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11 de jan de 2012

Adeus, HOMEM MAU !


Adeus, HOMEM MAU !
*Juarez Chagas


Dizem que quando morre um herói, uma lenda é criada. Eu acredito nisso, pois todos nós temos nossos heróis que, independentemente de suas vontades, deixaram ou vao deixar suas lendas entre nós que, por sua vez, são repetidas e passadas de geração a geração através do tempo. São, inevitavelmente, muitas vezes modificadas, aumentadas, enfatizadas... por isso são lendas. Estes heróis são nossos pais, nossos amigos ou pessoas estranhas ao nosso convívio, mas que defendem, representam e nos mostram que sonhos existem e se realizam.

Dizem também que, quando morre alguém famoso, até os anônimos reverenciam sua partida para enaltecer sua fama. O contrário seria um absurdo, no contexto sociocultural da humanidade, pois desconhecido quando morre, ninguém toma conhecimento, muitas vezes nem seus próprios familiares

Nesse final de semana passado, mais precisamente no Dia de Santos Reis, faleceu um ícone dos Anos Dourados de Natal. É claro que faleceram outras pessoas também que, como seres humanos, tiveram todos sua pessoal importância. Mas esse ao qual me refiro, teve tanto sua pessoal importancia como também e, talvez mais ainda, importância, para muitos, no contexto social da Natal dos Anos Dourados, ou dos anos 60 e 70, por ter significado para toda aquela jovem geração, uma de suas próprias representações na irreverência, alegria, juventude e contestação através de seu humor.

Estou falando de Carlos Joaquim Vitoriano da Silva, cujo nome foi totalmente ofuscado e substituído por Homem Mau, apelido este dos mais felizes e autênticos já alcunhado em alguém que, lhe foi dado (dito e confirmado pelo mesmo) por Arnon Sávio, que era seu vizinho, na Monsenhor Pegado com a Jaguaray, com quem foi também parceiro de muitas de suas aventuras.

Eu costumo dizer (sem desmerecer outros humoristas que Natal já teve) que, sem precisar a exata cronologia, Natal conheceu três grandes repentistas naturais do humor: Zé Areia, Espanta Jesus e Homem Mau, sendo que um deles fez do humor sua profissão de vida. Os outros dois, destilavam seu fino humor, sátiras e “pegadinhas” apenas em seus meios boêmios e entre amigos. E...coitados dos amigos!

HM viveu e “aprontou” no bairro Jaguarary dos 16 aos 26 anos de idade, tendo sido, portanto, durante a década dos anos dourados, seu mais irreverente playboy e bom vivant, recluindo-se depois em Mirassol, praticamente no anonimato, como um pistoleiro que pendura e aposenta suas armas, mas que é procurado por muitos para constatar e relembrar sua fama. Mas, ele preferia rir do passado do que sacar novamente as armas e atirar balas de humor.

Anos mais tarde, longe de seu reinado do passado, tornou-se um pacato cidadão, aposentado de suas aventuras, casado e pai de três filhas e, recente avô, micro-empresário no ramo da construção civil e, como toda boa majestade, viveu sobre e não sob a fama e o deleite de um dos humores mais finos e espontâneos que Natal já teve e, justamente nos Anos Dourados. Sobre nao ter tido nenhum filho e somente as três filhas, às vezes ele zombava dizendo: “enquanto, com o passar da idade o homem mal (notem a indução ao termo “homem mal”, cacofonicamente proposital) suporta uma mulher, eu tenho logo quatro!” e ria, recuando a cabeça para trás, um hábito natural.

Não é porque Homem Mau nos deixou que escrevo este artigo em sua homenagem. Sou daqueles que defende homenagens aos vivos e aos mortos reverência, lembrança e respeito. A propósito, desde 2007 e 2008 que publico artigos, neste Jornal, sobre HM, por achar que seu legado e sua importancia nao deveriam ser esquecidos. Assim como também dediquei ao mesmo (quando ainda em vida) um capítulo inteiro no livro Nos Bons Tempos da SCBEU-Viagem nas Memórias dos Anos Dourados de Natal (lançado em 2011) onde se acha registrada sua trajetória e importancia na Natal dos anos 60.

Nas coroas de flores deitadas em sua tumba no cemitério, notava-se uma grande diferença nominal, onde havia reverência às duas pessoas numa só: um anônimo Carlos, cujo letreiro aparecia tímido e outra enorme simbolizando a lenda, totalmente em destaque, escrito HOMEM MAU ! Talvez, esta tenha sido, indiretamente, sua última sátira em cima do próprio nome de registro e de si mesmo. Imagino como ele nao deve tá se divertindo lá em cima, rindo de todos que ainda vivem na terra, por terem que aturar sua ausência. Adeus, Homem Mau!
*Professor do Centro de Biociência da UFRN (Juarez@cb.ufrn.br)