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5 de dez de 2008

A CONQUISTA DA MORTE


A Conquista da Morte
(Publicado no O Jornal de Hoje)

* Juarez Chagas


Quando confrontamos as idéias dos dois grandes cientistas e estudiosos sobre a longevidade e morte do ser humano, na atualidade, William R. Clark e Alvin Silverstein (na ordem inversa), não há como realmente deixar de pensar nos avanços da ciência sobre a temporalidade do ser humano e de como será a vida no futuro próximo.

Dr. Alvin Silverstein, além de seus estudos e trabalhos no combate às doenças, principalmente cancerígenas, entre outros importantes estudos, foi fundador da Fundação para Pesquisa Contra a Doença e Morte (no início dos anos 70) e é um dos mais veementes combatentes contra a morte, que se conhece nos dias de hoje. Dentre seus vários artigos científicos e livros, escreveu Conquista da Morte (Conquest of Death, 1979) onde apresenta suas idéias, pesquisas e determinação em provar que o fim da morte é só uma questão de tempo, onde as ciências biomédicas triunfarão contra o declínio vital orgânico e, conseqüentemente, contra a finitude humana, o maior conflito existencial da humanidade.

Vejamos como Dr. Silverstein aborda essa possibilidade no 2º capítulo de seu revolucionário livro:
“A morte persistirá, mas será mais rara. As pessoas poderão viver durante centenas, até milhares de anos, possuindo mocidade vigorosa e mente ágil e ativa, durante toda a vida. Será a “idade de ouro” e teremos conseguido o que poderia ser chamado de emortalidade – condição na qual a “morte natural” não será inevitável.

Há de haver uma nova era na história humana. Num mundo de emortais, a vida há de adquirir nova significação e, pela primeira vez, preocupar-nos-emos genuinamente com a qualidade da vida. Lutaremos para banir a dor e a pobreza. Não haverá mais “velhos”, pois os conhecimentos que permitirão a conquista da morte hão de trazer consigo também a eterna juventude. Essa nova era pode chegar no nosso tempo”.

Com essas premissas, Dr. Silverstein cujos estudos e idéias são hoje corroboradas não somente pela neurociências, mas pelos mais recentes estudos biomédicos responsáveis pelas pesquisas sobre células-tronco, bioética e temporalidade do ser humano, as quais, aceitem ou não os mais céticos, defendem a idéia de que o fim da morte está próximo.

Por outro lado, sem conflitar, porém abordando uma linha igualmente importante, entretanto diferente, Dr. William Clark afirma em seu livro Sexo e as Origens da Morte (Sex and the Origins of Death, 1996) “Nós morremos porque nossas células morrem”
.


A princípio, o enunciado de Clark parece ser antagônico aos argumentos de Silverstein, por explicar que a morte do ser humano se dá através da morte celular, porém ao se avançar mais profundamente no entendimento desta constatação, fica claro a conclusão de ambos: se as células têm morte programada, o retardamento desta programação significa mais longevidade ou mantê-las vivas para sempre ou substituídas por células iguais é proporcionar o indivíduo a emortalidade. É isso que a ciência busca.

Uma questão interessante e da qual não podemos deixar de observar é que o ser humano adulto é composto de, aproximadamente, mais de cem trilhões de células individuais, em virtude do processo orgânico evolutivo da diferenciação celular, desencadeado durante a evolução embrionária. Hoje sabemos que cada tecido tem seu tempo de vida diferenciado um do outro, como por exemplo, sabemos que os mais resistentes são os tecidos ósseos e tegumento (nessa ordem), portanto, é de se esperar que, em condições normais e favoráveis, pereçam por último, em relação aos demais tecidos. Dessa constatação poderia surgir uma pergunta baseada nos estudos do Dr. Silverstein: seria suficiente, então, manter as células em seu estado normal, sem sofrerem degradação ou qualquer processo de degeneração para que a morte não existisse? É isso que a ciência já tenta fazer: a manutenção orgânica saudável, ou por outro lado, substituição celular.

Entretanto, a questão da humanidade não parece ser simplesmente apenas a mortalidade, pois seguramente, outros problemas surgiriam de imediato, tais como superpopulação do planeta, caça por alimento, preservação da individualidade, sobrevivência, encontros de parceiro(a)s ideais (no campo da convivência) e tantos outros desencadeados pela imortalidade. Portanto...é bom pensar se a morte não seria uma solução para a espécie ao invés de apenas um problema da finitude humana.

* Professor do Centro de Biociências da UFRN(Juarez@cb.ufrn.br)