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27 de jun de 2008

MASLOW E O POTENCIAL HUMANO


Maslow e Potencial Humano
(Publicado no Jornal de Hoje)

Juarez Chagas

“A abordagem fenomenológica faz parte de um esforço de muitos psicólogos para compreender a experiência humana à medida que ela ocorre. Essa abordagem busca considerar a vida como é experimentada pela pessoa sem omitir aquilo que é mais humano, sem dividi-la em partes não-relacionadas e sem reduzi-la a princípios fisiológicos”. É assim que Lawrence A. Pervin (e seu co-autor Oliver P. John) discorre a questão fenomenológica no capítulo 6-Uma teoria Fenomenológica: aplicações e Avaliação da Teoria de Rogers”. Pervin, pH. D. por Harvard, ao qual já me referi em artigos anteriores, como um dos maiores estudiosos atuais da Personalidade humana e cujo livro Personalidade-Teoria e Prática, reafirma em seu prefácio o avanço na interface entre a psicologia e biologia-teoria evolutiva, genética e neurociências, foco que não agrada a alguns psicólogos que não tiveram ênfase nas ciências da saúde. Porém, é normal que não agrade mesmo, pois a totalidade é constituída, sabiamente de semelhanças e diferenças, que formam o todo. Afinal, conviver com a força ou fraqueza dos opostos, é um constante desafio humano.

É interessante, como alguns termos, além de confusos, como fenomenologia, subjetividade, caráter e tantos outros, continuam sendo os mais difíceis de se conceituar e se entender, na Psicologia. Um dos conceitos de fenomenologia mais comuns que encontramos diz que a abordagem fenomenológica da experiência humana à medida que ela ocorre, considera a vida como experiência da própria pessoa. É preciso ficar atento, para não associar com o tempo no gerúndio! Devemos ter cuidado com certas modas, pois gerúndio também nos lembra alguns termos em moda, como fala atual que pode significar o que o sujeito quer dizer, mas não necessariamente o que ele quer fazer. “ Não se preocupe, nós vamos estar resolvendo isso pra você” ou, “nossa empresa vai estar admitindo o senhor, portanto aguarde contato...” Realmente, isso também é um fenômeno. A mania de falar no gerúndio, que significa uma ação ininterrupta, pode nunca concretizar a ação.

Mas, voltemos ao cerne da questão. Ainda bem que haveria de surgir defensores do movimento do potencial humano, dentro da abordagem da corrente humanista da Psicologia, então denominada de terceira força da Psicologia. O nome, talvez não tenha sido tão adequado assim, mas que veio com muita força, isso é incontestável. O movimento do Potencial Humano teve, por sorte e muita convicção, defensores de peso tais quais Carl Rogers, Kurt Goldstein e Abraham Maslow, dentre outros. Essa corrente, diferentemente de suas fortes antecessoras (pela ordem cronológica inversa: behaviorista e psicanalítica), responde preocupações atuais, com ênfase na auto-realização, no cumprimento do potencial humano e na abertura à experiência. Ao contrário da corrente psicanalítica, sua preocupação e foco é enaltecer o potencial da pessoa humana dentro de seus aspectos positivos e saudáveis.

Apenas para citar Goldstein (1878-1965), o qual mudou-se para os Estados Unidos aos 57 anos de idade, foi considerado, na Alemanha, proeminente neurologista e psiquiatra, tendo realizado vários estudos e pesquisas durante a primeira guerra mundial, com soldados com lesões cerebrais, estudos estes que lhe serviram de base para futuras pesquisas, no campo da personalidade. Assim como Freud, goldstein tinha uma visão de energia do organismo, só que ele diferenciou essa energia orgânica para o aspecto positivo do ser humano em busca de sua auto-realização. Algo positivamente revolucionário, admitamos, principalmente para a época.

Abraham Maslow (1908-1970) veio a completar esse pensamento, como nenhum outro estudioso do movimento do potencial humano, tornando-se seu principal teórico e defensor. Na verdade, ele criticou a psicanálise e o behaviorismo por achar essas abordagens pessimistas, negativas e limitadoras do ser humano e, em conseqüência disso, a Psicologia viveu, na época, dias conturbados, o que reflete até hoje através da preferência de uns e antipatia de outros. Independentemtne das intrigas e diferenças, o que não podemos negar é que o estímulo ao potencial humano se reflete na própria busca do sucesso e felicidade. Tudo o que a humanidade sempre buscou.

Maslow, não desconhecia que a psicopatologia resulta de distorções e frustrações da natureza essencial do organismo humano, porém questionava por que não tentar remover esses obstáculos e enfatizar a motivação humana, no sentido de atender as necessidades biológicas e psíquicas do próprio indivíduo, tornando-o mais apto e capaz de realizar seus sonhos. Assim sendo ele criou um modelo que denominou de “hierarquia das necessidades”, onde cada uma dessas necessidades hierárquica, biológica e psiquicamente estabelecida constitui uma pirâmide, com a auto-realização em seu ápice ou topo. Essas necessidades biológicas, como a fome (comida), o sono, a sede, o sexo (fisiológico) somadas às necessidades psicológicas, tais quais, auto-estima, afeição (amor), segurança e pertencimento, completariam a pirâmide como um todo, ou seja, a realização humana.

