, em todo o mundo, sobre sustentabilidade do planeta e, parece que apontam o homem como sendo o principal criminoso ambiental na terra, água e ar. Enquanto isso, pesquisas genéticas, principalmente sobre “o ser humano do futuro”, analisa as novas possibilidades de um novo protótipo de homem, uma vez que as mulheres estão satisfeitas com sua condição biopsicossocial moderna e, principalmente por comandar os mais importantes centros de estudos e pesquisas sobre a humanidade e suas potencialidades. No modo de pensar delas é preciso um novo homem...

Mesmo na imaginação, não sabemos o veredicto final sobre o julgamento da jovem mulher de 32 anos, porque foi uma situação hipotética. Mas, não é hipótese nenhuma o avanço das mulheres em todas as áreas da sociedade. E elas estão bem conscientes disso. Parece que o mundo masculino ou parte dele, é que ainda não acordou para tal fato.

Por outro lado, existem algumas coisas que “enaltecem” as mulheres, com as quais não concordo muito, por serem desnecessárias. Por exemplo: O Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de Março...Vejo tal fato muito mais como uma estratégia política, encampada pela mídia, do que propriamente uma homenagem às nossas queridas mulheres. Outra coisa, pularam por cima do dia Nacional da Mulheres e resolveram fazer uma corrente mais abrangente em todo o mundo, como se lembrassem da mulher apenas uma vez por ano, além do dia das Mães. Na verdade, a mulher não precisa de dia internacional nenhum, pois ela por si só, deveria ser homenageada todos os dias, pois todos os dias são seus. Como diz o título, o mundo é das mulheres.



27 de mai de 2008

A Cor da Morte


A Cor da Morte

* Juarez Chagas

* Chagas, J., Professor do Centro de Biociências da UFRN; Mestre pela EPM/UNIFESP; Doutorando em Psicologia Universidade Aberta de Lisboa.


Resumo

O atual e crescente interesse sobre o estudo da morte tem culminado com vários estudos e pesquisas sobre este misterioso e palpitante assunto, em todo o mundo. O presente trabalho tem como principal objetivo apresentar, através de resultado de pesquisa realizada durante três anos, que outras cores que representam a morte, que não as tradicionais e estigmatizadas, tais quais preto, marrom, cinza e outras tonalidade escuras, outras cores, não tradicionalmente relacionadas a este fenômeno e tabu, também podem representar a morte dependendo de sua representação no imaginário individual, o que ocasiona a possibilidade de se imaginar a morte em diferentes cores. Para isso, usamos um questionário aplicado a estudantes da área de saúde, durante três anos, utilizando apenas duas perguntas básicas: Qual a representação da morte? e Que cor você atribuiria a morte?
Para chegarmos a esta conclusão, o presente trabalho teve também que rebuscar os diversos conceitos de morte, segundo as diferentes culturas e como a mesma é vista, tanto do ponto de vista individual quanto coletivo, justificando assim o medo que a morte imprime em cada um de nós, inclusive nas cores que a representa.

PALAVRAS-CHAVE: morte, cor, psicologia.


Abstract

The present and growing interest about studies on death has been brought many researches and Works nowadays, about this so-called mysterious and frightful subject, as a result, all around the world.
The main purpose of this article is bringing a new look and a new feeling of colors concerning death, because as we know, the colors that have represented death throughout history, from the beginning up to now, because of cultural aspects, are dark colors specifically, such as black, brown, gray, purple and other mixed dark ones. This study is a result of a three year basic research where the instrument used was a self-report questionnaire, with only two questions: What is the representation of death? And What color would you give death? The result showed that there is still an almost unbreakable taboo which frightens us even when represented by colors.

KEY-WORDS: Death, color, fear, Psychology.


Desenvolvimento

Certamente, algumas pessoas ao lerem esse artigo poderiam perguntar: “E morte tem cor?”. Sim, morte tem cor. Demonstra essa afirmação é o objetivo desse trabalho, resultado de uma pesquisa básica no que diz respeito à Psicologia das cores, se é que assim podemos dizer.
Segundo as pesquisas e trabalhos de Farina (1986) sobre a psicodinâmica das cores, podemos ver claramente a tamanha influência e importância das cores, na vida do ser humano, tanto no campo da Biologia, quanto no âmbito da Psicologia, propriamente dito.

