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24 de nov de 2011

TRANSITORIEDADE III

Transitoriedade - III

*Juarez Chagas

Transitoriedade não implica ou envolve apenas fatos e acontecimentos que decorrem do “momento”, o qual pode se estender após o mesmo ou nem ser plenamente vivido e vivenciado durante o mesmo, devidamente. Há mais considerações sobre o transitório do que possamos imaginar, principalmente, para aqueles que se refutam ou evitam viver plenamente o momento, alegando que este momento não vale tanto assim ser vivido, uma vez que logo em seguida não mais terá valor, por já ter passado. Então, em consequência disso, surgem conflitos com a temporalidade.

Nesse contexto, as questões do sentido da vida significa, para muitos, angústias, traduzidas por alguns, como conflitos existências ou simplesmente conflitos filosóficos que desaguam em dúvidas e inseguranças no seio existencial da pessoa.

Há um refrão de uma música (Animais Irracionais) da dupla Dom & Ravel que, a meu ver, caracteriza muito bem esse momento e essa questão, quando ela expressa

“Animais, Animais, Animais

Somos todos meio

Animais irracionais

Levantamos, guerreamos e deitamos e rezamos antes

A vida é um sonho e nada mais”.

Indubitavelmente, para muitos a vida é um sonho e nada mais. Isso porque se pode imaginar ser a vida um sonho inebriado cujos conteúdos transitórios são sonhados acordados, mas quase sedados pela embriaguez do utópico que se coloca como realizável, mas que muitos jamais alcançarão e, contraditoriamente, se alcançam não podem usufruir do mesmo por tempo prolongado.

Observamos na Psicanálise tradicional, a partir de Freud que passou a observar esse conflito comum, onde a idéia de que seria impossível ser feliz, uma vez que o gozo absoluto deseja de todo ser humano, é algo inatingível e, na maioria das vezes, para alguns, quando se chega ao gozo pleno, este já está passado ou já se encontra lá na frente. Ainda bem que hoje em dia, os psicanalistas contemporâneos defendem a ideia de que se deve ser feliz dentro do possível, no momento certo, buscando suas possibilidades, tornando a vida num estado mais gratificante e prazeroso de existir e do existir.

Muitos se perguntam por que refletir sobre a finalidade da vida se esta se torna cada vez mais passageira e, estas reflexões ocorrem mais em momentos cruciais do que em momentos prazerosos? Baseado nesse contexto, muitos indagariam de que vale a existência se ela pode se esvair a qualquer momento, inclusive em plena evolução?

É aí, então, que reside o outro lado da questão, onde a brevidade da vida é, como se apresenta, antes pelo contrário, um bom motivo para analisar a maneira como passamos nosso precioso tempo e nos objetivos, sonhos e buscas que, para nós, são valiosíssimos.

Na verdade, sabemos ser o tempo inexorável assim como é ininterrupto seu percurso e seu avançar, sem recuar. Então, qual seria a pergunta mais lógica, o tempo passa sem parar ou o tempo leva tudo consigo ou as duas perguntas associadas?

No meio disso tudo, acha-se a transitoriedade dos fatos e das passagens da vida e, portanto, devemos fazer nossa vida valer a pena através de bons sonhos realizados e boas causas defendidas em prol de si mesmo e do próximo. Alguém tem sugestão ou experiência melhor?

* Professor do Centro de Biociência da UFRN (Juarez@cb.ufrn.br)

17 de nov de 2011

TRANSITORIEDADE II

Transitoriedade - II

*Juarez Chagas

Retomando a discussão a respeito da Transitoriedade, hoje, mais do que nunca, vista por uma grande quantidade de pessoas como algo angustiante, concluímos que sentimentos de ansiedade e insegurança se estabelecessem, principalmente em relação ao momento vivido e percebido.

