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14 de set de 2008

EROS E THANATOS


Eros e Thanatos
(Publicado no Jornal de Hoje)

*Juarez Chagas

Eram tantos os deuses mitológicos existentes na mitologia clássica que muitos deles permanecem no imaginário das pessoas, mesmo daquelas que nunca demonstraram tanto interesse pelos mitos que povoam a imaginação do ser humano.

Assim sendo, os mitos ganharam “personalidade” e, passaram a representar histórias baseadas em tradições e lendas com o objetivo de explicar o universo, a criação do mundo, fenômenos naturais e ocultos, para que se justifique difíceis explicações. Normalmente, o termo Mitologia (estudo dos mitos) acha-se associado às descrições de religiões fundadas por antigas sociedades como mitologia romana, mitologia grega, mitologia egípcia e mitologia nórdica, sendo que pode haver associações destas, entre si.

Dizem até que, pela necessidade que o ser humano tem de contar a história de seus conflitos subconscientes, inventou a mitologia para arranjar explicações convincentes do que nunca conseguiu explicar devidamente, pois os mitos fazem parte de nossa história e da busca da verdade.

Estudos antropológicos atestam que a mitologia é parte de nós mesmos assim como é o código genético. Por essa razão conhecer mitologia é penetrar no universo da psique humana e descobrir os principais motivos de nossa espécie e a razão de sermos como somos ou de não sermos como poderíamos de ser.

Daí terem surgidos os deuses mitológicos que não buscavam semelhança ao único Deus Onipotente, porém apenas formas de explicar, talvez, o inexplicável. E, dentre esses deuses mitológicos, encontramos Eros, o deus grego do amor e Thanatos, o senhor da morte. Sobre esse ultimo, alguns povos gregos representavam, morfologicamente, como sendo um velho de barbas longas cruel e sem misericórdia.

Enquanto Thanatos alimentava forcas e instintos destrutivos, por outro lado, Eros representava as forcas e os instintos da vida e do amor, resultando desse jogo um antagonismo permanente, mas que se complementavam ao mesmo tempo. Isso, certamente, gerou um conflito existencial muito grande.

Já ouvimos varias vezes que Eros e Tanathos regem as pulsões deste mundo e que a grande dificuldade em demarcar ambos é mais ou menos a mesma com a qual nos deparamos ao se tentar separar a razão da poesia, ou também a razão da emoção. Freud, ao estabelecer sua razão dialética, mesmo encontrando dificuldades, soube captar que na historia tanto quanto no indivíduo, razão e “razão” se acham juntas, embora exista uma linha de demarcação entre ambos, a mesma por vezes é totalmente imperceptível. O que verdade, mesmo sendo doloroso admitir, é que Eros e Tanathos se constituíram nas únicas verdades de fato eternas em nosso universo e vida, de certa forma, efêmera, muito embora se diga que o amor é eterno e que transcende a morte.

A compreensão de que não existe vida sem amor, fez com que o ser humano buscasse incessante e permanentemente esse amor que, muitas vezes é posto acima de sua própria vida. E, a partir daí, acontece uma busca incessante ela felicidade na tentativa de encontrar esse amor, custe o que custar. Então, no meio de tudo isso, surge Tanathos, gerando um conflito da não realização plena.

Hoje em dia admitimos que a importância mitológica e sua influência no pensamento e personalidade humana e tamanha, que o próprio Freud utilizou-se desse conhecimento para ampliar seus estudos sobre a teoria da psicanálise, a qual também considera a questão da morte, onde analisa Tanathos como o contraponto da vida e Eros, em sua formação binária, o que impulsiona o ser humano na sua trajetória existencial. No entanto, culturalmente tem ficado claro ao longo do temo que, o amor (Eros) é a vida e de onde ela surge e emana, enquanto a morte (Tanathos), o seu fim. Como resultado, herdamos um eterno dilema existencial humano.

*Professor do Centro de Biociências da UFRN (juarez@cb.ufrn.br)

BIOLOGIA E MORTE

Biologia e Morte
(Publicado no Jornal, anteriormente)
*Juarez Chagas

Biologia e Morte, a principio, parecem duas coisas totalmente distintas, pelo fato de sugerirem palavras antagônicas, porem nem tanto. Quando começamos a discorrer sobre cada uma delas em separado e, posteriormente, unindo os dois sentidos um no outro, às vezes, surge ate um impacto momentâneo, ao descobrirmos que são mais próximas do que imaginamos, muito embora sejam extremos e se coloquem exatamente uma oposta `a outra. Na verdade, essa separação entre Biologia e Morte parece ser mais semântica e cronológica, no que se refere a limites de continuidade entre uma e outra, porque enquanto Biologia é o estudo da vida, em todas as suas manifestações e amplitude, a morte é o contrario, e a cessão da própria vida e sua estação final, onde todos nós, mais cedo ou mais tarde, iremos desembarcar. Esse espaço indefinível e indivisível entre a vida e a morte e, evidentemente, os conflitos e sentimentos de perda que esta ultima causa, tem se constituído num dos maiores medos que o ser humano carrega em si e dentro de si ao longo de sua existência.