A Importância das cores em nossas vidas vai além da captação de estímulos luminosos sensoriais codificados pelo cérebro, pois a sensação final acha-se intimamente desencadeada em nossa alma, ou psique, determinando percepções e sentimentos que vão além do que os ossos olhos vêem. A vida sem cores certamente teria um outro sentido, caso nossas retinas fossem incapazes de detectar os raios coloridos das ondas luminosas que a Natureza nos proporciona em sua magia de cores naturais, assim como também nas cores artificiais produzidas pelo próprio homem ao longo do tempo. Se assim fosse, talvez víssemos a vida como num filme em preto e branco. Ainda bem que não é assim e, não contrário, nossas vidas são iluminadas por cores que vemos, sentimos e delas desfrutamos o prazer de suas sensações e emoções. Porém, por outro lado também podem causar angústia.

Pesquisas, tanto no âmbito da Biologia quanto da Psicologia, como as de Jaspers (1951) e Kolck (1971), só pra citar esses dois, concluíram em diversos estudos, que há uma íntima relação das cores com aspectos biológicos e, igualmente, psicológicos do ser humano. Sabemos, por exemplo, que a cor da pele muda com a idade; as diferentes raças (se é que podemos separar grupos sociais de pessoas em raças por cores, segundo suas origens étnicas) e seus pigmentos exercem uma atração e poder psico-sensorial nas pessoas, assim como, as cores também podem influenciar em determinadas atitudes e comportamentos, sem contar que cada pessoa capta detalhes coloridos do mundo exterior, de acordo com seus sentimentos e sensibilidade. Senão vejamos: o branco repele luz e dá idéia de paz; o preto é o contrário, absorve luminosidade e para a maioria simboliza o sinistro; o vermelho pode significar perigo, paixão ou sentimentos excitantes; o verde suave acalma; azul, pureza e fé; já o amarelo, atenção medo e assim por diante.

Por outro lado, não é de hoje que sabemos que as cores também estão associadas à morte, assim como à vida, só que de maneiras diferentes. Histórica e culturalmente a associação de cores escuras, como preto, cinza e marrom, está culturalmente associada à morte ou às coisas sinistras. Porém, é importante lembrar que cada grupo social tem a sua.

Resultados

A simples pesquisa que realizamos como estudantes universitários da área da saúde confirma que as cores se acham relacionadas à morte e mais ainda, que não apenas as cores consideradas convencionais a esse respeito, porém cores diversas, dependendo de determinadas situações. Da população total de 1.200 (mil e duzentos) alunos, foram selecionados aleatoriamente 300%, cujo percentual foi de 25%, o que representa uma amostra estatisticamente significativa. Assim sendo, foi constatado que 41% idealizaram a morte como sendo preta, marrom 6%, roxo 5% e cinza 2%, completando assim, o leque de cores consideradas “sinistras” ou fúnebres. Em relação às outras cores, obtivemos uma variação bastante interessante: branco 30%, azul e vermelho 2%, verde e amarelo 1%. Já em relação à primeira pergunta “Qual a representação da morte?” (cujo resultado em gráfico acha-se ausente), foi constatado que 79% apontou a caveira ou esqueleto revestido com sua capa preta, como sendo a figura representante da morte. Atribuímos a esse resultado, a herança cultural fortemente incutida no imaginário individual e coletivo das pessoas que não aprenderam a imaginar, simbolicamente, a morte de outra forma.

Uma variante interessante dentro da pesquisa é que podemos considerar alguns casos isolados, através de questões individuais e não coletivas, devem ser vistas como fatores importantes dentro do contexto da subjetividade individual de cada um. Um ator de teatro respondeu, por exemplo, que para ele a cor que reapresenta a morte é o amarelo. Como o questionário pedia opcionalmente uma sucinta explicação para cada resposta, abaixo de cada questão, o mesmo explicou ter presenciado o desabamento de um palco onde vários amigos morreram e que a parede existente nesse palco era pintada de amarelo. Desde então, ele passou a associar a morte à cor amarela, indiscutivelmente.