Para quem leu o artigo de Freud sobre transitoriedade, deve lembrar que ele descreveu o exemplo do poeta, seu amigo com quem, numa caminhada pelos campos, num dia de verão, após contemplarem o cenário à sua vista e à sua volta, não consegue sentir satisfação nem alegria no que presenciava. Na verdade, o fato de toda aquela beleza prestes a se esvair, trazia, ao invés, um sentimento de perda, despojado de seu valor, por tudo aquilo estar sujeito à transitoriedade e que, em pouco TemPo, nada daquilo ali admirado, permaneceria, para o poeta.

Foi baseado nesse sentimento pessimista e aniquilador do momento e de que a transitoriedade traduzia perda do valor das coisas, por sua passagem efêmera, foi que Freud, trabalhou a questão do que a transitoriedade representa, principalmente para pessoas pessimistas, concluindo ser incompreensível, portanto, que o fato de algo ser transitório, influiria sobremaneira na essência das coisas, interferindo na sua fruição, fazendo com que seu valor perdesse o sentido, por causa de sua limitação no tempo.

Por outro lado, é importante dizer que, com a continuidade de seus estudos e, antagonicamente ao poeta que era pessimista e sofria só com a possibilidade efêmera da estação e sua temporalidade, ele afirma que a transitoriedade implicaria numa perda em si, porém num valor maior ainda do objeto em questão, isso porque a limitação da possibilidade de uma fruição aumentaria, seguramente, o valor dessa fruição de tal modo que a transitoriedade passaria a ser um vetor de estima para o momento vivido.

Para percebermos o que o próprio Freud observou no poeta, através de sua angústia velada, mas transparente em seu semblante e olhar, segue na íntegra parte do texto do grande gênio da Psicanálise:

Não faz muito tempo empreendi, num dia de verão, uma caminhada através de campos sorridentes na companhia de um amigo taciturno e de um poeta jovem, mas já famoso. O poeta admirava a beleza do cenário à nossa volta, mas não extraía disso qualquer alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava fadada à extinção, de que desapareceria quando sobreviesse o inverno, como toda a beleza humana e toda a beleza e esplendor que os homens criaram ou poderão criar. Tudo aquilo que, em outra circunstância, ele teria amado e admirado, pareceu-lhe despojado de valor por estar fadado à transitoriedade.

A propensão de tudo que é belo e perfeito à decadência, pode como sabemos, dar margem a dois impulsos diferentes na mente. Um leva ao penoso desalento sentido pelo jovem poeta, ao passo que o outro conduz à rebelião contra o fato consumado. Não! É impossível que toda essa beleza da Natureza e da Arte, do mundo de nossas sensações e do mundo externo, realmente venha a se desfazer em nada. Seria por demais insensato, por demais pretensioso acreditar nisso. De uma maneira ou de outra essa beleza deve ser capaz de persistir e de escapar a todos os poderes da destruição destruição.

Mas essa exigência de imortalidade, por ser tão obviamente um produto dos nossos desejos, não pode reivindicar seu direito à realidade; o que é penoso pode, não obstante, ser verdadeiro. Não vi como discutir a transitoriedade de todas as coisas, nem pude insistir numa exceção em favor do que é belo e perfeito”.

Devemos admitir e aceitar, portanto que, Freud tinha total razão ao mostrar o lado do valor da transitoriedade, uma vez que, saber ser tudo nesta terra efêmero, transitório e passageiro. Portanto, façamos valer cada segundo, cada minuto, horas, dias e anos de nossas vidas, valorizando o que realmente tem valor, independentemente de sua temporalidade, ou exatamente por causa dela.

* Professor do Centro de Biociência da UFRN (Juarez@cb.ufrn.br)

2 de nov de 2011

HOMENAGENS E REFLEXÕES


Homenagens e Reflexões

* Juarez Chagas

Não apenas como estudioso da Tanatologia, mas também pela passagem e homenagens aos Dia dos Mortos, parentes, amigos e a todos aqueles que se foram do nosso convívio expresso palavras de saudade, saudade, saudade...