Na realidade, como já abordamos em matérias anteriores, o medo da morte é algo que se explica por si só, ou seja, não apenas pelo fator medo e não somente pelo fato da morte existir, mas pela constante e infindável ameaça, angustia e conflito existencial que ela derrama sobre nós e, principalmente pelos danos que ela parece causar a cada um e a todos nós que, inegavelmente, ainda não a aceitamos como parte natural e final de nossa existência. Em segundo lugar, viria o desconhecimento sobre a morte, desconhecimento este gerador de ignorância e desejo permanente de distanciamento cada vez maior entre sujeito e condição de mortal, responsável pelo constante temor do que ela representa e pelo seu eterno mistério desconhecido. Portanto, a ignorância e desconhecimento sobre a morte ainda são um de seus grandes escudos e uma barreira que a mantém sempre velada e misteriosa sob seu manto escuro, funesto e desconhecido.

Particularmente falando, meu interesse pessoal sobre o tema, a respeito de estudos e pesquisas sobre a morte não é recente, surgiu naturalmente ainda quando estudante universitário de Biologia, onde estranhava o fato de os estudos biológicos e da saúde, de um modo geral, seja no campo didático, seja no campo científico como um todo, não abordarem a questão da morte com essa mesma visão acadêmica com a qual aborda a cronologia biológica em seus seqüenciais estágios da vida. Os professores normalmente começavam abordando o tema, discorrendo sobre a origem da vida ensinando que o nascimento da terra teria sido gerado por uma nuvem de pó, forjado no primitivo fogo do cosmos e descrevendo as diferentes teorias sobre a formação do planeta ate o surgimento da vida advinda dos mares e oceanos primitivos através de suas combinações químicas e físicas. A partir daí todo conhecimento adquirido sobre a humanidade parece ter sido concentrado apenas na vida e o mínimo que se destinava à questão da morte era enterrado e oculto como algo proibido, assustador, maligno e ceifador da própria vida. Evidente que, tornar-se-ia cultural. Pra que ficar falando e ensinando sobre algo que nos abate? A principio, parece lógico, mas não é. Deveria ser justamente o contrario. Conhecer o inimigo e um dever!

Eu sempre ficava com uma ponta de curiosidade quando os professores, sendo eles biólogos, médicos ou filósofos, faziam questão de lembrar a Biologia como sendo o estudo da vida e, a partir daí discorrer sobre todo o processo vital do desenvolvimento humano, deste o estágio de vida intra-uterina, nascimento, todas as infâncias, adolescência, fase adulta, até sua senilidade. E, naquele ponto que representava a velhice, paravam a discussão como se fosse o último estágio do ser vivo e como se nada mais interrompesse esse processo, mesmo sabendo que tudo culminaria com a morte. Assim, eu estranhava a ausência de explicações sobre a morte, como sendo o final desse processo, mas que permitia um novo início do ciclo vital para a perpetuação da espécie humana (a figura da pintura deste artigo, feita pelo Autor para palestra específica sobre Biologia e Morte, sugere exatamente a perpetuaçao da espécie, apesar da morte)
Somando-se a esse silêncio escolar proposital e receoso em desvendar e desmistificar a morte, percebia também o enorme medo e incômodo das pessoas em discutir sobre tão funesto assunto, comportamento esse inerente do ser humano e praticamente “instituído” pelas diferentes culturas e velado escolar e academicamente.
Felizmente, o momento atual da sociedade, tem incluído como uma de suas prioridades e preocupações uma especial atenção sobre estudos e pesquisas sobre a morte. Já não era sem tempo! Entretanto, parece um paradoxo, pois apesar de existirem muitas associações internacionais tratando do assunto, no entanto não conseguiram inclui-la ainda no seio acadêmico ou escolar, o que seria sem sombra de duvidas o meio mais adequado e eficiente de educar as pessoas para admitir e enfrentar a morte e resolver, mesmo que parcialmente, o conflito existencial humano causado pelo medo da morte.
“Estudar, debater e discutir sobre a morte, não significa enaltecê-la e sim conhece-la e entende-la como um fenômeno natural para que possamos valorizar, amar mais a vida e vivermos melhor” Essa devera ser a primeira premissa a ser considerada nos debates e estudos sobre a morte, em níveis acadêmicos e que em breve, gostaria de vê-la projetada em alguma sala de aula ou palestras e seminários.
* Professor do Centro de Biociências da UFRN juarez@cb.ufrn.br