O mundo das cores habita nossas vidas, assim como também habita como imaginariamente pintamos a morte. O que ainda falta é trazermos a discussão sobre o fenômeno da morte para o âmbito escolar e acadêmico, em todos os seus aspectos, para que, com a desmistificação desse tabu, o qual ainda é o maior existente em nossa história, para que possamos, uma vez mais informados e educados, vivermos mais e melhor, independentemente das cores que possam pintar o fim. Por Falar em fim, uma pergunta interessante, porém curiosa: alguém já viu a palavra FIM ou “THE END”, no final dos créditos ou cast de um filme, de outra cor que não a preta? Parece que a cultura continua vencendo...
(Artigo publicado em PSICOLOGIA BRASIL, Ano 4, N 28 Fevereiro/2006. O blog nao comporta os gráficos referentes aos resultados desta pepsquisa, porém o quadro do autor, que aparece ao lado deste artigo, também acha-se presente na revista).



REFERÊNCIAS

ARIÈS, P. História da Morte no Ocidente: da Idade Média aos nossos dias. Ediouro, RJ, 2002.

FARINA, M. Psicodinâmica das Cores em Comunicação. Ed. Edgard Blütcher Ltda, 1990.

JASPERS, K. Psicopatologia General. Beta, Buenos Aires, 1951.

MORIN, E. O Homem e a Morte. Imago, RJ, 1997.

KASTENBAUM, R & AISENBERG, R. Psicologia da Morte. Novos Umbrais, SP, 1983.

KOLD, T. V. Vivência e Cor. Boletim Psicologia, XXIII, 61, 1971.

24 de mai de 2008

O Pistoleiro do Pôr-do-Sol



PISTOLEIRO DO PÔR-DO-SOL
(The Real Last Gunfighter)

Juarez Chagas

Ter encarado o desafio de escrever um romance ao estilo do velho Oeste (diferentemente dos romances e ficção contemporânea que escrevo) foi uma idéia que surgiu com o tempo. Havia muita coisa background que suportava esse projeto, como ter lido a maioria dos romances de Zane Grey e outros grandes romancistas do velho Oeste americano, referências inspiradoras do gênero.

O fascinante mundo das Histórias em Quadrinhos dos clássicos westerns com seus heróis de papel fascinantes que eram incansavelmente lidos, desenhados e colecionados também serviram de inspiração. Adicione-se a isso a importante possibilidade de escreverr também sobre outros temas que não apenas romances contemporâneos.

Portanto, apresento (já lançado nas livrarias de Natal e João Pessoa), embora direcionado mais a um público específico, o Pistoleiro do Pôr-do-Sol, um romance no velho Oeste, onde a Natureza Humana é colocada à frente dos revólveres.

Um pouco da personagem:

Johnny Slim, filho de uma pacata família de fazendeiros, ao norte do Texas, segundo de uma prole de três irmãos, foi batizado John Scott River. Entretanto, por ter crescido mais do que os irmãos e, também pela magreza que apresentava na adolescência, passou a ser chamado carinhosamente de Slim (magro), pela família. Embora, depois, tenha se tornado um homem forte e robusto, Johnny Slim passou a ser seu verdadeiro nome.

Como fazendeiro que era, seu pai criava gado, tinha juntamente com os filhos e seus empregados rotina de cowboys, mesmo no início do século XX e promovia, inclusive rodeios. Em um desses rodeios, chegou a conhecer o próprio Buffalo Bill (William Frederick Cody), já no fim de sua carreira, em 1915, quando o mais famoso cavaleiro do Oeste, viajava com seu circo intinerante, representando a si mesmo como herói verdadeiro e de ficção. O sr. James Scott River gostava de contar que Slim, nessa ocasião ainda um garoto, apertou a mão de Bill, cumprimentando-o.

Slim é o segundo filho e nasceu num dia de chuva, trazendo muita alegria para a família. Aos dezoito anos serve as forças armadas, onde aprende a usar armas de fogo e quando volta, passa a ser um verdadeiro cowboy e a defender seu território contra ladrões de gado e assassinos, que ainda existem nessa época em que os índios “se aposentam” e vivem de favores do governo e dos homens brancos.

Johnny Slim, senão o último, é um dos últimos pistoleiros do Oeste, pode-se dizer, dos tempos considerados modernos para a lei do revólver e tudo começa quando ele resolve procurar seu irmão mais novo, o qual teria sido aliciado por bandidos, enquanto ele servia o exército. Slim promete a seus pais que só voltaria pra casa quando encontrasse seu irmão, nem que para isso tenha que percorrer todo o Oeste. E como nunca consegue encontrá-lo, jamais retorna para a família. Em conseqüência disso, enquanto anda muito como um cavaleiro solitário, de um lugar para outro, encontra uma moça que lhe rouba o coração e vive muitas emocionantes aventuras.
Onde encontrar o livro:
Prefácio Livros: Tambiá Shopping – Centro e Mag Shopping Manaíra (João Pessoa)
Cooperativa Cultural (Campus) e Siciliano Midway Mall (Natal)

juachagas@gmail.com

17 de mai de 2008

A Morte Veste o Manto da Inveja

A Morte veste o manto da inveja

(Publicado no Jornal de Hoje, anteriormente)