E, presto, em especial, homenagem (inspirada no trabalho que tenho feito ao longo de 30 anos, sobre a questão do homem perante à morte) ao Cadáver Desconhecido, àquele que doou e doa seu corpo em prol da Ciência, em especial ao ensino de Humani Corporis Fabrica, como gostava de enfatizar, o Pai da Anatomia, Andreas Vesalius.

O Cadáver Desconhecido

Um dia, como você, vim ao mundo

Não foi, como nas famílias normais

Onde, ao nascer, todos riem, apenas a criança chora

No meu caso, talvez, todos tenham chorado

Apenas eu ria

Se nasci numa palhoça, casebre ou maternidade

Nunca soube, não me contaram

Ou se contaram, não dei atenção

Estava muito disperso

Ocupado com o nada (mas querendo tudo)

Envolvido com as armações da vida

Cresci e vivi como um andarilho

Sem família, sem lar, sem amigos

Como um ladrão ou como um assassino

Mas,o que eu sempre quis ser mesmo foi um Hobin Hood

Um paladino, um zorro, um justiceiro

Porém, quando quis voltar à realidade foi tarde demais

Já não havia mais como negociar com a paz

E só pude ocupar o único lugar que a sociedade reserva para os omissos,

os miseráveis e marginalizados: o submundo

Como morri, não importa

Talvez, nem eu mesmo saiba como foi, nem o dia, nem a hora

O fato é que aí, na mesa fria de mármore, está o meu corpo

Sobre cujo peito não se derramou uma só lágrima de saudade

Sobre cujo rosto ninguém deu um beijo de adeus

Também, meus olhos não viram a luz da vela

Que iluminaria a passagem para o outro mundo

Nem tão pouco foram cerrados após a partida, na hora de ir embora

Minhas mãos não foram afagadas, na despedida sem retorno

Sobre meu corpo semi-nu

Também não puseram roupas ou sequer um lençol branco

Ao contrário, talvez tenha ficado jogado ao relento

Sob o sol quente do dia e o frio da noite

Velado apenas pelo vento, a chuva, os insetos

Talvez pisoteado, chutado, esfacelado ou mutilado

Quando fui, finalmente (ou propositalmente), encontrado

Como um animal moribundo e relegado

Agora digo a todos vocês através deste silêncio profundo e eterno

Através deste corpo inerte, inanimado

Está minha última redenção

Paguei pelo que na terra fiz ou deixei de fazer

E como nunca é tarde para ser útil

Usem pois, este corpo inerte sobre a lousa

Dissequem cada estrutura, conscientemente

Rebatam as aponeuroses, fáscias e músculos

E vejam como é lindo e fantástico o corpo humano

(Coisa que nunca tive oportunidade de entender em vida)

Sintetizem a Anatomia, na prática

Meditem, questionem, busquem o entendimento topográfico e sistêmico

Se meus olhos ainda forem úteis

Dêem suas córneas a alguém que nunca viu a luz do dia

Dissequem meu coração com paciência e mestria

De tal forma que, quando doutores possam salvar

Muitas vidas, impedindo os infartos e embolias

Extirpem meus pulmões

Descobrindo o percurso de suas árvores brônquicas

E aprendam a anatomia pulmonar

Para que no futuro possam salvar tuberculosos e enfizematosos

Percorram e estudem os rins demoradamente

Para que possam entender, no futuro sua fisiologia e curar os nefropatas

Estudem , a pele, os ossos, os músculos, as vísceras

Verifiquem e compreendam, calmamente, o sistema nervoso

E imaginem que a mente e o espírito

Certamente também residem ali

Enfim, estudem todas as suas estruturas orgânicas

(mesmo que não haja tempo, pois o tempo é cada um que faz)

E me façam seu PRIMEIRO PACIENTE

Sem medo de cometer nenhum erro ou acidente

Mas, com a obstinação do acerto

Assim sendo,

Após vários anos de estudo, determinação e um juramento hipocrático e sagrado

O médico, aquela figura de branco, austera e bondosa

Ao tratar seus pacientes

Dentre seus conhecimentos adquiridos, sempre carregará consigo

Os ensinamentos do Cadáver Desconhecido

(ensinando sobre a vida através da morte)

Que doou seu corpo em prol da humanidade

Que nada lhe deu em troca.

