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14 de nov de 2008

O OLHAR DA CRIANÇA SOBRE A MORTE (I)


O Olhar da Criança Sobre a Morte (I)

*Juarez Chagas



O que dizer a respeito do olhar da criança sobre a morte numa sociedade onde o próprio adulto refuta a questão e evita buscar um melhor entendimento sobre a finitude humana? Se o medo da morte não é uma questão hereditária, pelo menos é passado, de certa forma velada, de geração a geração na sociedade ocidental. Essa seria uma consideração preliminar no que diz respeito ao tabu da morte e que resulta num comportamento, digamos de “autoproteção”, através dos tempos, mas que também, uma vez exacerbado, pode causar determinados transtornos mentais e comportamentos indesejáveis por parte de pessoas que passar a ver e sentir esse medo como uma perseguição subjetiva.

Para discutirmos sobre essa questão, faz-se necessária antes uma cronologia sobre o olhar da sociedade sobre a criança, ao logo da história da humanidade. Antes do Século XVIII até meados do Século XIX, na Europa, assim como na América do Norte, a criança não era valorizada e era tida como um pequeno ser sem personalidade. Essa idéia errônea era tão forte que ao morrer, muitas vezes nem tinha um nome ou, por outro lado, seu nome seria dado à outra criança, como se houvesse apenas uma substituição. Desta forma, na Idade Média, mesmo com as reservas às quais a criança era imposta, ela era tida como um “adulto pequeno”, portanto eram pequenas todas as suas atribuições, pensamentos e importância que tinha com seus lugares na família e na sociedade.

Acontece que a partir da segunda metade do Século XIX surge um diferente comportamento tendo à frente as mulheres e o clero, onde as crianças mortas continuavam sendo imaginadas vivas e habitando o além, na “Terra sem Mal”, onde eram idealizadas como anjos ou pequenos santos, formando aí um imaginário individual e coletivo e ilusório, mas que preenchia um desejo e vínculo com a criança que partira.

Mas, para contrapor o comportamento que normalmente se tinha sobre a criança nessa mesma época, a burguesia, para a qual a morte da criança era a menos tolerável de todas, passou a perpetuar suas formas idealizadas através de estátuas e representações alegóricas. Chegando à sociedade atual, nos deparamos com a clara negação da temática morte, com a atenuante de ser uma sociedade capitalista na qual a morte sofre uma mudança radical com tratamento logístico e tecnológico, além da questão da ciência (diferentemente da religião) combater a morte até onde for possível, ao invés de primeiro primar por seu entendimento e aceitá-la como desenvolvimento humano.

Em seu livro A Psicologia da Morte, Robert Kastenbaum (448 pags, Editora Universidade de São Paulo, 1983) faz a seguinte colocação: “A criança procura ativamente experiências de ir-e-vir, aparecer-e-desaparecer. Mais tarde (ainda na infância), ela é capaz de permanecer um pouco desligada do que observa. Percebe a morte e os atributos da morte na situação. Mais tarde ainda (talvez depois da primeira infância), desenvolve os tipos de estruturas cognitivas às quais comumente se aplica o termo concepções”.

Observando o fantástico mundo lúdico da criança e, em cima do que Kastenbaum diz, podemos perceber que ela faz de certas brincadeiras “experimentos” com a morte, fazendo com que lidem, mesmo nessa fase da vida, com a questão da morte muito melhor do que o adulto que, na fase adulta, substitui essa relação pelo medo. As brincadeiras de aparecer-e-desaparecer (muito comuns na Inglaterra e em outros países europeus), são vistas como pequenos experimentos realizados pelas crianças frente à morte ou frente ao não-ser. O brincar de esconde-esconde (hide and seek), morto-vivo ou mocinho-e-bandido (muito comuns no Brasil) refletem elaborações de concepção de morte, pela criança. É importante observar que nestas brincadeiras ela sempre vence a morte.

Mas...qual o olhar ou quais os olhares da criança sobre a morte? Seguramente, não é esse que o adulto mostra ou evita-lhe ensinar. O tema é vasto e para uma melhor discussão sugiro meu primeiro artigo publicado no O Jornal de Hoje (em 10/11/2004), intitulado “Quantas Vezes Morrermos Antes de Thanatos Chegar?”, o qual encontra-se neste blog. É só rolar as páginas para encontrá-lo.

* Professor do Centro de Biociências da UFRN(juarez@cb.ufrn.br)

2 comentários:

Anônimo disse...

FALAR DO TEMA MORTE E ALGO MUITO DIFICIL E COMPLICADO,POIS MESMO APRENDENDO E DISCUTINDO QUE OS SERES FAZEM PARTE DE UM CICLO, ACEITAR NO DIA-A-DIA A PERDA UM SER QUERIDO, E UM SENTIMENTO MUITO TRISTE E DIFICIL QUE UM SER PODE PASSAR NA VIDA, O LIVRO TEM TEMATICA EXCELENTE EM TODOS OS SENTIDOS, ACEITAR E OUTRA COISA.

Anônimo disse...

Muito importante citar a criança neste contexto e ressaltar que em algumas brincadeiras elas fazem experimentos com a morte. Diferentemente do adulto, ela apresenta-se poderosa, destemida, indestrutível...Percebi este comportamento nos anos em que trabalhei em orfanatos, e tentei entender como as crianças incorporam alguns ingredientes a sua vida: a irreversibilidade, a não funcionalidade e a universalidade da morte.
Magnífico artigo!!!


Ass: Psicóloga