*Juarez Chagas



Em recente artigo falamos sobre a mais conhecida e aceita imagem ou representação da morte, a do esqueleto envolto com sua capa preta, empunhando sua foice e montando seu sinistro cavalo que voa com o vento. É uma representação contida no imaginário individual e coletivo do ser humano, há séculos! Entretanto, é bom saber que a morte pode assumir qualquer representação momentânea ou situacional, pois ela é tão sagaz e sutil como nossa imaginação e pode muito bem escolher qualquer situação, qualquer coisa na qual possa se travestir, assumindo sua forma. Nesse sentido, podemos dizer também que a morte veste o manto da inveja. A inveja, segundo pecado capital, tem origem teológica e antropológica em diferentes momentos da vida humana, compondo assim a coleção dos sete pecados capitais: cobiça, inveja, luxúria, ira, gula, orgulho e preguiça.

Na verdade, a inveja é tida como um dos mais vis dos sentimentos humanos que, pela sua capacidade de destruição, tem sido considerada uma patologia comportamental e por causa disso requer até tratamento psíquico. Etimologicamente é importante a noção da palavra “inveja-s.m. (Latim, invidiam). Misto de ódio e desgosto provocado pela propriedade ou alegria de outrem; desejo de possuir um bem que outrem possui ou desfruta”. Mas, não basta saber o que ela significa técnica e ortograficamente. É preciso entender o que realmente a inveja representa, o que pode causar e, melhor ainda, dela se livrar!A questão aqui não é apontar discas ou receitas de como identificar um invejoso ou uma invejosa, porque isso compete a cada um de nós saber fazê-lo. Aliás, é vital, não apenas identificar, mas também se livrar do invejoso. Entretanto, para isso é muito importante que saibamos perceber os sinais.
A propósito, estamos sempre recebendo sinais sobre tudo em nossas vidas, nós é que os negligenciamos. Saber entender, detectar e lê os sinais é uma obrigação vital, pois por essa razão possuímos percepções e delas depende nossa sobrevivência e sucesso. Infelizmente, negligenciamos tanto nossos sentidos e percepções quanto negligenciamos os sinais. Nosso soma e nossa psiqué existem para nos inteirar ao ambiente, tanto o ambiente que nos cerca quanto nosso ambiente subjetivo, emocional e mental. Sem esse entendimento, estamos fadados a tudo o que é negativo.
A inveja é tão importante em nossas vidas, do ponto de vista do conhecimento que a ciência, a exemplo da religião, resolveu também se preocupar com ela. A psicanálise, por exemplo, tem dedicado uma boa parte de seus estudos à inveja. Freud, Melanie Klein e outros estudiosos do comportamento humano deram sua grande contribuição a estudos sobre o assunto. A Psicologia também destina grande parte de sua atenção à essa questão.
Na verdade, podemos ver que a inveja pode estar dentro de cada um de nós e também dentro dos outros pecados capitais, além de ser ela própria. E é aí que reside a gravidade de todo o contexto, pois ela é altamente destrutiva, tanto para quem tem a inveja dentro de si, como para quem é invejado e sofre suas mais desastrosas conseqüências. Mas, deveríamos bem notar o invejoso de longe porque ele próprio se denuncia duma forma ou de outra. Muito embora suas características sejam diversas e ecléticas. E reside aí a importância dos sinais. Existe o invejoso aniquilador e esse diz logo a que veio: destruir você no primeiro round; existe o oposto desse, que ao contrário, se aproxima de você como uma hiena faminta. É gentil como você, rir de todas as bobagens que você fala, faz questão de ser seu “amigo”e elogiar as coisas mais absurdas que você possa praticar, enquanto afia as garras sem nenhum ruído para enfiá-las em você, no momento certo. Existe aquele que surge de repente, muito embora já estivesse lhe sondando há séculos! É aquele que sabe tudo sobre você, se brincar, mais do que você sabe sobre você mesmo. Existe aquele com que você cruza somente eventualmente, mas que lhe espreita à distancia e quando lhe vê imagina consigo mesmo “eu ainda chego lá também...” mesmo que, aonde você vá seja o pior lugar do mundo. O que ele quer é competir como você por uma questão de necessidade que vai além da inveja. Digamos que esse tipo possa até apresentar alguma grau de psicopatia. E aquele que quer ser você em tudo? Já se deparou com o tipo? Então se prepare que vai encontrar um dia. Se ele pudesse teria até o teu nome ao contrário para quando chamar repetidas vezes sem parar soar exatamente igual. Sabe aquela brincadeirinha boba de dizer “você amo...” repetidas vezes e termina dizendo “amo você”? É exatamente isso. Esse tipo quer ser você de qualquer jeito. E o perigo reside em tudo que diz respeito a você. Ele se aproxima da tua família, dos teus amigos, procura um trabalho parecido só pra freqüentar o mesmo ambiente. Existe o irmão desse também, que quer ser você, mas não se aproxima. Ao contrário, ele tenta te personificar, Usa o mesmo carro e o mesmo perfume. Freqüenta os mesmos ambientes. Tudo isso a uma certa distância. Faz amizade com os teus amigos até chegar o ponto que as pessoas começam a desconfiar que quem tem inveja dele é você. Aí já é tarde. Daqui que você consiga provar que é o contrário, irão achar você a mais ridícula das pessoas. Você pode até parar na terapia pra poder justificar a você mesmo que você é você e não ele e, correr o risco de ouvir o terapeuta te dizer “Você sofre de inveja”.
É meu caro e minha cara...da inveja ninguém se livra. O importante é que tenhamos também uma proteção energética antagônica à inveja, que pode até ser uma capa protetora, para podermos enfrentar esse tipo de morte que também veste a capa da inveja, matando a dignidade do ser humano, pondo fim no seu sentimento mais nobre, o amor à vida e ao próximo, que é o oposto da morte.


