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28 de jan de 2009

Carne às Bactérias!
(Publicado no O Jornal de Hoje)
* Juarez Chagas

Eu já tinha ouvido falar, porém nunca constatado! Pela primeira vez vi pessoalmente algo do gênero: num caixa de um dos grandes supermercados da cidade, algum(a) cliente havia deixado 2ks de carne vermelha (crua) num carrinho abandonado de última hora, por ter desistido da compra. Na fila, uma senhora na minha frente e que estava sendo atendida, perguntou a moça do caixa se poderia levar a carne, pois havia gostado do produto desistido.

A moça prontamente disse que ela não poderia levar o produto abandonado. Indagada por que, ela foi incisiva ao dizer que a carne iria para o lixo e que não poderia mais ser consumida.

- Lixo?! Mas, por que? Está estragada?! Perguntou abismada a cliente.

Após algumas contestações da cliente pelo fato de estranhar porque esse produto, já que não podia ser mais vendido, não era doado para instituições de pessoas carentes, uma vez que isso ocorre com freqüência. Quanto mais a moça tentava explicar, segundo a orientação que lhe fora dada, mais a cliente se indignava.
- Não. Esses produtos vão direto para o lixo (não entrou em detalhes sob de que forma iria para o lixo, se moída, incinerada, enterrada...), mas justificou que é uma norma, pois o produto que não volta para o frigorífico em tempo hábil "poderia" contaminar as pessoas que o consumissem, finaliza a moça, despachando a cliente.

Mas, isso não é tudo e, nem tão pouco um caso isolado, pois segundo pesquisas recentes, o desperdício de comida no Brasil, assim como também em muitos outros países (apesar de habitantes de lugares como a Biafra viverem morrendo à míngua) é preocupante e não se tem ainda adotado uma política social adequada para esse problema. Para se ter uma idéia, anualmente o país joga no lixo cerca de 26 mil toneladas de alimento, que poderiam alimentar 10 milhões de brasileiros, que constitui apenas uma parcela do total da população que passa fome, literalmente.Por outro lado, restaurantes e abastecedores de supermercados (além dos próprios, como foi o caso citado) jogam fora sobras de comida, frutas, legumes, verduras que poderiam ser reaproveitados, caso houvesse uma política norteada para este fim.

Infelizmente, os políticos estão mais preocupados em aprovar leis outras que não algumas voltadas para o combate à fome e à miséria dos que os colocaram no poder, para se empanturrarem das melhores comidas, rirem, beberem, degustarem vinhos e caviar e olharem o horizonte acima da miséria que agoniza e destrói seu semelhante necessitado e que, principalmente lhes colocaram no poder que não pode para eles. Assim, esses políticos aguardam as novas eleições para promessas que passam longe da verdade. Ironia ou não, essa é uma realidade.

De acordo com uma organização não-governamental voltada para essa questão, os brasileiros jogam fora, diariamente, cerca de 40 mil toneladas de alimentos, que seriam suficientes para 20 milhões de pessoas aplacarem sua fome necessária e decentemente. Isso sem falar também no desperdício de comida das próprias famílias que não se conscientizam que, enquanto jogam comida no lixo, muita gente morre de fome por não ter o que comer.

Mas, assim como também há alguns sensibilizados donos de redes de supermercados, hotéis e restaurantes (e, ainda e felizmente, alguns bons políticos também), é importante observar também que existe boa vontade por parte de alguns deles que gostariam de doar sobra de comida e alimento ao invés de mandar para o lixo, porém esbarram em normas complicadas que os impedem desse ato de solidariedade, pois com medo de doar e alguém sofrer uma intoxicação alimentar que possa resultar em processo judicial, normalmente inutilizam os alimentos com produtos químicos e, posteriormente encaminham para o lixo ou aterro sanitário. Mais irônico ainda é que, os catadores de lixo "selecionam" restos de comida nos lixões onde comem ali mesmo e levam também para suas casas. Eu mesmo já vi essa triste cena que humilha a raça humana como um todo.

Na verdade, falta uma política que cuide dessa questão de uma forma mais prática e humana que, em consonância com normas de saúde e ambiente sustentável pudessem reavaliar esses alimentos, através de laboratórios bromatológicos ou quaisquer outros meios seguros para reciclagem de alimentos devidamente indicados para consumo, no sentido de aplacar a fome de muitos em nosso planeta que morrem diariamente por inanição.Todos sabemos que dos alimentos descartados, principalmente as carnes, são rapidamente destruídas pelas bactérias, mas poder-se-ia evitar que milhares de pessoas morressem antes do tempo e, ao invés de se alimentarem de comida que sobra, não servissem de alimento ao mundo dos vermes, antes do tempo.

