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15 de mai de 2008

SCARAMOUCHE (II)

Scaramouche (II)
*Juarez Chagas

Scaramouche volta no artigo de hoje a pedido de pelo menos três leitores, para saber mais a respeito dessa grande novela romântica que encantou a Europa e o mundo, após a Revolução Francesa.
Na verdade, o romance literário Scaramouche, de Rafael Sabatini escrito em 1921, apesar de manter o cerne da questão pré-revolucionária da França, vivida por um inquieto jovem aristocrata, com conflitos de ordem paterna, difere em muitos aspectos de Scaramouche, o filme. Neste último, além do excelente roteiro de Ronald Millar, do aspecto visual das locações, trajes da época e da beleza de uma França saudosa, o expectador pode também se deleitar com o modus vivendi de uma nação que respirava revolução por novos tempos, tendo a arte, principalmente através do teatro e da literatura, seus principais meios de contestar um reinado opressor do povo. Era preciso um ou mais heróis...e assim, surge Scaramouche, no momento certo para, de uma forma tão hilária quanto séria, contestar um reinado vitalício da nobreza que, na verdade, vivia às custas do povo, mas o oprimia como se fosse dever deste servi-lo e obedecer suas leis ultrapassadas.
Mesmo tendo conhecimento do teatro ambulante de Binet, o mais famoso da França, na época, André Moreau, sendo também um artista de teatro ambulante, jamais imaginara que iria, sob circunstancias adversas (pois estava sendo perseguido pelos homens de De Maynes), ter contato com este teatro, já encenando forçosamente, uma peça, no lugar do mais famoso palhaço da França, o qual, por motivos de embriagues não conseguia mais cumprir com seus compromissos artísticos. Na verdade, o verdadeiro Scaramouche era também um fracassado revolucionário, fato este desconhecido pelo próprio elenco de Binet.
Quando fugia dos homens de De Maynes, por ser amigo de Marcus Brutus (o amigo subversivo cujos pais criaram André, também) e estar visitando Aline de Gavrillac, a jovem protegida do Marques de De Maynes e, por quem André Moreau se apaixonara à primeira vista, esconde-se nos bastidores do teatro de Binet, onde ao entrar no camarim do teatro, se depara com Scaramouche, totalmente embriagado e esperando para ser chamado para entrar em cena, no palco. Ao perceber André entrar inesperadamente nos aposentos, o palhaço que, mal consegue ficar em pé, age como se estivesse em frente ao público, pois imaginara que André tivesse vindo arrastá-lo para o palco. Vale a pena lembrar este primeiro e decisivo encontro de André Moreau com Scaramouche, personagem que seria seu, a partir deste dia.
-Bem-vindo, amigo! Mil vezes bem-vindo! (André responde com Pssiuu, olhando para os lados para certificar-se que os soldados de De Maynes não estavam por ali).
- Pssiuu pra você, também. Mil vezes Pssiuuu! Qual é o seu nome? (ao invés de responder André passa o ferrolho na porta, o que causa um barulho característico).
- É mesmo?... Prazer em conhecê-lo (como André não lhe dá atenção, o palhaço se aproxima com dificuldade, para olhá-lo de perto).
- E qual é o meu nome, pergunte-me! Quem sou eu? (André gesticula com a mão, demonstrando preocupação com o ambiente, olhando para todos os lados).
- Não está interessado... Nesse caso, devo me apresentar a mim mesmo. Você sabe quem é esse? (André finalmente, olha o palhaço em sua eloqüência teatral, porém bêbado).
- Scaramouche! Sim, Scaramouche. Mas, quem é Scaramouche? E porque ele esconde seu rosto atrás de uma máscara? Você não sabe? Então, vou lhe mostrar...(Então, tira a máscara que esconde o rosto mais feio que André já vira, até então...)
- Scaramouche é...(cai desmaiado, enquanto André ouve, lá fora, os homens de De Maynes se aproximarem).
A partir daí começa (não somente para André, que troca de roupa com o palhaço para se livrar dos soldados e é levado subitamente pelos outros atores para o palco, mas para todos que acompanham a história), a verdadeira epopéia de Scaramouche, em sua luta, busca e revelação de sua verdadeira identidade, em combater seu pior inimigo e, ainda por cima, protetor de sua amada, por ordem da Rainha. Mas, agora André, leva avante a causa revolucionária de seu amigo, fazendo justiça a tríade Égalité, Fraternité, Liberté. Para se esconder da lei, junta-se a trupe itinerante da Commedia dell'Arte de M. Binet. Mas seu sonho é agora dominar a espada, conquistar seu amor e se vingar do tirano De Maynes, que no final das contas é seu irmão e, nenhum dos dois sabia, antes do magistral duelo entre ambos, culminando com a vitória de André. O pai de seu amigo e que o criara também como filho, o procura e conta-lhe toda a verdadeira história. André é filho bastardo do Marquês de De Maynes, pai do Noel De Maynes, atual marquês da Rainha, sua prima.
Ironias do Destino à parte, Scaramouche foi, em seguida adaptado na peça de Barbara Field e também nos clássicos cinematográficos, tendo sido sua primeira versão em 1923, estrelado por Ramón Novarro, e refilmado em 1952 com Stewart Granger, dirigido por George Sidney. É um clássico da Literatura e da Sétima Arte, conseguida hoje, apenas com colecionadores do gênero. Mas, mesmo assim, vale a pena conseguir, ler e ver!
Professor do Centro de Biociência da UFRN (Juarez@cb.ufrn.br)