* Professor do Centro de Biociências da UFRN (juachagas@gmail.br)

15 de mai de 2008

SCARAMOUCHE (II)

Scaramouche (II)
*Juarez Chagas

Scaramouche volta no artigo de hoje a pedido de pelo menos três leitores, para saber mais a respeito dessa grande novela romântica que encantou a Europa e o mundo, após a Revolução Francesa.
Na verdade, o romance literário Scaramouche, de Rafael Sabatini escrito em 1921, apesar de manter o cerne da questão pré-revolucionária da França, vivida por um inquieto jovem aristocrata, com conflitos de ordem paterna, difere em muitos aspectos de Scaramouche, o filme. Neste último, além do excelente roteiro de Ronald Millar, do aspecto visual das locações, trajes da época e da beleza de uma França saudosa, o expectador pode também se deleitar com o modus vivendi de uma nação que respirava revolução por novos tempos, tendo a arte, principalmente através do teatro e da literatura, seus principais meios de contestar um reinado opressor do povo. Era preciso um ou mais heróis...e assim, surge Scaramouche, no momento certo para, de uma forma tão hilária quanto séria, contestar um reinado vitalício da nobreza que, na verdade, vivia às custas do povo, mas o oprimia como se fosse dever deste servi-lo e obedecer suas leis ultrapassadas.
Mesmo tendo conhecimento do teatro ambulante de Binet, o mais famoso da França, na época, André Moreau, sendo também um artista de teatro ambulante, jamais imaginara que iria, sob circunstancias adversas (pois estava sendo perseguido pelos homens de De Maynes), ter contato com este teatro, já encenando forçosamente, uma peça, no lugar do mais famoso palhaço da França, o qual, por motivos de embriagues não conseguia mais cumprir com seus compromissos artísticos. Na verdade, o verdadeiro Scaramouche era também um fracassado revolucionário, fato este desconhecido pelo próprio elenco de Binet.
Quando fugia dos homens de De Maynes, por ser amigo de Marcus Brutus (o amigo subversivo cujos pais criaram André, também) e estar visitando Aline de Gavrillac, a jovem protegida do Marques de De Maynes e, por quem André Moreau se apaixonara à primeira vista, esconde-se nos bastidores do teatro de Binet, onde ao entrar no camarim do teatro, se depara com Scaramouche, totalmente embriagado e esperando para ser chamado para entrar em cena, no palco. Ao perceber André entrar inesperadamente nos aposentos, o palhaço que, mal consegue ficar em pé, age como se estivesse em frente ao público, pois imaginara que André tivesse vindo arrastá-lo para o palco. Vale a pena lembrar este primeiro e decisivo encontro de André Moreau com Scaramouche, personagem que seria seu, a partir deste dia.
-Bem-vindo, amigo! Mil vezes bem-vindo! (André responde com Pssiuu, olhando para os lados para certificar-se que os soldados de De Maynes não estavam por ali).
- Pssiuu pra você, também. Mil vezes Pssiuuu! Qual é o seu nome? (ao invés de responder André passa o ferrolho na porta, o que causa um barulho característico).
- É mesmo?... Prazer em conhecê-lo (como André não lhe dá atenção, o palhaço se aproxima com dificuldade, para olhá-lo de perto).
- E qual é o meu nome, pergunte-me! Quem sou eu? (André gesticula com a mão, demonstrando preocupação com o ambiente, olhando para todos os lados).
- Não está interessado... Nesse caso, devo me apresentar a mim mesmo. Você sabe quem é esse? (André finalmente, olha o palhaço em sua eloqüência teatral, porém bêbado).
- Scaramouche! Sim, Scaramouche. Mas, quem é Scaramouche? E porque ele esconde seu rosto atrás de uma máscara? Você não sabe? Então, vou lhe mostrar...(Então, tira a máscara que esconde o rosto mais feio que André já vira, até então...)
- Scaramouche é...(cai desmaiado, enquanto André ouve, lá fora, os homens de De Maynes se aproximarem).
A partir daí começa (não somente para André, que troca de roupa com o palhaço para se livrar dos soldados e é levado subitamente pelos outros atores para o palco, mas para todos que acompanham a história), a verdadeira epopéia de Scaramouche, em sua luta, busca e revelação de sua verdadeira identidade, em combater seu pior inimigo e, ainda por cima, protetor de sua amada, por ordem da Rainha. Mas, agora André, leva avante a causa revolucionária de seu amigo, fazendo justiça a tríade Égalité, Fraternité, Liberté. Para se esconder da lei, junta-se a trupe itinerante da Commedia dell'Arte de M. Binet. Mas seu sonho é agora dominar a espada, conquistar seu amor e se vingar do tirano De Maynes, que no final das contas é seu irmão e, nenhum dos dois sabia, antes do magistral duelo entre ambos, culminando com a vitória de André. O pai de seu amigo e que o criara também como filho, o procura e conta-lhe toda a verdadeira história. André é filho bastardo do Marquês de De Maynes, pai do Noel De Maynes, atual marquês da Rainha, sua prima.
Ironias do Destino à parte, Scaramouche foi, em seguida adaptado na peça de Barbara Field e também nos clássicos cinematográficos, tendo sido sua primeira versão em 1923, estrelado por Ramón Novarro, e refilmado em 1952 com Stewart Granger, dirigido por George Sidney. É um clássico da Literatura e da Sétima Arte, conseguida hoje, apenas com colecionadores do gênero. Mas, mesmo assim, vale a pena conseguir, ler e ver!
Professor do Centro de Biociência da UFRN (Juarez@cb.ufrn.br)

