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3 de abr de 2010

PUNIÇÃO, TRANSIÇÃO, PERDA

Punição, Transiçao, Perda
*Juarez Chagas

Sempre falo para meus alunos ou para o público em palestras que, um dos melhores livros atuais, no âmbito da Biologia, sobre a questão da vida e da morte, é o Ciclo da Vida, de Helen Bee, publicado no Brasil, pela Artmed (1997, 656 pgs). No entanto e infelizmente, o mesmo sequer consta da lista bibliográfica para bibliotecas do Ensino Médio,nem tão pouco é indicado para os cursos de Ciências Biológicas, em nosso país.

Helen Bee é mundialmente conhecida por seu livro "O Desenvolvimento da Criança", mas também escreveu vários livros sobre o desenvolvimento humano, como um todo. Atualmente com 70 anos de idade, ainda é convidada para palestras em todo o mundo.

O cap 19, o último do livro, intitulado O Ato de Morrer, a Morte e a Consternação aborda exatamente os limites e as barreiras orgânicas do ser humano, porém sobretudo o sentido da vida e da morte, a nível subjetivo e psicológico, ao longo do ciclo vital.

Essa ideia de morte como punição, por ser mau ou pecador, veio meio embutida na filosofia religiosa, pois nos primórdios desse entendimento era comum se pensar na morte como um castigo pelos pecados cometidos. Corroborando o exposto, é comum observar-se que as crianças apresentam grande tendência a entenderem, a princípio, a morte como punição por ser mau, algo que tem a ver com a própria moral. O contrário também se configura como verdade, ou seja, vida longa como recompensa por ser bom. Portanto, está configurado, ao longo do tempo, a ligação entre o pecado e a morte.

A morte como transição é compreendida por muitos adultos como uma forma de transição de uma vida para outra, ou seja, da vida física para uma espécie de vida eterna ou imortal. Tal pensamento também encontra embasamento religioso e, segundo pesquisa da autora, tal crença é mais comum entre as mulheres do que entre os homens.

No que diz respeito à Morte como perda, que configura o sentido mais difundido da morte (juntamente com o medo), é esse sentimento que revela a maioria dos adultos. A questão da perda não se configura apenas a nível orgânico, como a perda das funções vitais do corpo, mas também a perda das relações, afetos, amor, prazer e sonhos.

Ainda de acordo com as pesquisas de Helen, como era de se esperar, o tipo ou os tipos de perdas que mais preocupam o ser humano, variam com a idade. Por exemplo, adultos mais jovens apresentam tendências a se preocuparem mais com a perda de oportunidades de novas experiencias e com perda das relações de familiares, enquanto adultos mais velhos preocupam-se mais com a perda de tempo para concluir trabalhos e realizar sonhos.

Pelos autores aos quais tenho me detido mais detalhadamente, poderia dizer que a Dra. Helen Bee, rebusca Ariès e Morin nos conteúdos sobre a posição do indivíduo perante a finitude humana e, ainda mais e especificamente, no âmbito da Biologia, lacuna esta que estava carecendo ser devidamente preenchida.

Sugiro, pois, a todo professor de Biologia, Psicologia e a qualquer um que se debruce sobre a questão do desenvolvimento humano (inclusive o alunado mais avançado também), desde seu início até o fim, com todos os seus conteúdos biológicos, orgânicos, psicológicos e subjetivos para conhecerem a obra desta grande educadora da contemporaneidade.

*Professor do Centro de Biociências da UFRN (Juarez@cb.ufrn.br)

BIOLOGIA E MORTE

Biologia e Morte (II)
*Juarez Chagas


É o título de uma das palestras sobre a inevitável relação da Tanatologia com a Ciência Biológica que normalmente apresento, quando convidado por colégios e instituições interessadas no assunto.

A princípio, para os menos afeitos às respectivas áreas, as duas questões discutidas intrinsecamente pode parecer paradoxal ou contraditória, justamente por uma, em contexto geral, significar Vida e a outra finitude. Entretanto, é exatamente aí onde reside a mais íntima relação e referência entre ambas, pois as mesmas acham-se “imbricadas” uma na outra, indissociavelmente.

Quando se procura o conceito de Biologia, seja em dicionários técnicos, seja em fontes virtuais específicas e de confiante procedência (sites, portais, webs, etc), o conceito mantém o sentido semântico casado com o científico: “ Biologia é o ramo da Ciência que estuda os seres vivos, debruçando-se sobre o funcionamento dinâmico dos organismos desde uma escala molecular subcelular até o nível populacional e interacional, tanto intraespecíficamente quanto interespecíficamente, bem como a interação da vida com seu ambiente físico-químico. O estudo destas dinâmicas ao longo do tempo é chamado, de forma geral, de biologia evolutiva e contempla o estudo da origem das espécies e populações, bem como das unidades hereditárias mendelianas, os genes” e continua a descrição “A vida é estudada à escala atômica e molecular pela biologia molecular, pela bioquímica e pela genética molecular, no que se refere à célula pela biologia celular e à escala multicelular pela fisiologia, pela anatomia e pela histologia. A Biologia do Desenvolvimento estuda a vida ao nível do desenvolvimento ou ontogenia, do organismo individual”.

