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23 de nov de 2008

O HOMEM E O TEMPO

O Homem e o Tempo
(Publicado no Jornal de Hoje em 14/019/2005)
*Juarez Chagas


Talvez fosse mais apropriado inverter o título e dizer “O Tempo e o Homem”, por causa da ordem natural das coisas. Afinal, o tempo parece sempre ter existido, independentemente da vida ou da morte e quanto mais discutimos ou procuramos sentir o mesmo, admitimos ser a mãe Natureza detentora de seu infindável percurso, pois o tempo não tem nem começo, nem fim. E a nós humanos, nos é permitido apenas viver sua temporalidade.

Nós sabemos que dentre os medos que o ser humano habita em si, o tempo talvez se configure como o maior deles, muito embora não se tenha, nessa ótica, ainda atentado para tal, porque o mesmo parece latente, quando não hibernando em nosso interior. Medo este até mais presente do que o medo da própria morte, pois corremos o tempo todo contra ele mais do que da própria morte.

Esse medo poderia começar pela dificuldade que temos de conceituar o tempo, assim como a igual facilidade de sabermos ser seus eternos escravos, por estarmos definitivamente presos a uma temporalidade determinada periodicamente. As frases “Queria que o tempo parasse agora” ou “como gostaria de congelar o tempo como numa fotografia” ou ainda “gostaria que o mundo parasse”, falam muito mais do que seus próprios conteúdos, pois evidencia a impotência humana de poder prolongar momentos felizes ou encurtar momentos de angústia e sofrimento, frente ao dinamismo da vida que, a cada segundo se arrasta cada vez mais para sua finitude, sem que tenhamos certeza da realização ou conclusão de nossos sonhos e de nossas lutas.

E nesse sentido, o tempo é mais implacável do que a morte, pois parece estar tirando de nós as melhores coisas e os melhores momentos, a todo instante e, em contrapartida quando nos presenteia com elas, é tão efêmero que, mal começamos a viver essa felicidade, ela já está no fim. Quantas vezes por dia não ouvimos frases como “não deu tempo” ou “não tive tempo” ou ainda “parece que foi ontem...”. Na verdade, nós é que pertencemos ao tempo e não o contrário. Parece até que vivemos como inquilinos no espaço, aprisionados em períodos de vida. Mas, o que nos alenta é que nascemos para realizarmos e sermos felizes e não para cruzarmos os braços e apenas olharmos o tempo passar, doce, suave ou implacavelmente.

A associação do tempo com a morte não é apenas artística ou imaginária, como mostra um dos recentes quadros de Peter Jones (1984), no qual a morte em forma de esqueleto coberto com sua capa preta, montado em seu cavalo que voa os ares, empunhando em uma mão sua foice e na outra o relógio do tempo, em forma de bola de cristal. Quem já teve oportunidade de ver essa pintura, percebe de imediato essa íntima relação indissociável do tempo com a morte. A propósito deste quadro, é impressionante a constatação de seu significado para o imaginário humano, tanto individual quanto coletivo, pois o mesmo vendeu (só nos Estados Unidos) vinte mil réplicas em duas semanas. Às pressas, as pessoas arranjaram tempo pra sair correndo pra comprar algo que, muitas delas, nem sabia o porquê. Mas, a tela representa muito bem o mistério do tempo e da morte e talvez por isso tenha tido tanta repercussão e curiosidade.

Entretanto, a maior relação que o tempo tem é com o espaço. Na verdade, nem conseguimos imaginar quem surgiu primeiro, se foi o tempo ou o espaço. Mas, a coisa não fica por aí, pois do casamento do tempo com o espaço surge a velocidade, a qual hoje sabemos ser, expressa em quilômetros/hora, por causa da expansão do universo ter sido condicionada à uma imperfeita imagem de um cone cuja ponta representaria esse começo.
Hoje nós sabemos da vital importância da ciência sobre o começo no tempo em relação à visão do mundo. Mas, nem sempre foi assim. O homem primitivo foi descobrindo aos poucos sua noção de tempo. O dia e a noite, a lua e o sol, foram seus primeiros “relógios”, até que ele enterrou uma estaca no chão e passou a observar sua sombra circulando à medida que o tempo passava e o sol passeava nos céus. Então, ele começou a traçar riscos no chão, distanciando uma marca de sombra da outra, segundo o tempo que ele precisava marcar. Surgia o primeiro relógio, o relógio do sol. Claro, que na escuridão da noite, sem luz ele voltava a perder essa noção do tempo novamente.
Quando o homem então liberta seus braços e mãos, na tão importante chamada “braquiação” que o fez desenvolver e evoluir seu cérebro, segundo suas necessidades de uso das mãos, desenvolveu então o pensamento, as idéias, o raciocínio que substituíram grande parte dos instintos e assim, ele criou a ciência, sua mais importante aliada, da qual dependia sua sobrevivência (pois ele já não garantia mais sua sobrevivência apenas com os instintos que atendia, de uma forma inata, suas necessidades como sede, fome e sexo). Assim, passou a pensar e não somente percebeu, mas também enunciou que o tempo se confirma como linear com um eixo retilíneo, em torno do qual dispõem em espirais os diferentes ciclos da Natureza, tais quais os ciclos dos dias terrestres, dos meses lunares e dos anos solares. Estava inventado o calendário e uma nova forma de se viver se configurava temporariamente na face da terra.

Permito-me, numa ousada, embora modesta imaginação pessoal, discordar, especificamente nessa parte, do grande estudioso e cientista André Steiger que, em seu fabuloso livro Compreender a História da Vida: do átomo ao pensamento humano (PAULUS, 1998), no qual ele afirma que, “se o tempo teve começo, é provável que terá fim”. Mas, poderíamos nos perguntar: não existia tempo antes da vida na terra? Não existia o espaço, assim como o tempo no espaço? O próprio Steiger usa a palavra “se...”

Na verdade, quando falei sobre o medo do tempo, não é bem medo do próprio tempo e sim o que sua falta pode nos causar. O contrário, ou seja, tempo demais ou tempo sobrando, só é ruim e causa igual medo, quando se está sob tortura ou qualquer outro tipo de sofrimento. No mais, o tempo cura tudo e tudo resolve, já dizia minha avó. E assim, mais uma vez ficamos à mercê do tempo...

*Professor do Centro de Biociências da UFRN(Juarez@cb.ufrn.br)