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14 de set. de 2008

BIOLOGIA E MORTE

Biologia e Morte
(Publicado no Jornal, anteriormente)
*Juarez Chagas

Biologia e Morte, a principio, parecem duas coisas totalmente distintas, pelo fato de sugerirem palavras antagônicas, porem nem tanto. Quando começamos a discorrer sobre cada uma delas em separado e, posteriormente, unindo os dois sentidos um no outro, às vezes, surge ate um impacto momentâneo, ao descobrirmos que são mais próximas do que imaginamos, muito embora sejam extremos e se coloquem exatamente uma oposta `a outra. Na verdade, essa separação entre Biologia e Morte parece ser mais semântica e cronológica, no que se refere a limites de continuidade entre uma e outra, porque enquanto Biologia é o estudo da vida, em todas as suas manifestações e amplitude, a morte é o contrario, e a cessão da própria vida e sua estação final, onde todos nós, mais cedo ou mais tarde, iremos desembarcar. Esse espaço indefinível e indivisível entre a vida e a morte e, evidentemente, os conflitos e sentimentos de perda que esta ultima causa, tem se constituído num dos maiores medos que o ser humano carrega em si e dentro de si ao longo de sua existência.

Na realidade, como já abordamos em matérias anteriores, o medo da morte é algo que se explica por si só, ou seja, não apenas pelo fator medo e não somente pelo fato da morte existir, mas pela constante e infindável ameaça, angustia e conflito existencial que ela derrama sobre nós e, principalmente pelos danos que ela parece causar a cada um e a todos nós que, inegavelmente, ainda não a aceitamos como parte natural e final de nossa existência. Em segundo lugar, viria o desconhecimento sobre a morte, desconhecimento este gerador de ignorância e desejo permanente de distanciamento cada vez maior entre sujeito e condição de mortal, responsável pelo constante temor do que ela representa e pelo seu eterno mistério desconhecido. Portanto, a ignorância e desconhecimento sobre a morte ainda são um de seus grandes escudos e uma barreira que a mantém sempre velada e misteriosa sob seu manto escuro, funesto e desconhecido.

Particularmente falando, meu interesse pessoal sobre o tema, a respeito de estudos e pesquisas sobre a morte não é recente, surgiu naturalmente ainda quando estudante universitário de Biologia, onde estranhava o fato de os estudos biológicos e da saúde, de um modo geral, seja no campo didático, seja no campo científico como um todo, não abordarem a questão da morte com essa mesma visão acadêmica com a qual aborda a cronologia biológica em seus seqüenciais estágios da vida. Os professores normalmente começavam abordando o tema, discorrendo sobre a origem da vida ensinando que o nascimento da terra teria sido gerado por uma nuvem de pó, forjado no primitivo fogo do cosmos e descrevendo as diferentes teorias sobre a formação do planeta ate o surgimento da vida advinda dos mares e oceanos primitivos através de suas combinações químicas e físicas. A partir daí todo conhecimento adquirido sobre a humanidade parece ter sido concentrado apenas na vida e o mínimo que se destinava à questão da morte era enterrado e oculto como algo proibido, assustador, maligno e ceifador da própria vida. Evidente que, tornar-se-ia cultural. Pra que ficar falando e ensinando sobre algo que nos abate? A principio, parece lógico, mas não é. Deveria ser justamente o contrario. Conhecer o inimigo e um dever!

Eu sempre ficava com uma ponta de curiosidade quando os professores, sendo eles biólogos, médicos ou filósofos, faziam questão de lembrar a Biologia como sendo o estudo da vida e, a partir daí discorrer sobre todo o processo vital do desenvolvimento humano, deste o estágio de vida intra-uterina, nascimento, todas as infâncias, adolescência, fase adulta, até sua senilidade. E, naquele ponto que representava a velhice, paravam a discussão como se fosse o último estágio do ser vivo e como se nada mais interrompesse esse processo, mesmo sabendo que tudo culminaria com a morte. Assim, eu estranhava a ausência de explicações sobre a morte, como sendo o final desse processo, mas que permitia um novo início do ciclo vital para a perpetuação da espécie humana (a figura da pintura deste artigo, feita pelo Autor para palestra específica sobre Biologia e Morte, sugere exatamente a perpetuaçao da espécie, apesar da morte)
Somando-se a esse silêncio escolar proposital e receoso em desvendar e desmistificar a morte, percebia também o enorme medo e incômodo das pessoas em discutir sobre tão funesto assunto, comportamento esse inerente do ser humano e praticamente “instituído” pelas diferentes culturas e velado escolar e academicamente.
Felizmente, o momento atual da sociedade, tem incluído como uma de suas prioridades e preocupações uma especial atenção sobre estudos e pesquisas sobre a morte. Já não era sem tempo! Entretanto, parece um paradoxo, pois apesar de existirem muitas associações internacionais tratando do assunto, no entanto não conseguiram inclui-la ainda no seio acadêmico ou escolar, o que seria sem sombra de duvidas o meio mais adequado e eficiente de educar as pessoas para admitir e enfrentar a morte e resolver, mesmo que parcialmente, o conflito existencial humano causado pelo medo da morte.
“Estudar, debater e discutir sobre a morte, não significa enaltecê-la e sim conhece-la e entende-la como um fenômeno natural para que possamos valorizar, amar mais a vida e vivermos melhor” Essa devera ser a primeira premissa a ser considerada nos debates e estudos sobre a morte, em níveis acadêmicos e que em breve, gostaria de vê-la projetada em alguma sala de aula ou palestras e seminários.
* Professor do Centro de Biociências da UFRN juarez@cb.ufrn.br

Um comentário:

Anônimo disse...

Fantástico, professor...

Pela primeira vez percebo uma abordagem inteligentemente profunda acerca deste assunto.
Parabenizo-o e faço votos de que seu desejo se torne realidade em breve.