Além disso, Maslow acreditava na idéia de que indivíduos saudáveis e satisfeitos consigo mesmo, são auto-realizados e que, portanto, essas pessoas aceitam a si mesmas e aos outros, pelo que são, criando um clima e situação de convivência saudável, se realizando como ser humano, uma vez que suas necessidades possam ser atendidas. Evidentemente, que o estudo é muito mais amplo do que aqui se apresenta e, por isso mesmo, é uma das mais belas e ousadas abordagens da Psicologia Moderna.




HOMENAGEM AO CADÁVER DESCONHECIDO

CADÁVER DESCONHECIDO
(Publicado anteriormente no Jornal de Hoje)
Juarez Chagas
Muitas homenages têm sido prestadas ao Cadáver Desconhecido em todo o mundo. Universidades, Instituiçoes acadêmicas, segmentos da sociedade científica e religiosa têm demonstrado através de atos públicos e oficiais seus gratos e humanos reconhecimentos a esse personagem anônimo, milenar e mito, que foi o pilar da anatomia humana, a qual nos primórdios, foi a base da medicina, sem o qual não teria evoluído, o que ocorreu graças a ousadia e bravura de Vesalius, o primeiro anatomista realmente a ter tirado o CD do submundo da obscuridade, para transformá-lo na mais importante descoberta da máquina humana, como bem descreve em seu De Humani Corporis Fabrica, 1543.
Portanto, é com satisfação que, nao somente pelos estudos e dedicação a que tenho me envolvido nesse tema de grande desenvolvimento humano, mas também em reconhecimento à importância de seu valor acadêmico e humano, na sua forma incomum porém valorosa de nos dar verdadeiras liçoes de vida, reverencio também o mais importante personagem da anatomia humana, ao longo de todos os tempos.

Ao Cadáver Desconhecido
( O Autor)

Um dia, como você, vim ao mundo
Não foi, como nas famílias normais
Onde, ao nascer, todos riem, apenas a criança chora
No meu caso, talvez, todos tenham chorado
Apenas eu ria
Se nasci numa palhoça, casebre ou maternidade
Nunca soube, não me contaram
Ou se contaram, não dei atenção
Estava muito disperso
Ocupado com o nada (mas querendo tudo)
Envolvido com as armações da vida

Cresci e vivi como um andarilho
Sem família, sem lar, sem amigos
Como um ladrão ou como um assassino
Mas,o que eu sempre quis ser mesmo foi um Hobin Hood
Um paladino, um zorro, um justiceiro
Porém, quando quis voltar à realidade foi tarde demais
Já não havia mais como negociar com a paz
E só pude ocupar o único lugar que a sociedade reserva para os omissos,
os miseráveis e marginalizados: o submundo

Como morri, não importa
Talvez, nem eu mesmo saiba como foi, nem o dia, nem a hora
O fato é que aí, na mesa fria de mármore, está o meu corpo
Sobre cujo peito não se derramou uma só lágrima de saudade
Sobre cujo rosto ninguém deu um beijo de adeus
Também, meus olhos não viram a luz da vela
Que iluminaria a passagem para o outro mundo
Nem tão pouco foram cerrados após a partida, na hora de ir embora
Minhas mãos não foram afagadas, na despedida sem retorno
Sobre meu corpo semi-nu
Também não puseram roupas ou sequer um lençol branco

Ao contrário, talvez tenha ficado jogado ao relento
Sob o sol quente do dia e o frio da noite
Velado apenas pelo vento, a chuva, os insetos
Talvez pisoteado, chutado, esfacelado ou mutilado
Quando fui, finalmente (ou propositalmente), encontrado
Como um animal moribundo e relegado
Agora digo a todos vocês através deste silêncio profundo e eterno
Através deste corpo inerte, inanimado
Está minha última redenção
Paguei pelo que na terra fiz ou deixei de fazer

E como nunca é tarde para ser útil
Usem pois, este corpo inerte sobre a lousa
Dissequem cada estrutura, conscientemente
Rebatam as aponeuroses, fáscias e músculos
E vejam como é lindo e fantástico o corpo humano
(Coisa que nunca tive oportunidade de entender em vida)
Sintetizem a Anatomia, na prática
Meditem, questionem, busquem o entendimento topográfico e sistêmico

Se meus olhos ainda forem úteis
Dêem suas córneas a alguém que nunca viu a luz do dia
Dissequem meu coração com paciência e mestria
De tal forma que, quando doutores possam salvar
Muitas vidas, impedindo os infartos e embolias
Extirpem meus pulmões
Descobrindo o percurso de suas árvores brônquicas
E aprendam a anatomia pulmonar
Para que no futuro possam salvar tuberculosos e enfizematosos
Percorram e estudem os rins demoradamente
Para que possam entender, no futuro sua fisiologia e curar os nefropatas

Estudem , a pele, os ossos, os músculos, as vísceras
Verifiquem e compreendam, calmamente, o sistema nervoso
E imaginem que a mente e o espírito
Certamente também residem ali

Enfim, estudem todas as suas estruturas orgânicas
(mesmo que não haja tempo, pois o tempo é cada um que faz)
E me façam seu PRIMEIRO PACIENTE
Sem medo de cometer nenhum erro ou acidente
Mas, com a obstinação do acerto
Assim sendo,
Após vários anos de estudo, determinação e um juramento hipocrático e sagrado
O médico, aquela figura de branco, austera e bondosa
Ao tratar seus pacientes
Dentre seus conhecimentos adquiridos, sempre carregará consigo
Os ensinamentos do Cadáver Desconhecido
(ensinando sobre a vida através da morte)
Que doou seu corpo em prol da humanidade
Que nada lhe deu em troca.