SCARAMOUCHE

Scaramouche
* Juarez Chagas

“Ele nasceu com o dom do riso e com a impressão de que o mundo era louco”. Essa é a famosa frase de Sabatini, a qual abre as filmagens de Scaramouche, filme norte-americano, dirigido por George Sidney em 1952, desses que ainda hoje perguntamos porque não foi laureado com o Oscar, enquanto muitos outros, de inferior qualidade, foram.
Pois é, revi mais uma vez, neste final de semana, esta fascinante história de capa e espada, baseada na obra homônima escrita em 1921, por Rafael Sabatini (1875-1950).
O filme começa mostrando o melhor espadachim da França, em ação, o Marquês Noel de Maynes (interpretado por Mel Ferrer), então primo da rainha da França Maria Antonieta (Nina Foch), durante seus exercícios matinais que na realidade, são verdadeiros duelos de capa e espada, com seus desafetos. Uma comitiva da Rainha interrompe os duelos de De Maynes, entregando-lhe uma ordem para que se apresente, urgente, à Rainha, a qual tem recebido subversivos panfletos que denotam a insatisfação do povo contra os poderosos da França. Os panfletos com as palavras de ordem Liberté, Égalité, Fraternité, avisam que a revolução está próxima.
Sob essa temática e inspirado no desejo do povo, Sabatini escreveu Scaramouche, o Fazedor de Reis (Scaramouche, the King-Maker), muito bem captado por George Sidney, o qual já havia filmado, com sucesso, Os Três Mosqueteiros. A história desenrola-se na França pré-revolucionária, onde Marcus Brutus (que na verdade é o pseudônimo de Philippe de Valmorin (Richard Anderson), filho do casal que criou André Moreau) é apenas mais um dentre milhares que desejam o fim da aristocracia. Finalmente, o Marquês De Maynes consegue deter o panfletário, que está em companhia de André Moreau e que o vê ser assassinado em seus braços. André (magistralmente interpretado por Stwart Granger), jura vingar o amigo a qualquer preço, mesmo que para isso tenha que mudar toda a sua vida, como realmente foi o que aconteceu, de desconhecido passou a ser conhecido.
Moreau, além de não saber se defender com uma espada e viver com uma trupe de atores mambembes tem outros conflitos, principalmente de identidade, pois já aos 30 anos, não descobrira ainda quem são seus pais. Pressiona o advogado Fabian, que lhe dá uma pensão misteriosa por ser filho bastardo e, este acaba indicando o nome de seu pai, o Conde de Gavrillac. No caminho à mansão dos Gavrillacs conhece Aline (Janet Leigh), por quem se apaixona, apesar de namorar Leonore (Eleanor Parker), a atriz do teatro ambulante. No meio a tudo isso André é surpreendido pelos homens de De Maynes que o perseguem até que o mesmo se esconde nos bastidores do Teatro de Binet, o mais famoso da França, no momento. Lá ele encontra, totalmente embriagado Scaramouche, o palhaço mais importante do teatro, cuja máscara esconde o rosto mais feio, até então já visto. Para fugir, André troca de roupa com Scaramouche, mas sem que ninguém soubesse é levado para o palco. Surpresa: consegue proporcionar, inclusive aos guardas do Marquês, um dos melhores shows que o teatro já tivera, sendo assim, convocado a interpretar Scaramouche, dali por diante.