É interessante observar o referido conceito que, em nenhum momento, é abordada a finitude do indivíduo. Entretanto, observando com mais cuidado, veremos que esta questão acha-se incluída exatamente na Biologia do Desenvolvimento, porém, a meu ver, a mesma deveria ser discutida aberta e amplamente, inclusive a nível curricular.

É verdade que o homem tem inventado as ciências, não apenas para responder suas perguntas, indagações e mistérios da Natureza, entretanto, por outro lado, é inconcebível que ele não aprofunde questionamentos e saber sobre sua própria finitude, como se ela não existisse ou como se ela só fosse importante no momento de sua ocorrência. A Biologia, como sendo uma das ciências que mais evolui e mais se estabelece ao longo do tempo, tem em si a resposta sobre a finitude orgânica do ser, tanto dos vegetais e quanto dos animais e, mais especificamente, da espécie humana.

Evidentemente, que o homem não se conforma com a morte e busca na própria ciência a longevidade e o combate à terminalidade. O resultado dessa luta pessoal e coletiva são conflitos existenciais das mais variadas ordens, porque a eternidade é a busca utópica permanente do ser humano. Para nós humanos, não basta saber e admitir que quem morre é o indivíduo (ontogenia) e não a espécie (filogienia) e que seremos repetições de nossos descendentes, como fomos de nossos antepassados, conferindo assim o perpétuo Ciclo da Vida.

A propósito, O Ciclo da Vida (Lifespan Development, Happer Collins Publishers, 1994, publicado no Brasil pela Artmed, 1997), é o título do livro da norteamericana Helen Bee que, espetacularmente, associa Biologia e Psicologia às questões do desenvolvimento humano da forma mais abrangente já vista até o momento.

A Dra. Bee, percorre as questões do desenvolvimento humano, desde o nascimento até a morte do indivíduo. Um livro que deveria ser lido, pesquisado e discutido, não apenas por todo biólogo e psicólogo, porém por todos quantos se interessem pelo desenvolvimento humano.

*Professor do Centro de Biociências da UFRN(Juarez@cb.ufrn.br)

O FENÔMENO HUMANO DA MORTE


O Fenômeno Humano da Morte
* Juarez Chagas

O homem nunca desejou se debruçar sobre a questão da morte como reflexão de sua própria finitude. Isso é um fato histórico que se reflete desde seu entendimento como ser social, até os dias de hoje quando explora os planetas no intuído de encontrar vida e ambiente propício que tentem corroborar hipóteses sobre sua origem. Ao longo do tempo, o homem tem associado morte ao misticismo, à magia, ao mistério, ao segredo e outras questões ocultas, das quais quer distância. Parece que agindo dessa forma, sente-se mais seguro ou confortado sobre esse seu maior conflito existencial.

A morte é um tema profundamente humano, muito embora não seja tratado com a devida atenção que merece. Entretanto, já se tem dado importantes avanços no que diz respeito ao seu entendimento e aceitação como parte indissociável da vida.

Alguns estudiosos da Tanatologia dizem que o homem considera-se verdadeiramente homem quando chora e enterra seus mortos, porque ali naquele momento que se repente através do tempo e nas várias sociedades, ele chora a morte de si mesmo e “se enterra” simbolicamente igualmente, o que ocorrerá, posteriormente, independentemente de sua vontade ou não. Essa atitude de enterrar os mortos introduz a racionalidade e o processo físico da Natureza sobre o homem e sua finitude.

Até o final do Século XX o homem deparava-se com dois tabus ao longo do tempo incrustados no seio da sociedade e, sob sua ótica, com poucas perspectivas de serem quebrados: o sexo e a morte.

O tabu do sexo foi desvendado, exposto e tratado científica e socialmente como deveria ser (inclusive resultando em outras conseqüências indesejadas como banalização e instrumento para outras causas não dignificantes), apesar da resistência da Igreja, no quesito reprodutivo, o qual só é garantido através do sexo.

Por outro lado, a Morte permanece como o maior tabu da humanidade e, infelizmente, sem data para ser quebrado, pois a barreira entre o entendimento sobre esta e a disposição e coragem sobre sua aceitação, parece ainda muito distante.

Morin afirma que a morte é o traço mais cultural do homem e uma brusca ruptura entre o seu mundo e o mundo animal. A propósito, o homem não vê a morte dos animais como vê a sua própria morte, muito embora filogeneticamente se considere no topo da escala animal. A morte para os animais existe praticamente no campo instintivo, no homem no campo subjetivo, mental e psicológico, no entanto, o entendimento desta questão é que causa medo ao homem.

Segundo um dos pensamentos de Morin, a idéia sobre o entendimento da morte remete à própria questão de sua finitude, quando este diz que “A consciência da morte não é algo inato, e sim produto de uma consciência que capta o real. É só “por experiência”, como diz Voltaire, que o homem sabe que há de morrer. A morte humana é um conhecimento do indivíduo.”

*Professor do Centro de Biociências da UFRN(Juarez@cb.ufrn.br