Às vezes, nossa sociedade é tão hipócrita e paradoxal que, eventualmente, suas leis acabam sendo contra elas mesma. Isso me faz lembrar um adágio popular americano que é posto em prática no cotidiano dos humanos: "Necessity knows no Law" (Necessidade não conhece Leis). Por isso que chega um dia que os necessitados fazem valer suas próprias leis, doa em quem doer...algo perigoso para a sociedade, mas factível.


* Professor do Centro de Biociências da UFRN (juarez@cb.ufrn.br)

SOLIDARIEDADE

Solidariedade
(Publicado no O Jornal de Hoje)
* Juarez Chagas

No artigo anterior me reportei sobre a questão do desperdício de alimentos por parte de supermercados, restaurantes, padarias, centros de abastecimentos alimentícios e, também famílias que, todos somados, jogam diariamente no lixo toneladas de alimentos que dariam para alimentar milhares de pessoas famintas, em todo o mundo.

Apontei, não somente essa dura realidade (inclusive por ter presenciado um exemplo local), como também a falta de normas e leis que pudessem permitir condições éticas, sanitárias e, principalmente questões humanas e solidárias para o reaproveitamento e reciclagem de alimentos em prol dos que passam fome e causam vergonha pelas gritantes desigualdades sociais numa mesma população de seres humanos que vivem num mesmo ambiente.

A famosa frase “All men are created equal” (Todos os homens são criados iguais, de 4 de Julho de 1776), usada por Thomas Jefferson como principal eco para a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, baseada na tríade vida, liberdade e direito à felicidade. Infelizmente, isso não reflete na prática, principalmente nos dias de hoje, o que realmente diz o seu contexto.

A verdade estaria mais para Rousseau que aponta que “a natureza estabeleceu igualdade entre os homens e estes estabeleceram desigualdade”. Convenhamos e não alimentemos a hipocrisia aspirando total igualdade entre os seres humanos, pois as diferenças também são leis naturais e devem igualmente ser respeitadas, porém não podemos admitir tanta desigualdade social, especialmente no que diz respeito aos direitos humanos, onde uns poucos têm tudo e a quase totalidade, quase nada. O resultado será o homem contra o próprio homem, indiscutivelmente.

Sobre aquele artigo, recebi alguns emails e comentários, inclusive no meu blog, dentre os quais gostaria de transcrever, na íntegra, um especial para que possa ilustrar como excelente exemplo de que ainda há pessoas e organizações solidárias (embora contemos nos dedos das mãos) que, não só defendem irmandade, cidadania e melhores condições sociais entre as pessoas, mas mostra que, se cada um fizesse sua parte, o mundo seria bem melhor:

“Meu caro Professor Juarez,
Tive o prazer de ler o seu, muito bem posto artigo, sobre o desperdício e o crime que se produz no Brasil no trato com alimentos. É sem dúvida, um crime em todos os aspectos que possamos considerar. Suas colocações são extremamente bem postas e quero lhe dizer que a mim, revolta também.
No entanto, algumas poucas entidades e empresas no Brasil, lutam para minorar este descaso gritante. Uma delas é o nosso SESC(serviço social do comércio) que através de suas unidades em todo o país , sustenta um programa , intitulado MESA BRASIL SESC, que cuida de evitar o desperdício de alimentos e inclusive a forma de manuseio para evitar contaminação e consequente desperdício dos alimentos em processo. Gostaria que o prezado , Professor nos desse a honra de conhecer nosso programa que está em operação, no nosso estado, montado nas cidades de Natal, Caicó e Mossoró, desde 2003.
Só para citar numeros, quero informar que , no ano de 2008 conseguimos distribuir pelas entidades de caridade espalhadas por essas cidades, o total de 885.000Kg , ou seja conseguimos salvar 885 toneladas de alimentos , entre frutas , carnes , peixes, camarões, castanhas, farinha de mandioca, ovos ,leite e etc , que iriam para o lixo e com isso conseguimos complementar 2.812.126 refeições. Toda essa matéria prima, nós recolhemos em fazendas, fábricas, supermercados, lanchonetes, restaurantes, frigoríficos, padarias, cooperativas de laticínios etc, com uma frota de 3 caminhoes frigoríficos, duas kombis e um caminhão normal e uma equipe própria de dezoito, colaboradores.
Com isto concluo , renovando o convite para que nos conheça e ao programa. Com um abraço, MARCONI MARINHO DE FIGUERÊDO, diretor regional do SESC/RN O telefone do MESA é 3201-3083, a Nutricionista responsável é Sra EVELINE”.

Não poderia deixar de agradecer a Marconi Marinho pelo seu email e, a toda a sua equipe, pelo exemplar trabalho que deveria ser seguido por muitos outros. É muito bom saber que o pensamento de Thomas Jefferson, não ecoa sozinho no mundo e que, aqui e acolá, há quem escute.

* Professor do Centro de Biociências da UFRN(juarez@cb.ufrn.br)