André frustra-se ao descobrir que Aline de Gravillac seria sua irmã e, pior ainda, que ela está sendo amparada por De Maynes, seu pior inimigo. Assim, entre o amor dela e de Leonore, fica mais confuso ainda. Entretanto, resolve aprender a arte do espadachim, pois somente assim poderia enfrentar seu inimigo. Assim sendo, passa a ter aulas com o mestre do próprio De Maynes que, num belo dia, o surpreende num dos treinamentos. Irado, De Maynes força um duelo e, ao vencer André já o ia matar quando Aline aparece, salvando André que escapa no meio da noite.
André não desiste e procura o mestre dos mestres, Perigone de Paris, o qual havia ensinado ao próprio Doutreval di Dejean, que por sua vez havia ensinado a De Maynes. Para isso, leva o teatro para Paris, onde De Maynes em breve se casaria. E é exatamente lá, durante um show do teatro de Binet que De Maynes se acha presente e, quando então Scaramouche deixa o palco para desafiar o marques perante a casa lotada. Até hoje, foi essa a luta de capa-e-espada mais longa que o cinema já teve. André vence De Maynes, mas não consegue matá-lo. Decepcionado por não ter conseguido cumprir a promessa, saiu correndo. Na noite seguinte, volta sozinho, desolado, ao teatro e tenta descobrir o que houve consigo, pois não conseguira matar seu pior inimigo. Georges de Valmorin, pai de Philippe de Valmorin (Marcus Brutus), que o criara desde pequeno, revela-lhe o segredo que faltava: André é irmão de De Maynes e não de Aline, como imaginara. Final Feliz.
Professor do Centro de Biociência da UFRN (Juarez@cb.ufrn.br)

12 de mai de 2008

O CORPO OCULTO



UMA HISTÓRIA QUE VAI ALÉM

DO CORPO E DO ESPÍRITO



(Uma tese Acadêmica transformada em ficção)

* Por Waleska Maux

O biólogo, psicólogo e professor universitário Juarez Chagas, disponibiliza na Paraíba (Livraria Siciliana) a obra “C.D, O Corpo Oculto” (223 págs, A.S.Livros), uma ficção romanceada que traz à tona o valor do descobrimento dos valores da condição e natureza humanas, porém cheia de ardilosas tramas que permeiam do imaginário à realidade dos protagonistas, onde o corpo também serve de interface na história e do próprio desenvolvimento humano.
No livro, através do ‘cadáver desconhecido’, o autor aborda a questão da morte, tratada de forma quase acadêmica, porém como lição de vida e de sua importância na trajetória da humanidade.