* Biólogo, Psicólogo e Escritor (desenho e poema do autor)

29 de jul de 2011

O PROFESSOR AO LONGO DO TEMPO I


* Juarez Chagas

"Este artigo faz parte de uma série de textos sobre a personagem do PROFESSOR, sobre o qual discorro em narrativas diversas (sem comprometer a sequeência ou nao da leitura) ao longo de sua trajetória, espaço e tempo. Espero que tenh(m) uma boa leitura".

Dentre alguns temas comumente abordados em nossos artigos, numa determinada e livre sequência, permearemos os mesmos com um dos assuntos mais importantes (infelizmente, igualmente menos valorizado do ponto de vista social) que é a profissão e função de professor.

Começo por dizer que, desde os primórdios que essa nossa tão nobre e acalentadora e deslumbrante função e profissão, porém tão desprestigiada, desvalorizada e relegada, pela sociedade através de seus poderes públicos e constituídos (apesar de a usarem como falsa bandeira de persuasão para conquista de intentos outros), já começou, na visão popular e debochada, perdendo seu posto de 1ª profissão mais antiga para a aclamada profissão da prostituição. Que não que se discrimine ou se julgue a tradicional profissão do sexo, mas convenhamos, todos sabem que ensinar e educar foi a primeira profissão da humanidade.

A beleza, a nobreza, o humanismo e tudo de bom que o ensino possui dentro de sua função de ensinar antecede ao processo de criação de escolas e das primeiras instituições educadoras da história da humanidade. Antecede inclusive, ao advento da escrita, pois a oralidade e outros meios de comunicação primordiais formaram os primeiros ensinamentos do homem para o homem e, depois, para a comunidade e depois para o mundo que, cada vez mais requeria comunicação entre si, mesmo nos tempos arcaicos.

O registro que temos sobre os primeiros “sistemas” de ensino decorre das antigas civilizações que, por necessidade, identificavam pessoas com a habilidade de transmitir ensinamentos diversos. No Egito antigo, por exemplo, a função de escriba já vislumbrava a organização das primeira “escolas”. Já na Esparta, a iniciação da “educação” dava ênfase ao aprimoramento das habilidades marciais para os meninos e a orientação quando as mulheres estivessem aptas para a procriação, para gerarem filhos saudáveis que seriam futuros guerreiros.

Mas, parece ter sido em Atenas que surgiu a idéia de que o conhecimento deveria ser transmitido por uma pessoa sábia chamada de Tutor ou Professor, o qual era designado para acompanhar os ensinamentos de pessoas individuais ou em pequenos grupos. Hoje se sabe que os atenienses eram, antes de tudo, preocupados com o equilíbrio entre corpo e mente, e por essa razão sua educação contou com três tipos básicos de profissionais do ensino: os páidotribés, que cuidavam do desenvolvimento intelectual; os grammatistés, responsáveis pelo repasse da escrita e da leitura; e os kitharistés, que cuidavam do aprimoramento físico.

Já a Roma Antiga, constituiu o papel de educar através dos “retores” (não confundir com reitores, embora haja a sugestão) que, assim como os sofistas gregos, circulavam pelas cidades transmitindo seus conhecimentos em troca de compensação financeira incerta (observemos que já, a partir daí, a situação financeira não era boa).

Também, podemos citar a presença dos lud magister, que desempenhavam a função de alfabetizar as crianças que não tinham uma condição material mais abastada. A propósito, nota-se aí já uma preocupação social com o conhecimento para todos.

No nosso próximo artigo, continuaremos acompanhando a árdua, penosa, porém instigante profissão de Professor. Vale a pena acompanhar, principalmente quem é da área do ensino

* Professor do Centro de Biociências da UFRN, Psicólogo e Escritor