SCARAMOUCHE

Scaramouche
* Juarez Chagas

“Ele nasceu com o dom do riso e com a impressão de que o mundo era louco”. Essa é a famosa frase de Sabatini, a qual abre as filmagens de Scaramouche, filme norte-americano, dirigido por George Sidney em 1952, desses que ainda hoje perguntamos porque não foi laureado com o Oscar, enquanto muitos outros, de inferior qualidade, foram.
Pois é, revi mais uma vez, neste final de semana, esta fascinante história de capa e espada, baseada na obra homônima escrita em 1921, por Rafael Sabatini (1875-1950).
O filme começa mostrando o melhor espadachim da França, em ação, o Marquês Noel de Maynes (interpretado por Mel Ferrer), então primo da rainha da França Maria Antonieta (Nina Foch), durante seus exercícios matinais que na realidade, são verdadeiros duelos de capa e espada, com seus desafetos. Uma comitiva da Rainha interrompe os duelos de De Maynes, entregando-lhe uma ordem para que se apresente, urgente, à Rainha, a qual tem recebido subversivos panfletos que denotam a insatisfação do povo contra os poderosos da França. Os panfletos com as palavras de ordem Liberté, Égalité, Fraternité, avisam que a revolução está próxima.
Sob essa temática e inspirado no desejo do povo, Sabatini escreveu Scaramouche, o Fazedor de Reis (Scaramouche, the King-Maker), muito bem captado por George Sidney, o qual já havia filmado, com sucesso, Os Três Mosqueteiros. A história desenrola-se na França pré-revolucionária, onde Marcus Brutus (que na verdade é o pseudônimo de Philippe de Valmorin (Richard Anderson), filho do casal que criou André Moreau) é apenas mais um dentre milhares que desejam o fim da aristocracia. Finalmente, o Marquês De Maynes consegue deter o panfletário, que está em companhia de André Moreau e que o vê ser assassinado em seus braços. André (magistralmente interpretado por Stwart Granger), jura vingar o amigo a qualquer preço, mesmo que para isso tenha que mudar toda a sua vida, como realmente foi o que aconteceu, de desconhecido passou a ser conhecido.
Moreau, além de não saber se defender com uma espada e viver com uma trupe de atores mambembes tem outros conflitos, principalmente de identidade, pois já aos 30 anos, não descobrira ainda quem são seus pais. Pressiona o advogado Fabian, que lhe dá uma pensão misteriosa por ser filho bastardo e, este acaba indicando o nome de seu pai, o Conde de Gavrillac. No caminho à mansão dos Gavrillacs conhece Aline (Janet Leigh), por quem se apaixona, apesar de namorar Leonore (Eleanor Parker), a atriz do teatro ambulante. No meio a tudo isso André é surpreendido pelos homens de De Maynes que o perseguem até que o mesmo se esconde nos bastidores do Teatro de Binet, o mais famoso da França, no momento. Lá ele encontra, totalmente embriagado Scaramouche, o palhaço mais importante do teatro, cuja máscara esconde o rosto mais feio, até então já visto. Para fugir, André troca de roupa com Scaramouche, mas sem que ninguém soubesse é levado para o palco. Surpresa: consegue proporcionar, inclusive aos guardas do Marquês, um dos melhores shows que o teatro já tivera, sendo assim, convocado a interpretar Scaramouche, dali por diante.
André frustra-se ao descobrir que Aline de Gravillac seria sua irmã e, pior ainda, que ela está sendo amparada por De Maynes, seu pior inimigo. Assim, entre o amor dela e de Leonore, fica mais confuso ainda. Entretanto, resolve aprender a arte do espadachim, pois somente assim poderia enfrentar seu inimigo. Assim sendo, passa a ter aulas com o mestre do próprio De Maynes que, num belo dia, o surpreende num dos treinamentos. Irado, De Maynes força um duelo e, ao vencer André já o ia matar quando Aline aparece, salvando André que escapa no meio da noite.
André não desiste e procura o mestre dos mestres, Perigone de Paris, o qual havia ensinado ao próprio Doutreval di Dejean, que por sua vez havia ensinado a De Maynes. Para isso, leva o teatro para Paris, onde De Maynes em breve se casaria. E é exatamente lá, durante um show do teatro de Binet que De Maynes se acha presente e, quando então Scaramouche deixa o palco para desafiar o marques perante a casa lotada. Até hoje, foi essa a luta de capa-e-espada mais longa que o cinema já teve. André vence De Maynes, mas não consegue matá-lo. Decepcionado por não ter conseguido cumprir a promessa, saiu correndo. Na noite seguinte, volta sozinho, desolado, ao teatro e tenta descobrir o que houve consigo, pois não conseguira matar seu pior inimigo. Georges de Valmorin, pai de Philippe de Valmorin (Marcus Brutus), que o criara desde pequeno, revela-lhe o segredo que faltava: André é irmão de De Maynes e não de Aline, como imaginara. Final Feliz.
Professor do Centro de Biociência da UFRN (Juarez@cb.ufrn.br)