Trata-se de uma história de amor inspirada nas possibilidades do Destino sobre a natureza humana. Uma trama de vingança incomum numa família, temperada pela inveja e suas devastadoras conseqüências. Uma história que transita pelos mistérios da vida após a morte, para falar da força e do valor da amizade, além do poder misterioso do espírito sobre todas as demais energias capazes de formar e desintegrar os seres em nosso universo.
A história de Douglas Santos, um jovem que, de forma cruel e inesperada, vê-se impedido de viver um grande amor, vítima de um plano diabólico. Sobrevivendo à morte, no plano espiritual, ele retorna na pele e corpo do Cadáver Desconhecido (pois é enviando como tal, para uma universidade, para ser dissecado nas aulas de anatomia).

O livro, segundo o autor, faz lembrar tramas como os clássicos de alguns personagens do gênero como A Múmia, Ghost, O Corvo e O Homem Sem Face, todos clássicos internacionais da literatura e também do cinema.

Sobre o fenômeno da morte, cita o autor em um de seus trabalhos científicos: “Parece muito mais fácil saber e entender o que as pessoas sentem em relação à morte do que, propriamente, defini-la. Uma coisa é certa, por mais inaceitável e absurda que possa parecer na concepção pessoal de cada um, a morte complementa a vida, assim como o medo é o lado oposto da coragem e o mal do bem, formando ambas, no entanto, um todo”.

Impressões

O Corpo Oculto prende o leitor do inicio ao fim da trama. Douglas, personagem simpático e de temperamento calmo e controlado, é vitima da trama ardilosa de um primo ambicioso, que consegue ceifar sua vida precocemente.
Interessante também, a sensibilidade de Pitágoras, técnico de laboratório, que nutre um zelo afetuoso pelos cadáveres da Universidade. Entre ele e Douglas, cria-se um laço de afeto e amizade ultrapassando as barreiras da vida e da morte. Pitágoras lembra uma versão moderna de Quasímodo, segundo nos fala o autor.
A ambição é abordada em vários campos, inclusive no meio acadêmico, assim como os requintes de crueldade do psicopata Teobaldo, primo do personagem principal do livro, que chega a dissecar alguns inimigos, num ritual pra lá de cruel.

O livro não é de terror, ao contrário, mostra-nos a face negra da morte e a face oculta do amor, num duelo que busca o equilíbrio das duas forças. Não deixa de nos provar que, tanto a morte como o amor, são formas de desenvolvimento do ser humano. Força oculta.
Vale a pena mergulhar neste enredo que traz o bem e o mal ao mesmo cenário e confronta-os num espiritual campo de batalha.
Em um dos capítulos, viajamos ao Fantasma da ópera, através de um grande concerto que tem, entre seus participantes, por alguns instantes, o adorável Douglas, que incorpora num corpo sem vida, o talento que lhe é peculiar para agradar a sua amada que está na platéia, através da execução de Vozes da Primavera, de Strauss. Emocionante...

Quem gosta das coisas do amor e quem quer entender mais sobre a morte como desenvolvimento humano, eis um bom livro.

Quem é o autor

Biólogo, psicólogo, professor universitário e escritor.
Ao longo de sua carreira como professor de Anatomia Comparada, na Universidade Federal do RN, escreveu “Anatomia Comparativa dos Vertebrados, publicado pela Editora Universitária da UFRN.
Em 2001, recebeu o premio de melhor argumento/roteiro ao filme na II Mostra de Vídeo no FestNatal com o video “O outro lado da Esquina” .
Desde 2004, Chagas é articulista do Jornal de Hoje (RN), onde escreve sobre assuntos diversos, em especial, abordando a Tanatologia (estudos sobre o fenômeno da morte).
Em 2006 lançou com sucesso seu primeiro livro de ficção romanceada “C.D, o Corpo Oculto”, o qual teve excelente repercussão no meio literário local.
Embora esteja no Brasil estes meses, atualmente cursa doutorado em terras lusitanas, defendo tese que aborda a Psicologia Social.

Onde encontrar o livro: Siciliano, Poty, Cooperativa Cultural (Natal)
Prefácio Livros: Tambiá Shopping – Centro e Mag Shopping Manaíra (João Pessoa)

* Jornalista